O que faria Casanova?

O que faria Casanova, aquele amantão que, dizem, além de comer todo mundo, comeu até a Ponte dos Suspiros de Veneza? Experimentaria, como eu experimentei, deitar cedo, deitar tarde, levantar de madrugada, levantar ao meio dia, entrar numa de neurolinguística, de shiatsu ou de reiki, tomar só chope e ficar uma semana sem fumar, engolir zilhões de miligramas de fluoxetina, sertralina, paroxetina, mirtazapina e venlafaxina, e suar no cooper e nos jogos de peteca, ou mandaria às favas as opções e convidaria para jantar a mulher do amigo mais à mão?

Cunha de Leiradella
Especial para o Jornal Opção

No dia em que o governo federal recebeu o maior cheque já emitido no Brasil (R$ 3.199.974.496,00 pela privatização da Companhia Vale do Rio Doce), nada aconteceu em Belo Horizonte que perturbasse o sono bem-aventurado dos colunistas sociais. Ou a ronda dos executivos enrustidos pelos fliperamas do centro.

Na verdade, apenas dois motoristas de táxi foram assassinados, três bancos foram assaltados, quatro traficantes foram mortos, cinco menores foram estupradas nos bairros periféricos e o filme “Kama Sutra” estreou nos cinemas Center 1, Cidade 3 e Del Rey 1. Na televisão, a Record anunciava “Os Patrulheiros Aposentados Atacam Outra Vez”; a Manchete, “Diário De Uma Filmagem”; a Alterosa, “Madison, A Sereia”; a Bandeirantes, “Confissões de um Assassino”; a Globo, “Duas Babás Nada Perfeitas”, “Magnum 44” e “A Vingança da Pantera Cor de Rosa”; e, nos jornais, apesar de ter morrido em Paris o diretor de cinema italiano Marco Ferreri (inveterado perdedor do Festival de Cannes, mesmo tendo dirigido A Comilança), só as colunas dos horóscopos se aventuravam a contradizer os boletins meteorológicos. O meu signo, Escorpião, esse, então, nadava de braçada.

No Jornal do Brasil, Max Klim afirmava, categórico: “hoje persiste o quadro de mudança que pontificou em sua semana, os acontecimentos o levarão a uma boa situação diante de amigos e parentes mais próximos, no amor é importante a retribuição a gestos de carinho”.
No O Estado de S. Paulo, Oscar Quiroga, não tinha dúvidas: “você é capaz de atravessar a máscara da realidade e enxergar os motivos profundos que se desenvolvem na alma do mundo, faça com que essa informação o torne mais sábio e capaz de continuar evoluindo”.

No O Globo, Rosângela Alvarenga, com Plutão como regente, não deixava por menos: “casamento ou qualquer relação sexual numa fase mais calma, converse com o seu parceiro, mas não muito, só o suficiente para manter o companheirismo, prefira momentos divertidos”.
No Estado de Minas, sem a regência de Plutão, a mesma Rosângela Alvarenga ia ainda mais além: “casamento ou qualquer relação sexual numa fase mais calma, boa oportunidade de revigorar a relação, converse com o seu parceiro, mas não muito, só o suficiente para manter o companheirismo, prefira promover momentos divertidos com o seu par”.

O dia era perfeito. Mesmo com aquela chuvinha e aquele ventinho chato que assobiava pelas frinchas da janela nada poderia dar errado. E já que os acontecimentos me levariam a uma boa situação diante de amigos e parentes mais próximos, e eu era capaz de atravessar a máscara da realidade e enxergar os motivos profundos que se desenvolvem na alma do mundo, podendo, ao mesmo tempo, conversar com o meu parceiro, embora fosse preferível promover momentos divertidos, também não tive dúvidas. Mandei às favas a preguiça e resolvi encarar a chuvinha e o ventinho chato que assobiava pelas frinchas da janela.

Desliguei a televisão, tracei um resto de queijo e de salame, engoli meio litro de Coca-cola, joguei os jornais na lixeira e saí cantarolando “Só as Mães são Felizes”, do Cazuza. “Você nunca sonhou/ser currada por animais/nem transou com cadáveres”. Lembro que era “Só as Mães são Felizes” porque, ao cruzar na portaria com o síndico, ele deu uma paradinha acintosa, olhou-me de banda e resmungou um palavrão.

Não gostei da cara, nem do resmungo, mas não liguei. E continuei com “Só as Mães são Felizes”. “Nunca traiu o teu melhor amigo/nem quis comer a tua mãe”. Afinal, se os acontecimentos me iam levar a uma boa situação diante de amigos e parentes mais próximos e eu era capaz de atravessar a máscara da realidade e enxergar os motivos profundos que se desenvolvem na alma do mundo, não seria um síndico babaca, que só pensava em cobrar uns míseros seis meses de condomínio atrasado, que iria estragar o meu dia. E, como podia, ao mesmo tempo, conversar com o meu parceiro, embora fosse preferível promover momentos divertidos, não parei nem para pensar. Dei também uma paradinha acintosa, olhei-o de banda e, na maior tranquilidade, abonado pela minha faixa preta em taekwondo, mandei-o à puta que pariu.

O palavrão fez-me bem. Me deu firmeza. Na verdade, apesar de persistir o quadro de mudança que tinha pontificado durante a semana, não era possível essa informação me tornar mais sábio e capaz de continuar evoluindo, nem havia condições de promover mais momentos divertidos com o meu par. Estava desempregado, a minha mulher tinha-se mandado e há meses não dava uma trepada.

Por isso cheguei ao Cidade 3, decidido a assistir o “Kama Sutra” como ele devia ser assistido num dia em que nada tinha acontecido em Belo Horizonte que perturbasse o sono bem-aventurado dos colunistas sociais e a pescaria dos executivos enrustidos. Tranquilo e pedindo a Deus que nenhuma câimbra me paralisasse os dedos da mão direita.

Quando as luzes apagaram, sem me preocupar mais em atravessar a máscara da realidade e enxergar os motivos profundos que se desenvolvem na alma do mundo, meti a mão no bolso das calças e recostei-me na cadeira. Se a diretora Mira Nair desnudasse a mulherada do seu “Kama Sutra” como diz que Freud desnudou o nosso id, aí, talvez esse desnudamento me tornasse, realmente, mais sábio e capaz de continuar evoluindo.

***

Um conto como este seria do escambau. A merda é que não sei como terminá-lo. Chegar à masturbação foi fácil. O problema foi continuar. Alguns sentem-se terrivelmente vazios e há quem descambe até no mais profundo sentimento de culpa. Outros, entretanto, sentem-se satisfeitos e acham a punheta a mais importante invenção da humanidade depois de Deus. Mas há também os que se orgulham de resistir à tentação e passam o resto da vida deitados nos divãs dos analistas. E há, ainda, os ou, ou. Ou estão sempre bem servidos ou houve falha na libido. Quer dizer, opções não faltam, o que falta é saber como usá-las.

O que faria Casanova, aquele amantão que, dizem, além de comer todo mundo, comeu até a Ponte dos Suspiros de Veneza? Experimentaria, como eu experimentei, deitar cedo, deitar tarde, levantar de madrugada, levantar ao meio dia, entrar numa de neurolinguística, de shiatsu ou de reiki, tomar só chope e ficar uma semana sem fumar, engolir zilhões de miligramas de fluoxetina, sertralina, paroxetina, mirtazapina e venlafaxina, e suar no cooper e nos jogos de peteca, ou mandaria às favas as opções e convidaria para jantar a mulher do amigo mais à mão?

Cansado de correr e de pular, e engulhado de xaropes e de cápsulas, decidi entrar numa de caminho alternativo. Quem sabe, pegando as alternâncias, eu aprenderia a usar as opções e escolheria a melhor delas?

A primeira foi fácil. O galeno do desvio atendeu ao primeiro toque do telefone e marcou a hora sem pigarrear. A segunda, se não foi tão fácil, também não foi impossível. Com algum esforço e meia dúzia de palavrões, enfiei-me no terno do casamento (de terno e gravata ninguém diria que era eu) e lá fui. E gostei. Gostei mesmo. Cansado de correr e de pular, e engulhado de xaropes e de cápsulas, aquela recepção espartana convenceu-me. Meu caro senhor, não existem doenças. Existem, sim, doentes que acreditam em doenças. Posto isto, comecemos.

E começamos. Não me auscultou, nem pediu nenhum exame. Apenas escutou, atentamente, as minhas opções. Chegar à masturbação foi fácil, doutor. O problema foi continuar. Alguns sentem-se terrivelmente vazios e há quem descambe até no sentimento de culpa. (Aqui ele me olhou.) Outros, entretanto, sentem-se satisfeitos e acham a punheta a mais importante invenção da humanidade, depois de Deus. (Aqui ele sorriu.) Mas há também os que se orgulham de resistir à tentação e passam o resto da vida deitados nos divãs dos analistas. (Aqui ele balançou a cabeça.) E há, ainda, os ou, ou. Ou estão sempre bem servidos ou houve falha na libido. (Aqui ele sorriu outra vez.) Quer dizer, opções não me faltam, doutor, o que me falta é saber como usá-las. (Aqui ele cruzou as mãos em cima da mesa e olhou bem no oco dos meus olhos.) Meu caro senhor, a sua exposição foi clara, claríssima, e o resultado é transparente. (Fez uma pausa e limpou as lentes dos óculos.) Assim sendo, só posso concluir que, aquilo que o senhor chama de problema, não é problema, é solução. (Aqui eu sorri.) O que o senhor necessita é, apenas, apenas, entendeu bem? Apenas de um pouco de sintonia sistemática. (Aqui eu olhei-o, preocupado, mas o sorriso que veio tranquilizou-me.) Um pouco de gymnastiké, como diria Sófocles, um dos maiores atletas da Grécia, embora também seja conhecido como autor de tragédias. Calou-se e, sempre sorrindo, trocou o folheto pelo meu cheque (sem fundos) e pronto, o problema estava resolvido.

GINÁSTICA CEREBRAL

Desperte seu cérebro!
Abra todos os canais e amplie
a sua capacidade de pensar!
Ligue o Kínesis com o Ítis e seja você mesmo!

RESPIRAÇÃO NEURONIAL
De pé, nu, espalme as mãos nas nádegas e respire. Expire pela boca, em sopros rápidos. até esvaziar os pulmões, e inspire, profundamente, até estofar a barriga como se fosse um balão. Prenda a respiração o mais que puder e solte o ar como se estivesse assobiando, mas sem fazer nenhum ruído, até que o sopro atinja uma continuidade natural. Faça de uma a cem respirações completas.

ALONGAMENTO CEREBELAR
Sente-se no chão e espalme a mão direita sobre o umbigo. Com o dedão do pé esquerdo pressione a planta do pé direito. Se tiver pé chato ou pé de anjo não desista, pressione, apenas, com mais força. Respire. Com o polegar da mão esquerda esfregue, com força, a ponta do nariz durante 5 segundos exatos, movendo os olhos da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Faça de um a cem alongamentos completos.

ALONGAMENTO CIRCUNVOLUTÓRIO
Ainda sentado no chão, coloque um tornozelo sobre um joelho. Se for canhoto, coloque o tornozelo direito. Se não for, coloque o tornozelo esquerdo. Aperte com força a parte baixa e magra da planta do pé, usando a mão esquerda para o tornozelo direito ou a mão direita para o tornozelo esquerdo. Se tiver pé chato ou pé de anjo não desista, aperte, apenas, com mais força. Respire. Ao inspirar, dobre a língua de forma que a ponta fique a um centímetro dos dentes de siso. Se já não tiver dentes de siso não desista, use os molares. Ao expirar desdobre a língua e feche os olhos. Faça de um a cem alongamentos completos.

ALONGAMENTO TRANSLATÓRIO
Ainda sentado no chão, dobre os joelhos e comprima as solas dos pés contra o chão. Se tiver pé chato ou pé de anjo não desista, comprima, apenas, com mais força. Deslize, vagarosamente, as pontas dos dedos das mãos pelo rosto até se juntarem na ponta do queixo e feche os olhos. Aperte a ponta do queixo com força e abra a boca o mais que puder. Respire. A língua deve levantar e baixar no mesmo ritmo das inspirações e expirações. Faça de um a cem alongamentos completos.

ALONGAMENTO CAPACITÂNICO
Ainda sentado no chão, coloque as mãos na nuca e procure os pontos chaves do seu corpo. São dois e localizam-se junto da raiz dos primeiros cabelos. Se for careca não desista, lembre-se onde começava o seu cabelo. Comprima, com força, com os dedos mindinhos, mesmo sentindo dor, e respire fundo. Feche os olhos e não pense em nada. Ao expirar, deixe de comprimir e bata as pálpebras vinte vezes. Faça de um a cem alongamentos completos.

ALONGAMENTO GENOMÂNICO
De pé, comece a marcar passo, com movimentos firmes e seguros. Cerre os punhos com força e mantenha os braços rígidos, esticados ao longo do corpo. Feche e abra os olhos, e respire, sempre na cadência dos movimentos. Faça de um a cem alongamentos completos.

EFEITOS COLATERAIS
Mantenha sempre os ouvidos fechados a qualquer ruído natural. Nada deve interferir na união do Kínesis com o Ítis. Para evitar efeitos colaterais indesejáveis escute, unicamente, o Canto Gregoriano do Coro de Monges del Monastério Beneditino de Santo Domingo de Silos, edição especial da Kliniko Meditações S.A. Qualquer outra edição deste canto gregoriano afetará a sua cura e deixará sequelas irreparáveis.

Uma cura como esta seria do escambau. A merda é que não sei como começá-la. Ler o folheto foi fácil. O problema foi continuar. Alguns sentem-se terrivelmente frustrados e há quem descambe até na mais profunda psicose maníaco-depressiva. Outros, entretanto, sentem-se satisfeitos e acham a ginástica cerebral a mais importante invenção da humanidade depois da Internet. Mas há também os que se orgulham da razão e passam o resto da vida construindo miniaturas da igreja de Notre Dame com palitos de fósforos queimados. E há, ainda, os ou, ou. estão sempre bem servidos ou houve falha na libido. Quer dizer, opções não faltam, o que falta é saber como escolhê-las.

O que faria Casanova, aquele amantão que, além de comer todo mundo e a Ponte dos Suspiros de Veneza, dizem que ainda comeu a Torre Inclinada de Piza? Assistiria outra sessão do Kama Sutra e mandaria ver outra punheta, ou arriscaria fazer os exercícios mesmo sem a edição adequada do Canto Gregoriano do Coro de Monges del Monastério Beneditino de Santo Domingo de Silos, sujeitando-se aos efeitos colaterais de não ter o CD da edição d Kliniko Meditações S/A, como era o meu caso?

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Gente, Marinalva me largou não foi por nada, não. O meu pau é que deixou de levantar e ela não acreditava em estresse.

Cunha de Leiradella é dramaturgo, romancista, contista e roteirista luso-brasileiro.

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