Winston Churchill, o homem mais importante do século 20, ajudou o mundo a ser o que é, ao criar estratégias de combate contra as forças nazistas; o filme “O Destino de uma Nação” mostra isso muito bem

Gary Oldman como Churchill em “O Destino de uma Nação”, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator, numa atuação tida como a melhor de sua carreira | Foto: Reprodução

João Paulo Teixeira
Especial para o Jornal Opção

O filme “O Destino de uma Nação” trata do maior ho­mem público do século 20, brilhantemente interpretado por Gary Oldman, cujo papel lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator. É um filme, portanto, que merece ser assistido com atenção do começo ao fim. O título da película em inglês (“Darkest Night”, “A mais escura das noites”, em tradução livre) já é, por si, o retrato do que viria a ser o plot point do planeta e da humanidade.

Se Sir Winston Churchill não tivesse passado por essa noite escura, o mundo seria tão diferente, que provavelmente nem este texto seria escrito em português. Aprendería­mos alemão ao invés de inglês nas escolas primárias. Mas, a vida privada de Churchill e a importância desse estadista na História, com H maiúsculo, são tão marcantes que até Hobsbawm, outro H, as reconhece.

O novo é o que o filme retrata dois elementos fundamentais para en­tender como a Grã-Bretanha, a solitária ilha náutica desde a Idade do Bronze (palavras do próprio Churchill), enfrentou e venceu a guerra contra um império tão organizado que poderia ter desembocado no Milésimo Reich.

Churchill, além de ser o ho­mem mais importante do século 20, o é também por ser o único grande estadista a sentar no mesmo panteão de Prêmios Nobel como T.S Eliot, Faulkner e Hemingway. Chegou lá por defender, com a literatura e seus grandes discursos no rádio, os direitos humanos e a liberdade.

Até o último homem
Os elementos estão espalhados no longa. O principal está na belíssima cena (me emocionei profundamente ao vê-la) quando ele, apeando de um Rolls-Royce puro sangue britânico, desce ao metrô, e lá encontra a verdadeira mescla do que era o povo inglês na década de 1940; nortenhos, imigrantes negros das colônias, futuros fãs de Beatles e até a vanguarda do mundo, que, naquele tempo já havia criado a máquina a vapor com Trevithick (e com ela uma revolução industrial), e até a teoria de Darwin.

“Se eu pedisse trégua, o que vocês pediriam”, indaga Churchill à turba: a resposta deles vem enfática: “resistência até o último homem”. “Se invadirem Londres, vamos enfrentar a Luftwaffe com cabos de vassoura, se necessário”, diz uma dona de casa, de forma altamente romantizada pelo roteiro de Mark Boal e Anthony McCarten.

É nesse tipo de gesto que está o glamour da coisa. Não é um fil­me feito para o espectador médio a­mericano, cheio de explosões e bombas como os de Bay ou mes­mo para as dramatizações bem feitas de Nolan (“Dunkirk”) e Spiel­berg (“O Resgate do Soldado Ryan”).

Aliás, as cenas de guerra são ra­rís­simas. Duram menos de 30 segundos, somadas. Aqui, elas se pas­sam apenas nos calabouços de uma área estratégia do front e nuances no Parlamento. Os momentos decisivos de Churchill estão temperados com diálogos tensos e carregados de ódio, como os comuns em “A Queda: As Últimas Horas de Hi­tler”, do alemão Oliver Hirschbiegel.

Winston Churchill (1874-1965) com uma Tommy Gun, durante inspeção perto do porto de Hartlepool, 1940, em plena Segunda Guerra Mundial: sem sua sagacidade, o mundo seria diferente hoje

Sagacidade
Mesmo com a Monarquia (o encontro definitivo com o rei se dá em um quarto bagunçadíssimo, com uma torpe iluminação), a obscuridade está presente. Quan­do protocolarmente é ne­cessário beijar a mão de Jorge VI, logo uma fala certeira a suplanta: “não posso recebê-lo às 16 horas. Eu durmo nesse horário. É necessário. Eu trabalho até tarde”, completa ao monarca um dos frasistas mais parafraseados de todos os tempos.

Quando o rei lhe sugere que al­mocem juntos às segundas-feiras (ele o faz com o tradicional Scotch e doses boas de champanhe francês, que arranca gargalhadas na plateia), Churchill pontua para um assessor: “dizer que encontrá-lo uma vez por semana é pouco, soa como dizer que tenho que arrancar um dente uma vez por semana.”

Outro elemento sistemático, que se soma ao primeiro – que é a consulta ao povo escrita no legítimo papel de pão, nas coxas, tão avesso ao modo britânico –, está na ligação para Theo­dore Roosevelt, no famigerado telefone vermelho que Kubrick mostra em “Dr. Fantástico”.

“Mande-nos aviões que compramos com o dinheiro que tomamos emprestados de vocês”. De lá, o sotaque americano responde. “Não posso, estou de mãos atadas. Uma Lei no Congresso me impede. O que posso é encaminhar uma tropa de cavalos, que podem buscar pelo Canadá”. Churchill até abaixa o telefone da orelha. “Cavalos!”

É a síntese do que foi o mo­men­to. Londres, em todo o desfecho da Segunda Guerra Mundial, recebeu toneladas a mais de bombas que Berlim. Mesmo assim, se não fosse a sagacidade de Chur­chill em ouvir o povo, enfrentar Neville Chamberlain e a posição dos lordes – que organizavam um acordo de paz redigido via Itália de Mussolini -, alicerçar o rei, que, nessa altura, queria dar uma de D. João VI e mudar para a Colônia, o mundo definitivamente teria mudado.

Churchill foi o pioneiro ao decidir tirar os EUA da omissão, a forçar o Terceiro Reich a começar uma trágica campanha pelo Leste (não aprenderam nada com Napoleão e Tolstói) e provar que o nazismo poderia ser vencido, tanto ideologicamente quanto fisicamente. Foi com essa percepção que a Inglaterra salvou o mundo ocidental. Ela partiu de um único homem. Gary Oldman mostra isso como se fosse o próprio senhor do terno, do charuto e da Tommy Gun.

João Paulo Teixeira é publicitário pela UFG e secretário de comunicação em Caldas Novas