O suicídio exemplar na literatura de Enrique Vila-Matas

Livro de autor espanhol analisa os passos decisivos de personagens suicidas pela perspectiva camusiana, segundo a qual o problema fundamental da filosofia está centrado na decisão se a vida vale a pena ou não ser vivida

Enrique Vila-Matas: sua ficção é um misto complexo de histórias puramente inventadas com constantes citações de obras literárias, artes em geral e música (compositores e intérpretes) | Foto: Divulgação

Solemar Oliveira
Especial para o Jornal Opção

“É preciso imaginar Sísifo Feliz.” Entre uma subida e outra, quando Sísifo ergue duramente a pesada rocha e entrega com seu esforço o inútil bloco irregular ao cume da montanha, é possível imaginar infinitas histórias acontecendo simultaneamente, superpostas, todas dando sentido para a ingrata tarefa.

Para Albert Camus, “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio.” E em seu ensaio intitulado “O Mito de Sísifo” ele explora exatamente esse tema. A personagem desse drama, Sísifo, foi condenada pelos deuses a empurrar incessantemente uma pedra até o alto de uma montanha, de onde ela cai inevitavelmente todas as vezes que é levada até lá. Uma rotina que caracteriza um trabalho inútil, sem esperança e cheio de dor. A redenção está no caminho entre a base e o topo.

Pela experiência de Sísifo, cada nova subida é diferente da anterior. Segundo Camus, “cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem.”

Nesse sentido, um tropeço de Sísifo, um olhar para o pôr-do-sol vermelho e sangrento enquanto sobe indiferente ao peso do pedregulho, o olhar de escárnio de um improvável observador, o cansaço surpreendentemente novo ao perceber que o objeto desceu alguns centímetros ao invés de subir, uma ave que pousa por segundos acima de seus ombros aumentando levemente o peso, o afundamento no solo rochoso devido a sua persistente caminhada, podem somar-se, formando histórias independentes e sustentando os intervalos temporais que existem entre subida e descida.

A literatura é um ambiente em constante mudança. Precisa estar em constante desconstrução. O novo escritor tem que superar os anteriores para criar uma literatura original, sofisticada, diferente, relevante”

Marcha letal
Como na prosa de Enrique Vila-Matas, especialmente em seu conto “A Arte de De­sa­pa­recer” do livro “Suicídios Exem­plares”, onde o leitor inicia a jornada com a premissa de que os protagonistas irão se suicidar, é preciso levar em conta que o importante é o caminho entre o passo inicial e o final da marcha que leva ao fim dramático e letal.

Enrique Vila-Matas é um pre­miado escritor Espanhol, nas­cido em 1948, em Bar­ce­lona. Ele viveu auto-exilado em Paris onde amadureceu sua prosa e é um dos mais cultuados escritores contemporâneos. Herdeiro da literatura borgiana, apresenta em seu trabalho forte presença de intertextualidade e metalinguagem.

Sua ficção é um misto complexo de histórias puramente inventadas com constantes citações de obras literárias, artes em geral, música (compositores e intérpretes), grandes cânones, etc. A literatura, propriamente dita, é a personagem central de sua obra.

Dentre seus mais de 30 livros publicados, traduzidos para mais de 30 idiomas, podemos citar “A Viagem Vertical” (2004), “Bartleby e Co.” (2004), “O Mal de Montano” (2005), “Exploradores do Abismo” (2007), “Paris Não Tem Fim” (2007), “Suicídios Exemplares” (2009), “Doutor Pasavento” (2010), “História Abreviada da Literatura Portátil” (2011), “Dublinesca” (2011) e “Não Há Lugar Para Lógica em Kassel” (2014).

No conto “A Arte de Desa­parecer”, a personagem de Vila-Matas, o professor de língua e educação física Anatol, parece entender que sua vida não é relevante, vive com “uma recusa total do sentimento de protagonismo”. É um homem cuja busca é obscura, escreve uma literatura extremamente pessoal e íntima que julga não servir para mais ninguém do que a si próprio.

Em suas palavras, “para que me exibir (raciocinava Anatol cinicamente) e por que dar os meus textos para impressão, se no que eu escrevo suspeito não haver mais que uma cerimônia íntima e egoísta, uma espécie de interminável e falsificada fofoca sobre mim mesmo, destinada, portanto, a uma utilização estritamente privada?”.

Anatol parece possuir uma opinião análoga a do escritor Dalton Trevisan: “o importante não é o autor, é a obra.” Escreve para si mes­mo, mas acredita que a obra tem relevância maior que sua vida.

Ele caminha no mundo tranquilamente com essa ideia fixa da sua desimportância e acredita viver uma vida feliz fazendo-se, por vocação, um estrangeiro em seu próprio país e com isso pretende manter-se anônimo, esperando que nunca seja descoberto o escritor em seu interior. Anatol escreveu sete extensos romances sobre o tema do equilibrismo.

Pela experiência de Sísifo, cada nova subida é diferente da anterior. Segundo Camus, ‘cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem’.”

Final trágico

No livro de contos de Vila-Matas, a premissa básica é a de que os protagonistas irão se suicidar, e o importante nisso é o caminho percorrido | Reprodução

A literatura é um ambiente em constante mudança. Precisa estar em constante desconstrução. O novo escritor tem que superar os anteriores para criar uma literatura original, sofisticada, diferente, relevante. A questão importante na obra de Vila-Matas está na estrutura organizacional do roteiro que encaminha o protagonista para o seu final trágico.

Em seu conto, a personagem-escritor Anatol revela sua obra e, depois do interesse de um grande editor da ilha de Umbertha, seu país natal, fica profundamente modificado e inicia sua jornada em direção ao abismo. Anatol agora é Sísifo. Todo o sentido está na caminhada entre a base e o topo, ou seja, construir sua literatura formatada em torno do tema do equilibrismo, brincar de Deus mergulhado nas páginas de seus romances, sem nunca ter que publicá-los, pois não quer terminar a jornada, quer subir ao topo e descer novamente para uma nova etapa. Já fez isso sete vezes!

Esse pensamento de Anatol segue uma linha vila-matasiana de pensamento, assim como citado por uma de suas personagens do livro “Historia Abreviada da Literatura Portátil”, obra fundamentada em uma “realidade adulterada em favor de uma fantasia exuberante”, como bem descrita pelo escritor Valter Hugo Mãe, onde o escritor espanhol escreve que “um livro não é apenas um fragmento do mundo, mas um pequeno mundo em si mesmo”.

O tema do suicídio é assunto recorrente na obra de Vila-Matas, ao ponto de o escritor inventar, de maneira formidável, a Agência Geral do Suicídio, um departamento peculiar na história da literatura portátil. Nessa agência, um “meio bastante adequado de abandonar a vida” é oferecido como função primordial.

Como diz seu principal expositor, Jacques Rigaut, em um anúncio publicitário: “… de todas as extinções, a morte é a única que jamais se desculpa. Assim se organizam os enterros-expressos: banquete, cortejo de amigos e conhecidos, fotografia (ou máscara mortuária à escolha), distribuição de lembrancinhas, suicídio, colocação no ataúde, cerimônia religiosa (facultativa), translado do cadáver ao cemitério. A Agência Geral do Suicídio se encarrega de realizar as últimas vontades dos Senhores Clientes”.

Abismo
Outro tema de Vila-Matas, que impele o protagonista Anatol a se comportar como outras personagens do escritor, é a atração pelo abismo. O abismo atrai e leva ao suicídio.

Enquanto Anatol envereda pelo abismo do medo, ter sua obra publicada, Vila-Matas aproveita para fazer uma avaliação da literatura, da produção e divulgação de uma obra. As linhas que se ocupam dessa função são profundamente reveladoras. É o dilema de Anatol em questão, sendo dissecado.

Nesse momento, entre a base e topo da montanha, uma história é contada, uma definição para a jornada é uma das facetas do escritor que nos oferece uma personagem que margeia a lateral da estrada, para não escorregar ou pisar em falso e mergulhar no abismo, e para que com isso possa cumprir metodicamente a trilha inevitável de Sísifo.

Escapar significa desaparecer. Entre todas as histórias superpostas, para contar como a personagem determina sua história entre os extremos dolorosos e absurdos, essa que Vila-Matas escolhe é justamente uma que trata da literatura como personagem.

Anatol, guardadas as devidas proporções, assemelha-se a Jó. E Jó é o próprio Sísifo, quando reinicia a jornada toda vez que vê tudo sucumbir no topo da montanha e desce sereno para uma etapa que, em mínimos detalhes, diferencia-se da última. A vista do cume é a derradeira paisagem. Anatol conhece exatamente suas qualidades de escritor, por isso mete-se no corpo de um estrangeiro em seu próprio país e divulga essa inverdade para tornar-se um “escritor secreto”.

O narrador discursa sobre suas habilidades. “Mesmo que pudesse, teria sido incapaz de assinar um texto fraco; além disso, acreditava que cada homem tem escrita no próprio sangue a fidelidade de uma voz e que não faz mais do que obedecer a ela, por mais invalidações que a ocasião sugerisse.”

No livro de contos de Vila-Matas, a premissa básica é a de que os protagonistas irão se suicidar, e o importante nisso é o caminho percorrido | Foto: Divulgação

À beira do precipício
Esse viés, essa história suicida contada por Vila-Matas para incluir o papel da publicação de um livro na vida do escritor e no futuro da literatura é descrita por Anatol em dois momentos significativos do conto. Primeiro Anatol reflete profundamente sobre a importância da obra: “É triste (disse Anatol desviando-se da questão) mas cada vez se glorifica menos a arte e mais o artista; cada vez se prefere mais o artista à obra. É triste, acredite em mim”.

E faz entender que o autor realmente oculta-se nas linhas por ele escritas, ele não é tão relevante quanto o livro que escreveu. Sua obra literária é o marco histórico de sua vida.

Depois Anatol explica detalhadamente a sua posição em relação a sua obra, como se sente o criador quando sua criatura ganha o mundo e não fica mais protegida pelo abraço caloroso de seu gerador e, ainda, como será a opinião das pessoas (a crítica) sobre o seu feito:
“– Bem que gostaria. Mas nunca me atrevi a ser, porque é um trabalho muito duro. Se você cai, merece a mais convencional das orações fúnebres. E não deve esperar nada além disso, porque o circo é assim, convencional. E seu público é descortês. Durante os movimentos mais perigosos, fecha os olhos. O público fecha os olhos quando você está roçando a morte para deslumbrá-lo! É um trabalho duro que nunca me atrevi a praticar. Tenho fugido sempre do menor risco, e é por isso, talvez, que nunca me decidi a publicar, a correr esse perigo infinito de uma aventura literária que pressentia poder conter não sei que sementes de uma peripécia realmente sinistra. Publicar era e é, para mim, algo assim como arriscar-se a dar um passo em falso no vazio. Se eu algum dia visse publicado meu romance, sofreria esse fato como uma afronta, me sentiria nu e humilhado como se diante de uma comissão médica militar”.

Anatol aqui escolhe seu caminho como Sísifo escolheu o seu, mas sem pisar na beira do precipício. Algo que só poderia acontecer caso se desviasse de sua tarefa fundamental. Assim como Sísifo, ele deve desaparecer.

Quem empurra a pedra não é relevante. É feliz subindo e descendo. Faz o trajeto de bom grado. Escreve sete romances e se sente feliz enquanto realiza esse trabalho. É hercúleo, dificílimo, como é realmente difícil escrever um grande livro, um livro relevante. Mas a obra pronta ganha vida própria. O escritor desaparece. Anatol se suicida. Agora não é mais relevante. É preciso imaginar Anatol feliz.

Solemar Oliveira é escritor, pós-doutor em física e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG)

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