Miguel Jorge: contos eróticos e bem escritos   

Não pense o leitor, porém, que irá encontrar nestes contos enredos próprios de livros baratos que exploram a pornografia

Adelto Gonçalves                

Publicar mais de 40 livros não é para qualquer um. Ainda mais com qualidade. É o caso do escritor Miguel Jorge (1933), mato-grossense de origem libanesa criado e vivido em Goiás, que, em 2016, publicou “A Fuga da Personagem” (Goiânia, Editora da UFG), a 40ª obra de uma carreira que inclui vários romances, livros de poesia e contos, peças de teatro e roteiros para cinema.  O livro reúne 13 contos, mas é possível dizer que traz 12 contos e uma novela policial, que seria o último texto da obra, “Crime imperfeito: Dora”.

Primeira experiência do autor nessa área, o texto, com 39 páginas, foge um pouco ao tamanho normal de um conto, mas ainda estaria longe de constituir uma novela, que, segundo estudiosos, deve conter de cem a duzentas páginas ou mais de vinte mil palavras, “a meio caminho entre o romance e o conto”, como se lê no “Dicionário de Termos Literários” (São Paulo, Cultrix, 2004), de Massaud Moisés (1928-2018). Aliás, este professor não concordava com essa definição simplista, baseada no critério quantitativo, definindo-a como um “equívoco metodológico”.

Seja como for, o texto de Miguel Jorge está mais para novela do que para conto ou romance por muitas razões que não valeria a pena aqui citar, até porque Massaud Moisés gastou nada menos que sete páginas (pp.320/326) para procurar definir esse vocábulo que até hoje é passível de discussões tanto na literatura espanhola como na francesa, na inglesa, na alemã ou na italiana.

Obviamente, parece claro que o melhor do livro é mesmo este conto ou novela que o encerra, embora os demais textos tenham também o mesmo tom experimental que caracteriza a obra de Miguel Jorge, de que são bons exemplos “Veias e Vinhos” (Ática, 1982), romance-reportagem, talvez o seu livro mais conhecido e louvado, e “Avarmas” (Ática, 1978), que reúne contos que seguem nas pegadas do escritor irlandês James Joyce (1882-1941).

Em “Crime imperfeito: Dora”, por meio dos interrogatórios feitos por um delegado com vários suspeitos do assassinato de uma “dama da sociedade”, de nome Doralice, mulher que seria “bonita, elegante, dessas que até os cegos querem”, conforme depoimento de um dos interrogados, fica-se sabendo de pormenores de quem vivia uma vida dissoluta, que compartilhava a casa com um sobrinho, de quem também seria amante, mas entregava-se a vários amores furtivos. Como numa boa novela policial, o segredo só é revelado nas últimas linhas e a conclusão é bastante surpreendente.

Miguel Jorge: romancista, contista e poeta | Foto: Reprodução

Tal como esse conto que seria mais uma novela, os demais também envolvem histórias sobre o gênero erótico, alguns, inclusive, passando dos limites aceitáveis, como o do caminhoneiro que procura desnudar e transar com as três filhas menores de idade. O conto, porém, não deixa claro se o caminhoneiro chega a vias de fato, o que poderia lhe causar alguns anos de xilindró, se viesse a ser denunciado.

História surrealista

Quase todos os contos, que, diga-se de passagem, são bem escritos, envolvem taras ou desvios sexuais, como o daquele homem que se confessa tarado por pés de mulheres, mas que, igualmente, nunca se sabe se consegue de algum modo ir até o fim em sua procura. Já no conto “Perigosos afetos”, a personagem Hélida, noiva da Márcio, embora apaixonada pelo prometido, sonha também com Marcos, seu cunhado e irmão gêmeo do futuro marido.

No conto que dá título à obra, a história surrealista que se lê é a de Maria Paula, personagem que sai do livro e rebela-se contra o seu criador, o escritor, negando-se a retornar às páginas de onde saíra. Ao final do conto, entre parênteses, há uma observação do escritor-personagem que serve também para resumir o tratamento dado pelo próprio autor a sua escritura, enfim, uma definição ou um resumo do seu ofício: Eis o texto: “Meus personagens surgem da luz, não das sombras, que envolvem as noites. Dou-lhes forma, personalidade, vida. Frutos de mim mesmo. Da repartição de vários nomes, vários lugares, novas máscaras. Mesmo que em sonhos, me faço neles, me guardo neles, talvez, como se fosse eles. Para isso, se espera um mundo de horas, a eternidade passada em segundos. Os gestos humildes, obscenos, brutais, são jogos duros da terra que criei com seus tortuosos caminhos)”.

Não pense o leitor, porém, que irá encontrar nestes contos enredos próprios de livros baratos que exploram a pornografia. Pelo contrário. Como bem observa o escritor Ronaldo Cagiano no texto de apresentação que escreveu para esta obra, “na construção dessas narrativas finamente elaboradas, o sexo e suas paixões são abordados com sutileza estilística e fluxo poético e na sua peculiar intensidade aflora o império dos sentimentos”.

Nascido em Campo Grande (MS), Miguel Jorge mudou-se ainda menino, com seus pais comerciantes, para Inhumas (GO), onde fez o curso primário. Depois, cursou o ginásio em Goiânia e concluiu o científico em Belo Horizonte. Formou-se em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Direito e Letras Vernáculas pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Foi professor de Farmacotécnica e de Literatura Brasileira na UCG. Foi presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), seção de Goiás, e dirigiu o Conselho Estadual de Cultura. É membro da Academia Goiana de Letras.

Estreou com “Antes do Túnel”, contos (UFG, l967). É autor ainda de “Asas de Moleque” (FTD, 1989); “Profugus”, poesia (Ática, 1990); “Nos Ombros do Cão”, romance (Siciliano, 199l); “A Descida da Rampa”, contos (Estação Liberdade, 1993); “Ana Pedro”, novela infanto-juvenil (Cartago Forte, 1994, e Mercuryo Jovem, 2002); “Pão Cozido Debaixo de Brasa”, romance (Mercado Aberto, 1997); “Calada Nudez”, poesia (Ver Curiosidades, 1998); “As Horas dos Bichos — Poemas para Crianças” (Kelps, 2000); “Lacraus”, contos (Ateliê, 2004); “O Deus da Hora e da Noite”, romance (Kelps, 2008); “As Confissões da Senhora Lydia”, teatro (Kelps, 2010); “De Ouro em Ouro” (Casa Brasil de Cultura, 2010); e “Minha querida Beirute” (Goiânia, Kelps, 2012).

Entre os prêmios que conquistou estão o ABCA para o romance “Veias e Vinhos”; Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para o romance “Pão Cozido Debaixo de Brasa”; Prêmio de Poesia Hugo de Carvalho Ramos da UBE-GO para “Calada Nudez”; e Prêmio Centro-Oeste da Funarte para “Matilda”, teatro. Escreveu com o diretor João Batista de Andrade o roteiro para o longa-metragem “Veias e Vinhos”, baseado em seu romance, filmado em São Paulo, em 2004. Seus textos sobre artes visuais estão inseridos, na grande maioria, no livro “Da Caverna ao Museu — Dicionário das Artes Plásticas em Goiás”, de Amaury Menezes, editado pela Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, de Goiânia.

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), “Bocage — O Perfil Perdido” (Caminho, 2003), “Tomás Antônio Gonzaga” (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012) e “O Reino, a Colônia e o Poder — O governo Lorena na Capitania de São Paulo 1788-1797” (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019). E-mail: [email protected]

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