Muito mais psicólogos do que policiais

Entre as séries mais interessantes do ano, “Mindhunter” é um prato cheio para quem quer compreender o lado menos humano do ser humano

“Mindhunter” vem conquistando grande público pela qualidade da produção e da trama

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

Dois agentes do FBI que se propõem a estudar a engenharia psicológica de assassinos em série na década de 70, quando os estudos de psicologia criminal ainda eram embrionários, quase inexistentes. Para dar conta disso, a dupla formada por Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) viaja pelo Estados Unidos entrevistando criminosos que cometeram os mais horrendos crimes e começa a traçar os perfis psicológicos dos detentos. Essa é a premissa básica de Mindhunter, série da Netflix, criada por Joe Penhall e produzida por David Fincher e Charlize Theron.

O que poderia facilmente ser o mote para mais uma série pobre de investigação policial, nas mãos de Fincher — o verdadeiro núcleo criativo da obra — transforma-se numa inteligente narrativa ficcional. Baseado no caso real de dois agentes — John E. Douglas e Mark Olshaker que decidiram quebrar os protocolos da agência federal americana para estudar a estrutura mental de assassinos —, Minhunter sagra-se com uma das produções mais interessantes no seguimento de séries desse ano — ao lado de The Handmaid’s Tale, The Deuce, o retorno de Twin Peaks, apenas para citar algumas.

Fincher — que dirigiu 4 dos 10 episódios — conseguiu imprimir seu DNA de forma definitiva na série — quem já assistiu Zodíaco facilmente concordará com essa afirmação. Com diálogos longos e muito bem escritos, a estrutura narrativa de Mindhunter não se concentra na velocidade. Sua ação é, como seria de esperar, totalmente psicológica. Com uma fotografia em tons pastéis, bastante sobria, que ambienta o clima da série de forma sombria e lúgubre — mas sem ser tenebroso —, a sutileza dos recursos permitem que o espectador receba o peso de cada cena na medida certa.

O que vai dar intensidade à narrativa é a performance de cada núcleo: a dupla de agentes funciona com uma organicidade impressionante, a Dra. Wendy Carr (Anna Torv) é daqueles personagens hipnotizantes, e mesmo os criminosos têm suas psicologias e personalidades profundamentes bem captadas pelos seus intérpretes — com destaque para Cameron Britton e o seu irretocável Ed Kemper.

Para o espectador familiarizado com a agilidade de cenas e as tramas cheias de plots de produções como C.S.I ou Criminal Minds, pode ser o que ritmo lento de Mindhunter não cative de primeira. Mas ao se dar conta da evolução muito bem construída dos personagens e de como suas vidas pessoais vão sendo influenciadas pelo seu ambiente de trabalho, o espectador mais sensível e esperto vai entender que está diante de uma grande obra — que já tem continuação garantida, segundo Fincher.

O pioneiro trabalho de John E. Douglas e Mark Olshaker rendeu no livro “Mindhunter: o primeiro caçador de serial killers americano” — publicado no Brasil pela editora Intrínseca na tradução de Lucas Peterson —  que revela os procedimentos que a dupla precisou adotar para conseguir extrair os métodos, os gatilhos emocionais, as motivações dos serial killers — expressão cunhada pelos dois.

Para conseguir isso precisaram ser muito mais psicólogos do que policiais. O trabalho de Fincher consegue exemplificar muito bem isso ao apresentar o agente especial Holden como um professor burocrata e meticuloso na primeira parte da série e, depois do contato com os criminosos, ele ir se transformar num irreconhecível burlador de regras e adotar comportamentos reprováveis pelo FBI afim de dar prosseguimento ao seu projeto e obter resultados mais autênticos e sinceros dos entrevistados.

As cenas de entrevistas dos assassinos impressionam pela forma como cada um deles apresenta seus crimes. É possível entender ali que quem estava por trás daqueles crimes desumanos não eram bestas feras, ou qualquer espécie de animal. Eram humanos. Ao começar a traçar os perfis psicológicos de criminosos extremamente cruéis em seus crimes, Mindhunter apresenta algo que procuramos ignorar: a natureza humana pode ser profundamente cruel. Aquilo que chamamos “desumano” nada mais é do que outro desdobramento da natureza humana.

A mente dos serial killers ainda estava numa zona gasosa para os estudos da psicologia criminal porque eles não eram compreendidos como humanos, tinham sua humanidade retirada por terem cometidos “atos desumanos” — como esquartejar um corpo e fazer sexo com o cadáver, por exemplo. No entanto, foi necessário o problemático processo de humanização desses sujeitos para conseguir submetê-los a um estudo. E isso gera conflitos — o agente Bill Tench é esse contraponto na série.

Ao abordar esses meandros da natureza humana — como fez em Seven e Zodíaco — Fincher obtém uma fórmula preciosa na construção da estrutura de Mindhunter,  que é o estudo do grotesco criminal sem a necessidade de cenas gráficas, indo somente pela sua abordagem psicológica, muito mais sutil e interessante para quem vai se dedicar às dez horas da primeira temporada da série.

Mindhunter é pura psicologia e loucura, explorando a natureza humana no que ela parece ter de menos humano, com bastante calma e maestria. Uma das melhores séries do ano, sem dúvida.

Ricardo Silva é graduando em Filosofia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e crítico de literatura e cinema.

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Adalberto de Queiroz

Texto gera vontade de ver a série.