Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Ode ao mestre Segismundo Spina

Professor que dedicou a vida aos estudos e pesquisas nas áreas de Filologia e Literatura do Medievo e que se tornou “Emérito” por seu talento, sua vocação para ensinar e seu amor à Idade Média, Segismundo Spina é o homenageado nesta crônica

Professor Emérito da Universidade de São Paulo (USP), Spina deixou uma obra marcada pelo estilo único e as intenções didáticas, nos livros sobre a Idade Média e a Filologia

Ao iniciar esta crônica, não me sai da memória uma frase do poeta Jorge de Lima em “Ode ao Coxo Veloz”,[i] em que o poeta declara sua amizade e sua comunhão literária com o escritor francês Georges Bernanos, exilado no Brasil dos anos 40 do século passado:

“No momento em que ia escrever sobre ti, Bernanos, fui impelido por secreta força íntima a escrever-te. Estás em frente a mim, meu amigo, com tua beleza física, esses olhos translúcidos cor de mar, ou cor do céu, com esse jeito meio alçado de enorme pássaro de Deus.”

Embora não tenha te conhecido, professor Segismundo Spina, é como te vejo agora, lendo teus livros[ii] com a alegria do discípulo que vê em ti a mais alta figura de professor, de mestre, que emérito se tornou pelos serviços prestados à Universidade de São Paulo e ao Brasil.

Apenas, em vez de nos falares, professor Spina, ésa exemplo do que o poeta alagoano dizia do escritor francês, “como uma sombra que me escutas as palavras terrenas que tu vês sem me poder responder, pois tua linguagem na Eternidade mudou o vocabulário das almas”. Também a ti, professor Spina, exíguo torna-se o vocabulário deste cronista para saudar-te, constrito que fui por toda uma vida dedicada ao Comércio, mas que se fez diplomar em teus cursos de Filologia e de Língua Portuguesa, sem jamais ter de se submeter aos dolorosos exames finais!

Como quase todos os teus trabalhos, professor Segismundo – não o cumprimentei jamais face-a-face, daí confundir-me sempre no vocativo, perdoa-me por isto –, todos esses trabalhos, dizia, que nasceram de cursos ministrados na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, ao longo de uma profícua vida de quase um século (ao certo, 91 anos!).

De ti, Spina, os que não fomos teus alunos, mas apenas leitores apaixonados, sabemos afirmar que recebemos muitos exemplos de “como dar contribuição a uma área de estudos muito complexa [como é a dos estudos medievais e de filologia] com simplicidade e eficiência”.

Deixaste a tua Itajobi, em São Paulo, onde nasceste em maio de 1921, para a graduação no curso de Letras Clássicas e a pós-graduação na USP. Em 18 de setembro de 1944, iniciastes na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) como auxiliar técnico da cadeira de literatura portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas em 12 de fevereiro de 1987. E, em 13 de abril de 1989, recebeu o título de professor emérito pela Faculdade.

Ao longo de tua carreira de professor dos cursos de Letras da USP – atuando principalmente nas áreas de linguística, letras e artes; literaturas vernáculas – tu deste muitas “notáveis contribuições à filologia” e, dizem os que reportam a tua carreira de professor e crítico que, também “à crítica textual e aos estudos literários. No Brasil, [Spina] tornou-se referência obrigatória para os estudos da obra camoniana e da estética barroca. Foi também responsável pela difusão do conhecimento objetivo das estruturas do poema”.

De ti, disse em importante congresso de professores, Yara Frateschi Vieira, da Unicamp: ““O professor Spina pertence às primeiras gerações de intelectuais brasileiros que se formaram em universidades nacionais e nelas permaneceram, contribuindo com o seu trabalho de docência, orientação e pesquisa para a construção e transmissão de um saber institucionalizado, sim, mas não limitado, no seu âmbito e alcance, às paredes da escola.”

E mais poderia este velho escriba dizer, dileto Mestre, porque és autor de diversos livros, tendo como obras mais destacadas os estudos Do Formalismo Estético Trovadoresco e Apresentação da Poesia Barroca Portuguesa. Na Editora da USP (Edusp), tem três títulos publicados: A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária. A tua editora me ajudou a reconstituir em síntese uma carreira de uma vida, diante da qual prostramo-nos todos que admiramos a Literatura Medieval e os estudos de Filologia.

Sabemos que uma literatura não sobrevive sem pesquisadores do naipe de Spina, daí que agora volto-me a ti, leitor, para te repetir as palavras do ex-assistente de Spina, o professo Oswaldo Humberto L. Ceschin na edição que tenho sobre a mesa e que te desejo seja leitura em futuro breve: “Este livro é um exemplo de como dar contribuição a uma área de estudos muito complexa com simplicidade e eficiência. A iniciativa da Ateliê editorial de recuperar para o uso de tantos que se interessam por cultura e literatura este precioso resultado do conhecimento e da experiência de Segismundo Spina merece aplausos. Publicado em 1973, volta agora em nova e cuidadosa edição, como convém a um trabalho científico e didático que preservou, por seu conteúdo, o valor e a atualidade.”

A Cultura literária medieval: “um exemplo de como contribuir com uma área de estudos muito complexa com simplicidade e eficiência”

De fato, caro leitor, este livrinho – “A cultura literária medieval” do professor Spina merece ser lido mesmo por leigos. Aqui encontramos uma divisão pedagógica em três partes teóricas específicas (As Formas; O Estilo; A Temática) e cinco sinopses cronológicas de excelente alcance didático pela abundância de dados ordenados, segundo os critérios críticos adotados pelo autor. O professor Spina expõe os elementos fundamentais da literatura medieval a partir das formas, do estilo – expressão que marca, segundo Ceschin, “o artista, o movimento e a época –, e dos temas, que nas relações com a forma e a expressão constituem o lastro dessa matéria estética elaborada no período das cruzadas, da cavalaria, dos monastérios, das catedrais, das relações feudais e senhoriais que mudaram a história europeia.

As cinco sinopses cronológicas do livro estão assim apresentadas por Segismundo Spina:
Sinopse I) Século IX-XI – a. Séc. IX-XI; e Fins do séc. XI – Período de criação – foco: França;
Sinopse II) Século XII – Sentimental e Imaginativo; Sinopse III) a. Século XIII – Racionalista – Escolástico – Primado da França; b. Fins do Século XIII – Início do Primado Italiano; Sinopse IV): Século XIV – Aurora do Humanismo – Primado da Itália; Sinopse V): Século XV – Outono da Idade Média e Madrugada do Renascimento. Ainda o Primado Italiano.

E eis que surge o meu leitor invisível a me alertar: “mas não entra em contradição com a crônica que aqui mesmo você fez publicar, dizendo que não se deve fatiar a história, num artigo com foco no medievalista francês Jacques Le Goff?”

Sim, bem-apanhado, mas não me sinto em sinuca, dileto Leitor. O fato é que o propósito do professor Spina justifica uma visão periodizada da história, haja vista que, como diz o próprio autor “o presente estudo situa-se na linha de nossos trabalhos de cultura literária que visam a estimular o interesse e o gosto pelos setores inóspitos da literatura: de um curso acerca de uma epístola de Antônio Ferreira, nasceu a nossa Introdução à Poética Clássica; de outro, a propósito das formas versificatórias da Baixa Idade Média, surgiu o Manual de Versificação Românica Medieval; de uma preleção acerca dos ideais da Idade Média, vem agora este opúsculo, que antes passou pelo estágio de artigo, publicado na Revista de História Literária de Portugal (Coimbra, Ano II, Vol. II, 1964, pp. 95-125, Set./1965).”
Ora, é a partir de suas experiências pedagógicas que o professor Segismundo Spina nos habilita a seguir o caminho de “aventura e encantamento” que é percorrer os caminhos da Idade Média, certos de que estamos sendo guiados por mestre seguro do destino traçado. Eis-nos diante de um “Mestre da palavra poética” – título que aqui tomo de empréstimo ao professor Alfredo Bosi, ao falar do Spina poeta, que ficou num segundo plano, para que o pedagogo tomasse a cena.

Saiba o leitor, como bem nos adverte o Autor que, “o ingresso na cultura medieval, em especial a literária, não se faz sem pagarmos um pesado tributo; a compreensão dos valores dessa época exige do estudioso uma perspectiva ecumênica, pois as grandes criações do espírito medieval – na arte, na literatura, na filosofia – são frutos de uma coletividade que ultrapassa fronteiras nacionais. E uma visão de conjunto só se adquire depois de muitos anos de trato e intimidade.”

Daí a justificativa do fatiamento pedagógico e que é de grande valia ao iniciante nos estudos Medievais, pois, partindo da arte literária, pela angulação apropriada do jogo destas três forças – Formas, Estilo, Temas –, o Autor nos leva a compreender a criação literária como fruto do quadro geral da cultura medieval. Este olhar para dez séculos da atividade literária medieval exige do autor um esforço de síntese que está bem realizado no livrinho em foco.

Spina fundamenta sua pesquisa em fontes absolutamente confiáveis que vão de Arondel (Michel) a Zumthor (Paul), passando por Huizinga (Johan), Bossuat (Robert) e Burckhardt (Jacob) até nosso austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux. E por assim proceder, Spina prova que sua obra representa um marco no ensino da história na Academia brasileira. Tal como Curtius diz da obra de Toynbee, que representaria uma obra contra “a indolência mental científica e, por conseguinte, numa evasiva ante uma prova que perturba a rotina daquela acomodada atmosfera escolar”, tal como nos dias de hoje representa a obra de um Ricardo Costa, para quem não me canso de chamar a atenção do leitor católico, no sentido de encontrar ali um guia para compreender aquilo que Funck-Brentano[iii] disse do século XII em França “o espaço em que ninguém põe em dúvida a verdade da religião, a que servem com fervor, e em que suas crenças são exatas e concretas” era este tempo (o século de Bernardo de Claraval) forte bastante para que “a abóboda estrelada do céu limitasse o mundo e seu pensamento, tempo em que as preces se elevavam a Deus e aos santos, como se vizinhos próximos fossem e estes, por seu turno, intervêm incessantemente nos negócios humanos, vivendo os iguais familiarmente sobre a terra, para além das nuvens, o que dava aos sentimentos humanos uma energia que não conhecemos mais.

E essa energia que transborda das páginas de Segismundo Spina, a Idade Média sem os pejorativos esquemas deletérios que a ela foram atribuídos pelos filósofos ditos “livres pensadores”, aos matemáticos e racionalistas de um século que decidiu voltar às costas ao de sua própria mãe –, pois que não haveria renascimento sem os diversos renascimentos que essa época abençoada promoveu na história da humanidade.

Deixando de lado os esquemáticos fatiamentos que fazem de uma era riquíssima apenas um rastro de trevas, quando há nela tanta luz, não poderá o leitor se mover para o futuro. E do futuro, descortina-se a herança como algo que é capaz por si própria de se reinventar, séculos depois, nas releituras e nos hermenêutica mais tolerante e abrangente, hermenêutica presente em Carpeaux, num Curtius, em Spina, num Le Goff e em Ricardo Costa.

Aproveite, dileto Leitor, o que o mestre Spina tem a nos ensinar, na arte da filologia, em sua função substantiva, que se concentra no texto para explicá-lo; na sua função transcendente, onde o texto deixa de ser um fim em si mesmo para se transformar num instrumento que permite ao que cria e ao que relê “reconstituir a vida espiritual de um povo ou de uma comunidade de uma determinada época.” E mais ainda: na função “adjetiva, em que a filologia deduz, do texto, aquilo que não está nele: a determinação da autoria, a biografia do autor, a datação do texto, a sua posição na produção literária do autor e da época, bem como sua “valorização”, que é para Segismundo Spina “a avaliação estética” par excelence.

Por tudo isso, vale e muito a pena (re)ler Segismundo Spina.

E encerro, voltando-me para ti, professor Segismundo Spina para quem do alto da Eternidade, em que estabeleceste morada, para que ouça a voz de um de seus admiradores, aqui encravado no sertão de Goiás, de onde, nós, os vivos, te contemplamos com admiração, como bem resumiu a professora e escritora Edith Pimentel Pinto (da mesma USP), “a história intelectual do professor Spina está associada à história institucional da Universidade de São Paulo. “A linha que une o aluno de Letras Clássicas dos anos de 1940 ao titular de Filologia de 1973 passa por todos os degraus da vida acadêmica”, observa. “Nesse percurso, cada patamar ficou assinalado por testemunhos de uma vocação firme e uma pertinácia exemplar…” – como bem lembrastes em teus versos, logo abandonados para dedicação ao estudo da obra de outros:
                “Para o mundo esperar do brilho de uma pena
A página mais bela, o canto mais sublime,
Foi preciso que fosse Isócrates, num crime,
Deslumbrar-se da glória estética de Helena.
Quem nos pode tecer, tão mágica e serena,
Uma ideia genial, flexível como vime,
Se não sente consigo a força que lhe imprime
O amor e a exaltação d’alguma Polixena?!…

                Vá lendo os cantos meus, porém, digo em verdade,
Não hesito em dizer que o meu leitor não há de
Nos meus versos buscar alguma coisa rica.”

Ave, Spina!

[i] LIMA, Jorge de. In: “Bernanos no Brasil”, Petrópolis (RJ), 1968. P. 15.

[ii] SPINA, Segismundo. “A cultura literária medieval”. São Caetano do Sul (SP), Ateliê Editorial, 2ª. ed., 1997. O poema final desta crônica é citado no site da editora Ateliê sob o título “Um mestre da palavra poética”, por Daniel De Luccas, citando artigo curto de Alfredo Bosi, sobre o livro de SPINA, S. “Poesias”, publicado pela própria Ateliê Editorial, 2008. Link consultado em 01/02/2018: http://blog.atelie.com.br/2013/01/um-mestre-da-palavra-poetica/#.WnOGU6inGUl

[iii] FUNCK-BRENTANO, Fr. “Le moyen âge”, Paris, Hachette, 1922, p. 151.

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