O homem que brincou de Deus – 200 anos de “Frankenstein”

A criatura sem nome que todos nos acostumamos a chamar pelo de seu criador está de pé há dois séculos, e mais viva do que nunca, graças à qualidade narrativa do texto junto com a adoção feita pela cultura pop do aterrorizante ser

De proporções estranhas e disformes, a criatura de Frankenstein era “capaz de sobreviver nas cavernas de gelo das geleiras e de se esconder nas gargantas de precipícios inacessíveis” | Foto: Reprodução

Gilberto G. Pereira

Se não fossem o cinema e as manifestações da cultura pop, como animação, comerciais de TV, videoclipes, camisetas etc., a criatura monstruosa da inglesa Mary Shelley, no romance “Frankens­tein – Ou o Prometeu Moderno”, não teria uma projeção tão presente, mas ainda assim estaria por aí, fascinando um magote de gente, os leitores.

O livro de Mary faz dois séculos de existência este ano. Depois de tanto tempo sendo traduzido, editado, reeditado, lido e relido, interpretado, reinterpretado, o que permaneceu vivo no interior do texto da autora? A resposta é fácil: as palavras, as imagens sugeridas e reconstruídas em nosso imaginário, os encadeamentos de cenas, o ritmo.

Juntando as qualidades intrínsecas à narrativa com a adoção pela cultura pop do aterrorizante ser, a criatura sem nome que todos nos acostumamos a chamar de Fran­kenstein, numa espécie de metonímia (a criatura pelo criador), está de pé, mais viva do que nunca.

O romance conta a história de Viktor Frankenstein, cientista ambicioso que quis brincar de Deus, mas ao invés de criar um homem, criou um monstro. Por outro lado, também pode ser compreendido como o conto de uma criatura humanoide de laboratório que sonhava com a beleza e a bondade dos homens.

Olhando por esse ângulo, vemos inclusive o quanto a autora parece ter sido fascinada pelo monstro. Por isso ele cintila e até comove. A criatura “desejava amor e amizade”, mas só encontrou desprezo e violência pelo caminho, devido a sua aparência externa. E então decidiu revidar na mesma moeda, usando a potência de seus dotes físicos e intelectuais para semear a violência e o medo.

Mary Shelley concebeu a história em 1816, aos 19 anos, finalizou-a em 1817, mas só a publicou no ano seguinte. Quando ela publicou “Frankenstein”, Charles Darwin tinha nove anos, Gregor Mendel e James Maxwell ainda não tinham nascido; Einstein e Norbert Wiener nem eram sonhos no etéreo espaço do nada.

Duzentos anos depois, todos esses caras, de algum modo, entraram para a história como os representantes da grande revolução tecnocientífica que o mundo jamais viu. Eles revolucionaram em suas respectivas épocas e nas subsequentes, que avançaram ainda mais no progresso de invenções como neurociência, cibernética, nanotecnologia, robótica, bioengenharia, bionanotecnologia e a internet com seus algoritmos tiranos.

O DNA foi descoberto. Realizou-se o mapeamento genético. A clonagem animal foi anunciada, e oxalá não haja loucos confinados em algum laboratório pelo mundo afora construindo homens sem alma, não da matéria morta, mas de células cuidadosamente produzidas e observadas em refinados tubos de ensaio.

Influências

Mary Shelley (1797-1851) foi revolucionária, uma mulher bem à frente de seu tempo, até mais que sua mãe, a escritora feminista Mary Wollstonecraft | Imagem: Reprodução

Mary Shelley foi revolucionária, uma mulher bem à frente de seu tempo, até mais que sua mãe, Mary Wollstonecraft, escritora arrojada, uma das primeiras feministas da história moderna, autora do livro de militância “Reivindicações dos Direitos da Mulher”, que aparece na lista dos “Cem Livros Que Mais Influenciaram a Humanidade”, de Martin Seymour-Smith.

Mary Wollstonecraft morreu aos 38 anos, em 1797, ao dar à luz jus­tamente sua filha Mary, que viria a se casar com o poeta Percy Shel­ley. Criar um personagem que nasce dos restos de mortos é como ressuscitar corpos, o que psicanaliticamente tem muito a dizer do espírito dessa garota criativa e tão corajosa quanto a mãe, que morreria para ela nascer.

Seu romance fez milagres de invenção, se comparado com as descobertas futuras, que ela não viveria para apreciar. As novas descobertas científicas permitiram à imaginação criativa explorar novas distopias biomecânicas como “Eu, Robô”, de Isaac As­simov e “An­dro­ides Sonham Com Ovelhas Elétricas?”, de Phi­lip K. Dick, além dos muitos ro­teiros hollyoodianos, ou mesmo distopias genéticas como “Admi­rável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “Não Me Abandone Jamais”, de Kazuo Ishiguro.

Mary sabia o que estava fazendo. Seu romance nasceu quando as ciências naturais começavam a se tornar poderosas, prestes a verificar à clínica um poder vertical, expurgando o saber popular e o misticismo científico. “Os cientistas mo­der­nos penetram nos recessos da natureza e mostram como ela opera em seus esconderijos”, diz o senhor Waldman, um professor de Viktor.

Ao ouvir essa observação, Viktor se sentiu desafiado: “Tanto já se fez. Mais, muito mais eu realizarei”, vaticinou. O livro de Mary nasceu de um desafio semelhante. Quando se casou, ela passava o tempo lendo e viajando. Em 1816, Mary e o marido foram passear na Suíça e se hospedaram numa casa vizinha à do poeta Lord Byron, nos arredores de Genebra.

Era verão. Pretendiam ficar passeando pelas margens do lago que havia na cidade, ou remando. Mas na maior parte do tempo acabaram na sala de estar, reunidos com Byron, conversando sobre literatura ou lendo histórias de terror, devido a dias a fio sob chuva. Até que Byron sugeriu que cada um escrevesse uma história de fantasmas.

Enquanto os outros definharam em suas propostas de oficina criativa, Mary continuou: “Eu me ocupei em pensar uma história – uma história capaz de rivalizar com as que haviam nos entusiasmado”, diz a autora num texto de abertura publicado junto com seu romance na primeira edição. Ela conseguiu. Seu romance vem entusiasmando leitores há dois séculos.

Ambiente propício
Mil e oitocentos foi o século das aventuras individuais, de homens que se lançavam em empreitadas exploratórias singrando os mares em navios para diversos fins. Foi o século dos baleeiros, dos expedicionários das ciências naturais, dos solitários desbravadores de mundo. Foi o tempo de aventuras como as do capitão Akhab, de “Moby Dick”, do narrador de “Coração das Trevas”, dos livros de piratas e marinheiros de Robert Stevenson e Jack London, respectivamente.

Esse ambiente semovente era propício para a história que Mary Shelley queria contar. A trama é construída por meio de cartas e relatos, inclusive do próprio monstro. Tudo começa em uma viagem de Robert Walton (expedicionário que vivia explorando o mundo, gastando a fortuna herdada do tio) rumo ao Polo Norte.

Quando está em Archangel, Robert encontra Viktor Frankenstein, obstinado e quase congelado, na perseguição sem freios a sua criatura monstruosa. Este narra toda sua história. Estudara a fundo os ramos das ciências naturais (química, física, biologia e matemática) e quando se sentiu desafiado pelo professor, decidiu descobrir a qualquer custo o segredo da criação da vida.

Viktor era um garoto mimado de Genebra, sem sensibilidade estética, sem senso de proporcionalidade (talvez por isso fosse moderno, e talvez por isso tenha criado um monstro fora da proporção humana). Não era rebelde, mas seu espírito era tão livre que achava que podia recriar a vida e se dedicou a isso durante os anos de faculdade em Ingolstadt, na Baviera, quando a Alemanha ainda não existia.

Ao terminar o monstro, costurado de vários pedaços de cadáveres roubados do cemitério (daí o romance ser considerado terror gótico), assustou-se com o que tinha feito e se arrependeu. Mas já era tarde. Sua primeira reação fez a criatura sentir-se ultrajada e fugir.

Ainda procurou o criador para um diálogo civilizado. Sem acordo, o ser trazido à vida por um homem maquinou planos terríveis para atormentar Viktor, matando seu irmão, seu pai, seu melhor amigo, sua noiva. Cada morte, era arquitetada de tal modo que a culpa de Viktor sempre aumentava mais.

A princípio, o monstro tentou argumentar. Ele era bom nisso. Mas seu criador era uma espécie de bocó dotado de habilidades científicas. Queria proteger os seus. Só que para cada pedra movida no tabuleiro da existência, ele os expunha mais. Por outro lado, tudo que a criatura desejava era se enturmar, e só conseguia matar.

Neste sentido, paradoxalmente, “Frankenstein” é sobre amizade e completude, sobre o sentimento de estar só no mundo e de ser fruto do acaso, que impulsiona a criar a vida. Esse mesmo sentimento fez a criatura querer uma companheira, para não se sentir só. Pediu isso a Viktor, que começou a fazê-la, mas de novo se arrependeu e destruiu as peças juntadas, enfurecendo de vez o gigante costurado.

Inteligência e vigor
Viktor Frankenstein fala do tamanho da sua criatura. Tem mais ou menos dois metros e meio de altura, “de estatura gigante, mas de proporções estranhas e disformes”, diz ele. O monstro sentia-se “miserável, desamparado e solitário”. Era uma criatura “capaz de sobreviver nas cavernas de gelo das geleiras e de se esconder nas gargantas de precipícios inacessíveis.” E ao mesmo tempo, era “eloquente e persuasivo.”

O cientista não se refere ao tamanho do cérebro do seu experimento. Deve ser um tutano e tanto, pois foi recebido pela luz com grande entusiasmo, capaz de absorver
quantidades enormes e complexas de informação.

Era “uma criatura capaz de sensações sutis”, dotada de inclinações boas e más. Tudo que via, intuía sobre seu significado e suas causas. Foi assim que, em três anos, compreendeu o estado das coisas e as razões por que se moviam ou quedavam imóveis, como e por que existiam.

Foi assim que descobriu a linguagem verbal, “uma ciência digna dos deuses”, disse a criatura, em um papo que teve com o criador. E desejou dominá-la. Quando fugiu do laboratório de Viktor, instalou-se escondido em uma casa na floresta, e passou a observar os donos, o jovem Felix, sua esposa e sua irmã, e o pai deles, que era cego.

À noite, a criatura roubava alimento da dispensa desses moradores, mas ao descobrir que eram pobres e o que era o sofrimento da pobreza, parou de roubá-los e começou a ajudá-los na procura por comida, sem que soubessem. Nada mal para um monstro, muito mais humano do que muitos membros da sociedade daquela época e de hoje. Essas e outras passagens são referências às ideias socialistas, que Karl Marx, nascido no ano de lançamento de “Frankenstein”, viria a desenvolver com força décadas mais tarde.

O monstro tinha sensibilidade e dis­cernimento social e político. Por isso, observando o comportamento dos moradores aprendeu a falar e a ler. Havia encontrado na floresta uma bolsa contendo três livros, “Paraíso Per­dido”, de John Milton, “O So­frimento do Jovem Werther”, de Go­ethe, e um tomo de “Vidas”, de Plu­tar­co. Esses livros construíram algo pa­recido com uma alma, uma consciência.

Mas ao se tornar culto, descobre sua origem miserável, razão de sua queda, e passa a odiar o criador. Essa ideia é moderníssima, a ideia de que o despertar da consciência não traz paz, necessariamente, ou quase nunca, pelo contrário, traz o inferno de se saber o que é.

Para o monstro, isso é mais angustiante porque ele se sabe o primeiro homem, uma espécie de Adão sem o paraíso e sem uma Eva, na solidão absoluta, já que ninguém o quer. Mais réprobo ainda, um anjo caído sem ter nascido de Deus.

Prosa moderna
A narrativa de “Frankenstein” tem um tom progressista, moderno e antiautodidatismo, sugerindo o perigo dos livros quando lidos sem a instrução de um mestre (há um quê de quixotesco aí). Viktor é obscurantista, influenciado por leituras que lhe foram nocivas de Cornélio Agrippa, Paracelso e Alberto Magno, autores que vinham sendo ultrapassados pelas novas técnicas.

O romance trilha as descobertas modernas nos campos da ciência e ilumina a cena das novas gerações. Por isso, a criação do monstro faz dessa modernidade uma distopia. Escrita no seio do romantismo, a prosa de Mary é moderna, com uma vibração fresca, e por isso continua viva, com um ritmo que se encaixa muito bem na contemporaneidade.

Outra coisa moderna no texto de Mary é a marca do feminismo. Viktor, ao comentar como se sentia incomodado em meio aos marinheiros, diz: “A juventude vivida na solidão e a infância sob seus cuidados gentis e femininos refinaram a base de meu caráter de um modo que me torna impossível superar um profundo desgosto que sinto com a brutalidade usual praticada a bordo dos navios”.

“Frankenstein”, hoje, é literatura em um nível soberbo. Mas não assusta mais. Só o terror psicológico permanece, de certo modo. O que vale mesmo, em sua leitura, é a suntuosidade da narrativa criada em torno da possibilidade de fazer vida a partir da matéria morta.

A ideia das consequências de brincar de Deus (o subtítulo faz referência ao titã Prometeu, que roubou a centelha divina e soprou na alma humana) pode ser mais assustadora agora com a base da ciência contemporânea e suas possibilidades de clones e transplantes de órgãos, inclusive do cérebro. Mas Mary deu o pontapé inicial disso tudo de modo brilhante, 200 anos atrás. Ela é a mãe da ficção científica e do terror modernos.

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