Lady Bird, qual é a hora de voar?

Produzido por mulheres que fortaleceram sua luta pela valorização do gênero nesta segunda década do século 21, filme é um belo recorte sobre o amadurecimento adolescente nos anos 2000

Greta Gerwig, diretora e roteirista de “Lady Bird – É Hora de Voar”, O primeiro longa dirigido por ela, que venceu dois Globos de Ouro, de melhor atriz (Saoirse Ronan) e melhor Comédia | Foto: Reprodução

João Paulo Lopes Tito
Especial para o Jornal Opção

A 75ª edição do Golden Globe Awards (Globo de Ouro) virou mais um ca­pítulo na luta feminina (e feminista), cada vez mais forte pelo reconhecimento e valorização da mulher em Hollywood. Mais veementes a partir de 2015, com o movimento AskHerMore, os discursos tomaram força com Patricia Arquette, Julianne Moore, Cate Blanchett e Reese Witherspoon, exigindo papéis mais fortes, cachês iguais e delegação de funções importantes.

Madonna e Scarlett Johansson reforçaram a marcha das mulheres por ocasião da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, e a revelação dos casos de assédio envolvendo o produtor Harvey Weinstein botou mais lenha na fogueira. No Globo de Ouro deste ano, as mulheres estavam de preto. Todas.

Ao anunciar os indicados para melhor diretor, Natalie Portman não perdeu a chance de reforçar o recado, diante de convidados visivelmente constrangidos: “Here are the all-male nominees”. Só homens indicados. Portman estava coberta de razão, você vai acabar concordando. Porque é onde entra “Lady Bird – É Hora de Voar” (2017).

Quem se apaixonou por Greta Gerwig dançando pelas ruas de Paris ao som de David Bowie, em “Frances Ha” (2012), certamente irá gostar do que vai encontrar em “Lady Bird”. O primeiro longa dirigido por ela deixa também sua impressão autoral mais forte, ainda que a diretora já tenha mostrado força como roteirista em “Northern Comfort” (2010), “Mistress A­mé­rica” (2015) e no próprio “Frances Ha” – os dois últimos sob a batuta de Noah Baumbach.

Identidade
Em vários níveis, “Lady Bird” (2017) é sobre mulheres e amadurecimento. A primeira delas, Christine “Lady Bird” McPher­son, a nossa protagonista interpretada por Saoirse Ronan, é uma adolescente que mora com os pais nos subúrbios de Sacramento, Califórnia, e frequenta um colégio católico. Como todo adolescente, tem fixação por descobrir e reafirmar sua identidade.
Saoirse, que faz uma jovem imigrante no indicado ao Oscar “Bro­oklyn” (2015), comprova de uma vez por todas seu talento dando voz a essa figura típica em fase de transição, com todos os conflitos que a tornam única a nossos olhos.

A começar pelo nome: Christine insiste em ser chamada de Lady Bird até pelos próprios pais, numa explícita rejeição ao nome de batismo. Em geral, os nomes que os pais escolhem já são uma primeira projeção sobre a vida do rebento, com toda a carga de expectativa que ele implica, e uma rejeição tão veemente ao dela é a primeira cartada que a menina quer mostrar ao mundo.

Saoirse Ronan faz a adolescente Christine “Lady Bird”, que mora com os pais nos subúrbios de Sacramento e tem fixação por reafirmar sua identidade | Foto: Reprodução

Força da narrativa
É bom lembrar que a história se passa no início dos anos 2000, época em que se tornou frequente o uso de nicknames (apelidos virtuais) em salas de bate-papo e programas de conversa eletrônica como mIRC, ICQ, MSN e afins. Quem viveu a adolescência nessa época sabe o quão raro era usar o nome de batismo entre a turminha de amigos, e o quão significativo isso era para os nossos egos.

Lady Bird é ansiosa e dramática. Projeta suas expectativas amorosas com facilidade, quer amar e ser amada, quer ter uma turminha, quer perder a virgindade, quer estudar na melhor faculdade. De preferência tudo ao mesmo tempo (fumar um cigarro escondida lendo uma revista de nudes nunca teve tanto significado).

Mas não sabe bem nem como manter o próprio quarto arrumado, e frequentemente bate com a cara na vidraça. Apesar da facilidade em lidar com o pai, que tem um perfil tranquilo e passivo, trava guerras homéricas com a mãe, obcecada com organização. Quer ser filha, ser amada, mas quer ser independente. E sabe onde o calo aperta mais.

Nessa jornada pelo amadurecimento pessoal, Lady Bird carrega a energia para conquistar o mundo mas o peso da culpa em ter de contrariar quem a educou, numa contradição atrapalhada tipicamente adolescente – algo que, cá entre nós, todos conhecemos. E é no lado ordinário da vida, na singeleza dos desafios diários que se mostra a força da narrativa. As situações envolvendo a garota e a Irmã Sarah Joan, por exemplo, são fantásticas.

A cortina de Oz se abre e podemos vislumbrar a mão da diretora justamente na forma de contar. É como escutar a sua amiga de quinze anos contando uma estória. Apres­sada, ansiosa, pulando aquelas partes que não interessam muito (com cortes bruscos ou planos acelerados, por exemplo). Ou deixando músicas pela metade, só para pontuar os momentos chave (fica clara a intenção de não supervalorizar a trilha, que é muito boa, por sinal). Uma colcha de retalhos que faz total sentido, mas detendo-se com cuidado e carinho nos momentos singelos em que a verdadeira riqueza se esconde.

Em tudo isso, Greta Gerwig mostra seu talento, contornando o filme com a aura adolescente que precisa, sem descambar para um dramalhão da Sessão da Tarde. Algo que Ri­chard Lin­kla­ter soube fa­zer muito bem em outra épo­ca, com “Jo­vens, Lou­cos e Re­beldes” (1993), por exemplo. Mais do que isso, a di­retora reforça a noção de que o olhar cinematográfico pode, sim, se desvencilhar do velho padrão masculino, sem recorrer a estereótipos e vitimismos.

Reconhecimento
No Globo de Ouro deste ano, o filme foi coroado com o prêmio de “Melhor comédia ou musical” (uma classificação questionável, diante da natureza da obra), desbancando fortes concorrentes. Greta, pessoalmente, não foi sequer indicada pela direção do longa – daí o motivo da indignação de Natalie Portman durante a cerimônia.

Seria mais do que justo o reconhecimento de que, em forma, conteúdo e contexto, dentro e fora das telas, trata-se de um belo recorte sobre o amadurecimento adolescente nos anos 2000 (especialmente feminina), produzido por mulheres que amadureceram sua luta pela valorização do gênero nesta segunda década do século 21.

Com uma saudável dose de girl power que o tema merece, “Lady Bird”, enfim, nos faz refletir que sim, é preciso uma boa dose de rebeldia, abrir as asas e partir em vôo solo para entender o mundo, perder a ingenuidade e completar o nosso processo de amadurecimento. Mas sem deixar para trás nossas raízes, sabendo reconhecer que, acertando ou errando, há sempre um fundo de razão no que seus pais te dizem.

*João Paulo Lopes Tito é advogado e escreve sobre cinema na coluna “Pós-créditos”, no site do Jornal Opção

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