O dia em que falei com Conceição Evaristo

Mineira de Belo Horizonte e carioca de coração, Conceição Evaristo dá voz às brasileiras negras das periferia que a sociedade resiste ouvir

Conceição Evaristo / Foto: Reprodução/Assessoria

Neste 8 de março, quis me recordar de algum momento que tive com uma mulher que me marcou. Sem dúvidas, foram inúmeros os momentos com mulheres extraordinárias que cruzaram meu caminho ao longo da minha vida, mas queria um que falasse por todos. Escrutinando as grutas da mente, me lembro de um acontecimento do qual serei eternamente grata às forças da natureza por  ter me conduzido a ele e, especialmente, por ter nascido mulher, condição que amo.

Em 2018, caí em uma pauta em um evento, em Goiânia, chamado de Encontro Nacional de Mulheres Negras. Eu, uma mulher branca (ao menos aparentemente), estaria em um encontro fechado para mulheres negras. Com o respeito que tenho pela luta, me sentia uma intrusa na mesma proporção em que me sentia maravilhada. Queria muito encontrar frente a frente as mulheres históricas e inspiradoras que estariam presentes naquele evento, como Benedita da Silva, Angela Davis e a mulher sobre quem venho escrever, Conceição Evaristo.

Contrariando minha ansiedade, não fui tratada e nem sequer olhada com uma forasteira em território desconhecido. Pelo contrário, senti uma energia positiva sem igual vinda daquelas mulheres que vinham de diversas partes do país. Um momento mágico aconteceu quando ela chegou. A própria, Conceição Evaristo, no alto de seus 72 anos. Pediu calma para a mulherada que estava em polvorosa ao vê-la e se sentou em um banquinho na frente do público. Aquela energia, sim, me contagiou e me deu orgulho de ser mulher. Havia ali uma adoração por uma representação real, não fabricada ou produzida por uma indústria do entretenimento. Ali estava uma mulher que representa mulheres reais e, principalmente, negras.

Não gosto de filmes da tevê. Morre e mata de mentira. Aqui, não. Às vezes a morte é leve como a poeira. E a vida se confunde com um pó branco qualquer. Às vezes é uma fumaça adocicada enchendo o pulmão da gente. Um tapa, dois tapas, três tiros… [Trecho de “A gente combinamos de não morrer”]

Ao redor dela, sentaram-se todas, como crianças a ouvirem uma história da mãe. Conceição é contadora de histórias. Ali, contou a sua. Não que também não fossem suas as histórias que ela conta nos livros, porque são, mesmo fictícias. São, também, de grande parte da população negra e periférica do Brasil, inclusive de muitas daquelas mulheres. Em seu livro mais famoso, Olhos d’Água, Conceição ganhou, em 2015, o Jabuti, prêmio mais importante da literatura brasileira. Na obra, 15 contos transformam quase em poesia, a prosa crua e dolorosa, mas, também, afetuosa. Expõe e denuncia que o sistema político e a estrutura social fazem do negro constantemente um alvo da morte.

Depois de falar da vida, comentou da cadeira perdida na Academia Brasileira de Letras para um homem branco: Cacá Diegues. Sem surpresas. Em uns breves minutinhos, consegui a atenção dela no caminho para o teatro, onde Angela Davis faria seu discurso. Conceição tinha pressa. A saúde não lhe permitia ficar em pé por muito tempo. Perguntei o que significava representar as mulheres negras na literatura. Ela respondeu com seu tom afável: “É o poder quando grupos, sujeitos ou quando coletividades subalternizadas – excluídas por qualquer motivo, por ser de mulheres, gays, indígenas ou marcada pela questão social – quando um sujeito desses grupos excluídos, de uma forma ou de outra, tomam a palavra e se auto representam. Entram em confronto com uma representação que as classes dominantes ou outras culturas criaram sobre si. Cada pessoa de grupos excluídos que se levanta e que coloca sua voz, ela exerce um poder político, porque falar também é uma ação política”.

Ela disse que representar essas mulheres é dar significado à sua vida. “Acabei de completar 72 anos. Quando olho minha infância e juventude, me dá um orgulho muito grande. Em uma autoavaliação, porque continuei pela vida afora fiel a determinados propósitos e fiel a me colocar como mulher negra. Tudo que escrevo é profundamente marcado pela minha condição de mulher negra na sociedade brasileira”, contou.

Estou entre mulheres que movem o mundo.

“Tenho certeza que estou entre irmãs, companheiras, pessoas que me sustentam e me fizeram chegar até aqui. Mais que isso, estou entre mulheres que movem o mundo. Tenho certeza que para cada mulher chegar até aqui não foi brincadeira, é um exercício de comprometimento com o coletivo. De todos os lugares que eu passo, de todas as recepções que recebo, essa tem um sabor especial, pois é uma acolhida das mulheres negras, das minhas iguais”, falou. Naquela noite e em meio a tantas mulheres dentre as quais eu conhecia pouquíssimas, me senti da mesma maneira: segura, acolhida e entre minhas iguais.

 

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.