Lewis Carroll numa caçada nonsense

Poema “A Caça ao Snark”, do notável autor de “Alice no País das maravilhas”, sai pela Galera Record com nova tradução, assinada pela poeta Bruna Beber, que optou por manter o nome do monstro no original

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE
Especial para o Jornal Opção

Quando o reverendo Char­­les Lutwidge Dod­­gson (1832-1898), mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, não estava em Oxford, lecionando matemática na Christ Church, ia para Guildford, onde moravam suas irmãs. Foi nessa cidade, em 1874, que, de repente, veio à sua cabeça a seguinte frase: “For the Snark was a Boojum” (Pois o Snark era um Boojum).
Carroll não sabia ao certo o que a frase significava. Mais tarde, contudo, depois de criar uma história inteira para ela, chegou à conclusão de que Boojum e/ou Snark eram “monstros encantadores”.

Assim nasceu “The Hunting of the Snark” (“A Caça ao Snark”), título que permite inúmeras traduções, já que Snark é uma palavra-valise que “empacota dois significados numa mesma palavra”, como diria a personagem Humpty-Dumpty, de outro livro de autoria de Carroll, “Através do Espelho”.

O escritor teria confessado a Beatrice Hatch, uma de suas musas, que a palavra Snark era formada pelas palavras snail (lesma, caracol, caramujo) e shark (tubarão); posteriormente, juntou-se snake (serpente, cobra) aos outros dois vocábulos.

O monstro no original

O título “The Hunting of the Snark” poderia ser traduzido por “A Caça ao Cobrurão” ou “A Caça ao Serpenturão”, nas minhas sugestões; ou “A Caça ao Turpente”, como foi traduzido por Álvaro A. Antunes, que verteu primorosamente o poema para o português, numa edição publicada em 1984, pela Interior Edições, de Minas Gerais, e há muito fora de catálogo.
A editora Galera Record publica agora, em tradução da poeta Bruna Beber, “A Caça ao Snark”, que optou por manter o nome do monstro no original, tal como o fez Manuel Resende, numa tradução de 1985.

A publicação é voltada ao público infantil, embora, como lembra Gilbert Chesterton, talvez esse fosse um poema apenas “para filósofos sábios e grisalhos… a fim de estudar o problema mais obscuro de metafísica, a fronteira entre a razão e a insensatez.”

A literatura nonsense, que nasceu na Inglaterra vitoriana com Lewis Carroll e Edward Lear para o público infantil, deixa aturdidos mesmo os estudiosos mais experientes, que tentam explicar o que é inexplicável. Ana Maria Machado, que traduziu “Alice no País das Maravilhas”, ao falar sobre o livro, diz que ele não é para crianças e que por isso tem sido adaptado.

Ocorre, contudo, segundo ela, que essas adaptações “às vezes se metem a simplificar tanto, que a história acaba perdendo o sentido. E fica muita gente sem gostar de Alice (…) justamente porque o sentido escapa”. Mas o nonsense não é exatamente a suspensão do sentido?

Quando o poema foi publicado em 1876, pela editora Macmillian, Carroll já fazia enorme sucesso entre crianças e adultos com seus livros “Alice no País das Maravilhas” e “Através do espelho”. “A Caça ao Snark” caiu também no gosto do público mirim.

Tom surrealista

A edição da Galera Record resgata o público-alvo do Snark, as crianças, numa edição especialmente dedicada a elas, que “simplifica” alguns aspectos do livro. Primeiro, a dedicatória em versos de Carroll à menina Gertrude Chataway foi substituída por outra. Nessa edição, a dedicatória é “Para a minha mãe”, que, imagino, seja a mãe do ilustrador, Chris Riddell, mas isso não fica claro.

A propósito das ilustrações originais, elas foram assinadas por Henry Holiday, um proeminente pintor e escultor londrino, que Carroll conheceu em 1870, em Oxford. Seus desenhos eram bastante realistas, mas para ilustrar o poema de Carroll, Holiday deu a eles um certo tom surrealista (com colagens de imagens e cabeças desproporcionais), grotesco e sombrio, que parece ganhar força com a falta de cor das ilustrações, todas elas em preto e branco.

Ao contrário das ilustrações de Henry Holiday, as de Riddell são festivas e coloridas. O ilustrador deixa de fora o famoso mapa em branco que guiou a tripulação carrolliana, contudo desenha o Boojum, indo de encontro à vontade de Carroll. Segundo Holiday, o escritor pediu que ele não desenhasse o monstro, pois gostaria que este permanecesse inimaginável.

Serviço

Livro: A Caça ao Snark
Autor: Lewis Carroll.
Ilustradora: Chris Riddell
Tradutora: Bruna Beber
Editora: Galera Record (2017, 96 páginas)
Preço: R$ 44,90

Dirce Waltrick do Amarante é tradutora. Entre outros, organizou e traduziu “Viagem Numa Peneira” e “Conversando com Varejeiras Azuis”, coletâneas de textos em prosa e verso do escritor inglês Edward Lear

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