Máximas e sentenças mordazes de Ambrose Bierce

Aforista estadunidense possuía pensamento rápido como uma bala, escrita afiada como uma faca, e estilo cáustico como ácido

Ambrose Bierce (1842-1913), escritor americano, autor de “O Dicionário de Diabo” | Foto: Divulgação

Ambrose Bierce

Tradução de Demian Gonçalves da Silva

É verdade, o homem não entende a mulher. A mulher, tampouco.
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As mulheres e as raposas, sendo fracas, distinguem-se por um tato superior.
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Um mau casamento é como uma máquina vibratória: nela você dança, mas dela não consegue sair.
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O amor difere do xadrez porque nele as peças são movidas em segredo e o jogador percebe a maior parte do jogo. Mas o espectador tem uma vantagem incomparável: não é ele a aposta.
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Dizemos que amamos não quem queremos, mas quem devemos amar. É desnecessário, portanto, levarmos a nossa decisão ao confessionário.
Das duas formas de insanidade temporária, uma termina em suicídio, a outra em casamento.
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O que a mulher mais admira num homem é a sua distinção entre os homens. O que o homem mais admira numa mulher é a sua devoção para com ele.
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Há duas classes de mulheres que podem fazer o que bem entendem: as ricas e as pobres. As primeiras podem contar com o assentimento, as segundas com a desatenção.
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O pensamento e a emoção vivem separados. Quando o coração entra na cabeça, não há discórdia; há apenas despejo.
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Uma beata é alguém que ruboriza recatadamente com a indelicadeza dos seus pensamentos e foge virtuosamente à tentação dos seus desejos.
Uma viúva virtuosa é o mais leal dos mortais; é fiel àquele que nem se apraz nem lucra com a sua fidelidade.
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Diz Pascal que o acréscimo de uma polegada ao nariz de Cleópatra teria mudado os destinos do mundo. Mas isto é o mesmo que nada dizer, pois nem todas as forças da natureza e todo o poder das dinastias poderiam ter acrescentado uma polegada ao nariz de Cleópatra.
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Os nossos luxos vêm sempre disfarçados de necessidades. A mulher é a única necessidade que tem a ousadia e a habilidade de se fazer reconhecer como luxo.
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“Sou a sede das emoções”, disse o coração. “Obrigado”, disse o juízo, “salvou-me a reputação”.
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“Quem és tu que choras?” “Sou Homem”. “Não, és Egoísmo. Sou o Esquema do Universo. Estuda-me, e aprende que nada tem importância.” “Então o que explica que eu chore?”
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A desconsideração é menos perdoável do que a ofensa, pois implica menosprezo, indiferença, desconhecimento da nossa importância, enquanto a ofensa pressupõe alguma consideração. “Canalhas!”, bradou um viajante que bandidos sicilianos tinham libertado sem resgate, “pensam que sou um qualquer?”
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Os aplausos das pessoas não são ouvidos no inferno.
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A generosidade para com o inimigo caído é uma virtude sem riscos.
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Se existiu um mundo antes deste, nele devemos todos ter morrido sem penitência.
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Nós somos aquilo de que rimos. O estúpido é uma má piada, o inteligente é das boas.
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Se todo homem que se ofende por ser chamado de patife se ofendesse por sê-lo, o mundo estaria dominado pela ira.
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Uma mente forte é mais impressionável do que uma fraca; é mais difícil convencer um tolo de que você é um filósofo do que um filósofo de que você é um tolo.
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Um cinismo fácil e barato vitupera contra tudo e contra todos. O mestre da arte alcança aquele feito formidável que é o de discriminar.
Um nobre entusiasmo em louvar a Mulher não é incompatível com um fervoroso zelo em difamar as mulheres.
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O amealhador de dinheiro que alega amar o trabalho dá uma má desculpa, pois amar o trabalho de amealhar dinheiro é pior do que amar o dinheiro.
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Enaltecer a mediocridade para se desculpar de menosprezar o gênio é como alegar latrocínio para escapar à acusação de furto.
A mais desagradável forma de hipocrisia masculina é fingir remorso por galanteios impossíveis.
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Qualquer um pode dizer algo novo; qualquer um pode dizer algo verdadeiro. Para obter algo novo e verdadeiro, devemos ir devidamente autorizados à presença dos deuses e aguardar a sua disponibilidade.
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O teste da verdade é a Razão, não a Fé; ao tribunal da Razão devem submeter-se mesmo os reclamos da Fé.
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“Aonde vais?, perguntou o anjo. “Não sei”. “E de onde vens?” “Não sei.” “Mas quem és tu?” “Não sei.” “Então és Homem. Não se voltes para trás, mas prossegue para o lugar de onde vens”.
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Se a Conveniência e a Retidão não são mãe e filha, são as irmãs mais harmoniosas que algum dia se viu.
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Treine a cabeça, e o coração cuidará de si mesmo; um canalha é alguém que não sabe pensar.
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Insultos são permitidos no caso de um marido obstinado: cavalos teimosos são melhor conduzidos com as orelhas mordidas.
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Adão provavelmente considerava Eva a mulher da sua escolha, e exigia alguma gratidão por a ter favorecido com a sua preferência.
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Um homem é a soma dos seus ancestrais; para reformá-lo, é preciso começar por um macaco morto e descer ao longo de um milhão de sepulturas. Ele é como a ponta inferior de uma corrente suspensa; podemos balançá-lo ligeiramente para a direita ou a esquerda, mas se retiramos a mão ele cai alinhado aos demais elos.
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Quem pensa com dificuldade acredita com entusiasmo. O tolo é um prosélito natural, mas deve ser arrebanhado jovem, pois as suas convicções, ao contrário das do sábio, enrijecem com a idade.
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São estas as prerrogativas do gê­nio: compreender sem ter aprendido; extrair conclusões exatas de premissas desconhecidas; discernir a alma das coisas.
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Embora amemos uma dúzia de vezes, o último amor sempre nos parece o primeiro. Quem diz que amou duas vezes não amou sequer uma vez.
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Os homens que esperam a paz universal pela invenção de armamentos destrutivos são tão tolos quanto aquele que, ao notar o aperfeiçoamento dos instrumentos agrícolas, profetiza o fim do cultivo da terra.
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Apenas aos pais a morte traz uma dor inconsolável. Quando o jovem morre e o velho vive, o maquinário da natureza está funcionando com a fricção a que chamamos luto.
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Garrafas de vinho vazias têm uma má opinião sobre as mulheres.
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A civilização é filha da ignorância e da vaidade humanas. Se o Homem conhecesse a sua própria insignificância no esquema das coisas, não acharia que vale a pena ascender da barbárie ao esclarecimento. Mas apenas pelo esclarecimento ele pode vir a conhecê-la.
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Ao longo da estrada da vida há muitas estâncias aprazíveis, mas não pense que demorar-se nelas prolongará a sua jornada. O dia da sua chegada já está fixado.
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O egoísta mais irritante é o que teme dizer “eu” e “meu”. “Provavel­men­te vai chover” — isto é dogmático. “Eu acho que vai chover” — isto é natural e modesto. Montaigne é o mais delicioso dos ensaístas porque a sua humildade é tamanha que ele não se importa que nós o vejamos. Esquece-se tão completamente de si que não emprega nenhum artifício para nos fazer esquecê-lo.

Ambrose Bierce (1842-1913) foi um escritor americano, autor de “O Dicionário do Diabo”.

Tradução de Demian Gonçalves da Silva

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