Abilio Wolney Aires Neto

Na tarde do dia 25 de junho de 2026, o auditório Jaime Câmara da Casa Colemar Natal e Silva não tinha lugar vago. Autoridades, acadêmicos de diversas academias de letras e institutos históricos e geográficos do estado, jornalistas, professores e um público vasto e qualificado reuniram-se para testemunhar a posse de Nilson Gomes Jaime na Cadeira n.º 16 da Academia Goiana de Letras (AGL) — uma das mais tradicionais instituições culturais do Centro-Oeste brasileiro, fundada em 29 de abril de 1939 e que reúne o mais seleto grupo de imortais das letras do estado. A solenidade confirmou o que o meio cultural goiano já sabia: a chegada de Nilson Jaime ao sodalício das letras não era uma surpresa, era uma consequência natural de décadas de produção intelectual ininterrupta e de presença ativa nos mais importantes círculos culturais da capital.

Entre os presentes, a mãe e as filhas do escritor acompanhavam a cerimônia do auditório — testemunhas silenciosas e emocionadas do instante em que um nome de Palmeiras de Goiás ganhava, para sempre, o estatuto de imortal. O novo acadêmico não deixou de registrar essa presença em palavras de gratidão ao encerrar seu discurso de posse.

A saudação ficou a cargo do acadêmico e desembargador Itaney Francisco Campos — jurista de reconhecida distinção, ex-presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás e da Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJ-GO, e uma das vozes mais respeitadas do universo literário e cultural da capital. Em discurso de fina elaboração, Itaney traçou o perfil intelectual do novo imortal com a precisão de quem o conhece de perto e partilha com ele as mesmas referências culturais e o mesmo compromisso com os valores democráticos e com a produção cultural goiana. A presidenta da Casa, Lêda Selma, conduziu o ato com a solenidade que a ocasião requeria.

Encerrada a solenidade, a celebração ganhou outro endereço. O Restaurante Árabe, um dos mais elegantes e tradicionais de Goiânia, recebeu na noite do mesmo dia dezenas de convidados — acadêmicos, jornalistas, pesquisadores e amigos de longa data do homenageado — numa recepção que esteve à altura da importância do momento. O ambiente reuniu veteranos da cultura goiana e nomes do jornalismo e da pesquisa em torno de um intelectual cuja trajetória demonstra que a produção intelectual séria e a presença ativa na vida da cidade não apenas se conciliam como se reforçam mutuamente.

A solenidade confirmou o que o meio cultural goiano já sabia: a chegada de Nilson Jaime ao sodalício das letras não era uma surpresa, era uma consequência natural de décadas de produção intelectual ininterrupta.

Nilson Jaime é hoje uma das presenças mais atuantes e reconhecidas da vida cultural de Goiânia, acumulando papéis que poucos intelectuais da cidade conseguem exercer com igual competência e dedicação. Preside, desde 2022 — reconduzido em 2025 para mandato até junho de 2028 —, o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe), com sede na casa de arquitetura suíça no Jardim América onde residiu o maior ficcionista goiano. Nessa função, liderou a restauração completa do imóvel, a modernização de sua infraestrutura e a consolidação do acervo cultural e institucional de Bernardo Élis — obra de fôlego que devolveu ao espaço a dignidade que o tempo havia subtraído.

Ocupa, ainda, a vice-presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), onde atua em parceria com o presidente Jales Guedes Coelho Mendonça na promoção contínua de eventos de relevo. Nessa mesma entidade, coordena a Coleção Goiás +300: Reflexão e Ressignificação, projeto editorial de envergadura que prevê 18 volumes dedicados à história e à formação da sociedade goiana, com seis já lançados e quatro novos previstos para 2026.

É também sócio fundador e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tocantins (IHGT); sócio efetivo do Colégio Brasileiro de Genealogia, do Rio de Janeiro; membro da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (Asbrap), de São Paulo; e integrante das academias de letras de Goiânia, Palmeiras de Goiás e Pirenópolis. Em Goiás, integra ainda a Academia Palmeirense de Letras, Artes, Música e Ciências, onde ocupa a Cadeira n.º 5, cujo patrono é o genealogista Jarbas Jayme.

A trajetória literária e científica de Nilson Jaime reúne títulos que vão da genealogia à agronomia, da memória familiar à história política regional. Seu livro mais monumental — Família Jaime/Jayme: Genealogia e história, publicado em 2016 com 1.146 páginas — é fruto de mais de um ano de pesquisa documental que retroage ao século XVIII, alcançando figuras como o Coronel João Gonzaga Jaime de Sá, trisavô do autor, cujo pai foi o Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, presidente da Província de Goiás entre 1837 e 1839. A investigação aprofunda-se até João Ramalho e o Cacique Tibiriçá, nos primórdios da formação da Vila de São Paulo. O volume, prefaciado pelo ex-governador Marconi Ferreira Perillo e pelo poeta Luiz de Aquino Alves Neto, é considerado uma das obras de maior valor historiográfico produzidas em Goiás na última década.

Em 2018, lançou Frederico Jayme Filho: 50 anos de vida pública, biografia do parlamentar que presidiu a Assembleia Legislativa e foi por quatro vezes presidente do Tribunal de Contas do Estado, narrando a história política de Goiás desde Coimbra Bueno até o quarto governo Marconi Perillo. A obra, prefaciada pelo jornalista Euler de França Belém e pelo acadêmico Geraldo Coelho Vaz, foi recebida com distinção nos círculos políticos e culturais do estado.

Como ensaísta, publicou em 2019 Resenhas e Ensaios, na Coleção Prosa e Verso da Prefeitura de Goiânia, obra em que resenha onze livros de temário diverso — da questão ambiental à produção poética de escritoras goianas — além de comentar o álbum Caravanas (2017), de Chico Buarque de Hollanda. Prepara atualmente o livro Estrela do Cerrado: a Escola de Agronomia da UFG, sobre os primórdios da primeira faculdade de Agronomia do Centro-Oeste, e trabalha no resgate da história do Jornal Opção — veículo que completa 50 anos de circulação —, do qual é colaborador há décadas.

Maior especialista vivo na obra de Bernardo Élis, Nilson Jaime proferiu 16 palestras sobre o escritor ao longo de 2025, consolidando uma autoridade construída com rigor e constância. É igualmente o curador das Exposições Vida e Obra, realizadas na sede do IHGG, que já homenagearam 22 escritores goianos — entre eles Bariani Ortêncio, Gilberto Mendonça Teles, Nasr Fayad Chaul, Cora Coralina, Lena Castello Branco, Aidenor Aires e Abílio Wolney Aires Neto —, cada exposição acompanhada de produção audiovisual exibida na abertura do evento.

A CADEIRA E SEUS ANTECESSORES ILUSTRES

A Cadeira n.º 16 tem como patrono Henrique José da Silva (1865–1935), militar, naturalista e jornalista nascido em Bonfim, hoje Silvânia-GO, que integrou a Comissão Cruls de demarcação do Planalto Central (1892–1894) e fundou A Informação Goyana — revista publicada entre 1917 e 1935, no Rio de Janeiro, reconhecida como o mais longevo periódico de defesa da transferência da capital federal para o interior do Brasil. Colaboraram com ela nomes do porte de Cora Coralina, Hugo de Carvalho Ramos e o Visconde de Porto Seguro. Ao final da solenidade, os presentes receberam um opúsculo com as obras publicadas pelo patrono — mais um dos gestos com que Nilson Jaime devolve ao passado a visibilidade que o esquecimento insiste em negar.

Fundou a Cadeira Gercino Monteiro Guimarães — palmeirense, jornalista, funcionário da Secretaria da Fazenda do Estado de Goiás e um dos criadores do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, em 1932, cunhado do historiador Zoroastro Artiaga, que seria o primeiro a lhe suceder. Por ela passaram ainda a poetisa Regina Lacerda — a primeira mulher a conquistar assento na Academia Goiana de Letras, em 1973 —, a escritora Lygia de Moura Rassi e, por último, o jurista e professor Luiz Augusto Paranhos Sampaio (1937–2025), nascido em Catalão, que presidiu esta mesma Academia e acumulou 32 livros publicados ao longo de uma vida pública exemplar, falecendo em outubro de 2025, poucos meses antes de ver seu sucessor empossado.

É a Sampaio que Nilson Jaime prestou uma das mais sentidas homenagens de seu discurso de posse: foi ele quem pronunciou as palavras de recepção quando Nilson ingressou como sócio titular do IHGG, em 11 de setembro de 2018. O elo entre os dois — jurista e cientista, professor e pesquisador, antecessor e sucessor — é também o elo entre gerações de intelectuais goianos que souberam transitar com distinção entre as letras, o direito e a história regional.

A escolha do desembargador Itaney Francisco Campos para saudar o novo imortal foi, ela própria, um gesto de coerência. Bacharel em Direito, especialista em Direito Processual Civil, mestre em Direito Agrário pela UFG, ex-presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás e da Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJ-GO, Itaney é membro da AGL, da União Brasileira de Escritores (UBE-GO) e do IHGG — e amigo antigo de Nilson Jaime, com quem partilha, entre outras afinidades, a paixão pela Música Popular Brasileira e em especial pela obra de Chico Buarque de Hollanda.

No discurso de recepção, publicado no livro Tradição e Continuidade (Pyreneus Editorial, 2026), obra que registra integralmente a solenidade, Itaney traçou de Nilson um perfil que vai muito além da enumeração de títulos. Descreveu-o como um dos intelectuais mais inquietos e produtivos da intelligentsia goiana contemporânea — filho de Palmeiras de Goiás, cidade que o moldou e à qual permanece ligado por raízes profundas, embora seja hoje presença incontornável na vida cultural da capital. Destacou a versatilidade que o distingue: a capacidade de transitar com igual desenvoltura entre a pesquisa científica de excelência — sua tese de doutoramento sobre mirmecologia é frequentemente citada como referência no campo — e a criação literária, a história, a genealogia e a gestão cultural.

Itaney evocou a acadêmica Nélida Piñon para situar Nilson no campo dos que recusam a falsa oposição entre ciência e criação — territórios vizinhos, portas contíguas que dão acesso ao mesmo mistério humano. Sublinhou ainda que ambos partilham o compromisso com os valores democráticos e a aversão ao negacionismo. Ao encerrar seus agradecimentos, Nilson Jaime respondeu com um gesto simbólico: “Sem medo de ser feliz” — fechando com elegância o círculo afetivo e intelectual de uma noite que a cultura goiana não esquecerá tão cedo.

A Academia Goiana de Letras chegou a esta data com mais de oito décadas de existência e com a consciência de que cada nova posse é, ao mesmo tempo, um ato de conservação e de renovação. Ao receber Nilson Gomes Jaime, renovou-se com alguém que acrescentou ao seu quadro não apenas uma produção bibliográfica volumosa e reconhecida, mas uma presença ativa na vida das instituições culturais da cidade e do estado — presença que se mede em palestras proferidas, exposições organizadas, institutos presididos, coleções editadas, genealogias resgatadas e memórias preservadas.

A Academia Goiana de Letras conta, a partir desta data, com um novo imortal cuja obra e cuja atuação já fazem parte da paisagem intelectual de Goiânia. A Cadeira n.º 16 tem agora o nome que o mérito e a tradição já haviam escolhido.

Fonte: CAMPOS, Itaney Francisco; JAIME, Nilson Gomes. Tradição e Continuidade. Goiânia: Pyreneus Editorial, 2026. | NAVES, Jales. Nilson Jaime assume a Cadeira n.º 16 da Academia Goiana de Letras. A Redação, Goiânia, 25 jun. 2026.