James Joyce e o terror imposto pela religião

Stephen Dedalus perde a fé católica e no Deus criador, terrível e onipotente. Ganhará na liberdade o direito de perder-se por sua conta e risco

James Joyce, autor de “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, “Ulysses” e “Finnegans Wake” | Foto: Reprodução

Carlos Russo Jr.

O escritor irlandês James Joyce (1882-1941) se auto define como “um socialista de alguma espécie” e sua obra expressa o homem na tentativa de descrever o mundo, de fugir da sensação de inutilidade a que o capitalismo e a modernidade o sujeitam. Na realidade, antes de qualquer fundamento ideológico, Joyce é um revoltado, revolta que surge do medo e da perplexidade e que se expressa por intermédio da causticidade de sua ironia ímpar.

Ele empreende o resgate da consciência de sua “raça irlandesa” a partir de da condição de “exilado”. Exilado da Pátria que ama e odeia simultaneamente, mas que traz permanentemente consigo em seu refúgio em Trieste, na Itália.

“Um Retrato do Artista Quando Jovem” (no Brasil ganhou seis tradutores: José Geraldo Vieira, Bernardina Pinheiro, Elton Mesquita, Tomaz Tadeu, Guilherme da Silva Brito e Caetano Galindo) é uma obra semiautobiográfica, o “retrato” onde o autor escolheu fixar as impressões da infância, da adolescência e da juventude.

Stephen Dedalus, o narrador, “alter ego” de James Joyce, carrega no coração todos os heróis pátrios destroçados pela violência política e pelo moralismo opressor como o líder separatista Charles Parnell. Assim também o ódio ao opressor inglês e aos preconceitos de uma aristocracia protestante formalizada, minoritária e colaboracionista. Um ódio que provoca o escárnio e a ironia, voltados àqueles que cultuam a injustiça social e promovem o massacre dos pobres, através da violência, da prepotência e da ignorância, com que os dominados são mantidos sob suas rédeas. Ao mesmo tempo, dedica imenso ódio à hipocrisia do clero católico, e o denuncia como conivente com os exploradores do povo e dos dominadores ingleses.

Desde a infância Stephen Dedalus incorpora sentimentos de culpa, condicionados pela ortodoxia religiosa, transmitida inicialmente pelos próprios pais. Quando completa dez anos de idade, sua educação será colocada nas mãos dos jesuítas em regime de internato. Os padres serão, na imagem que é recordada, os disseminadores não da paz e da harmonia religiosas, mas do terror. E a religião será o instrumental que o apequenará, buscando transformá-lo em dócil cordeiro. E quando a fé e os dogmas já não bastarem para tal não faltarão os castigos físicos, como as palmatórias e, mesmo, as ameaças de expulsão do seminário.

Esse ensaio cobrirá exclusivamente a etapa de vida de Stephen colocado interno numa escola dirigida por jesuítas, na qual participará de um primeiro “retiro espiritual”, onde os padres “tratarão” dos jovens educandos transmitindo-lhes as quatro chaves essenciais da fé católica. Aliás, um discurso que nos dias de hoje é permanentemente parodiado nos cultos das Assembleias de Deus e suas correntes afins.

Retiro religioso, a morte e o primeiro julgamento

Assim falou o padre superior aos adolescentes reunidos na capela do seminário: “Qual é o significado da palavra retiro espiritual? Um afastamento momentâneo dos cuidados da nossa vida, dos cuidados desse prosaico mundo, de modo a examinarmos a nossa consciência, a refletirmos nos mistérios de nossa santa religião e compreendermos melhor porque estamos nesse mundo. Fomos enviados ao mundo para cumprirmos a vontade de Deus e salvarmos nossas almas imortais. Existem as quatro verdades derradeiras: morte, julgamento, inferno e paraíso.”

Joyce, Pound e outros | Foto: Reprodução

No primeiro dia o pregador trouxe a morte e o julgamento para dentro da alma de Stephan, despertando-a lentamente para o desespero. A débil claridade do medo se transformou em terror do espírito, quando o pregador derramou o terror. Sentiu o frio de a morte lhe tocar as extremidades e subir até o seu coração; a faixa da morte velando-lhe os olhos, os claros centros do cérebro extinguindo-se um a um como lâmpadas, o último suor fluindo-lhe da pele e o coração batendo cada vez mais debilmente, falhando, tudo o mais já vencido, a respiração, pobre respiração, o pobre sopro humano sem auxílio, suspirando e soluçando, estertorando. Nenhum auxílio, nenhum socorro!

Aquele corpo, que tudo dera por ele, estava morrendo. Para a tumba com ele! Fechemo-lo este cadáver dentro de uma caixa de madeira e empurremo-lo para longe das vistas dos homens, dentro de um buraco bem fundo, no chão, para ser pasto dos seus próprios vermes, para ser devorado por ratos gordos e pelas baratas e formigas sempre tão ativas e apressadas.

Sentia-se, na fala do pregador, já em sua veste a mortuária e enquanto os amigos ainda estavam lá a velá-lo, em lágrimas, a alma do pecador já estava sendo julgada. E naquele derradeiro momento de consciência, toda a vida terrena passa como um filme pelas vistas da alma, sem tempo de reflexão, apenas de julgamento!

Deus, tanto tempo misericordioso, agora seria justo! Ele que tanta paciência tivera argumentando e concedendo tempo para que a alma pecadora se arrependesse, poupando-a. Mas esse tempo findara. Tempo houve para gozar e pecar; para zombar de Deus e dos preceitos de sua Igreja, para desafiar os mandamentos e preceitos de sua Majestade, para tapar os olhos dos homens seus companheiros, cometendo pecado após pecado, e escondendo sua corrupção aos próprios olhos dos homens. Agora chegara a vez de Deus. E ele não poderia ser enganado e nem ter os olhos fechados.

Todos os pecados sairiam de seus esconderijos, até mesmo os mais degradantes mesmo para a nossa pobre natureza corrupta. O que adiantava ter sido um grande na terra? Todos eram iguais diante da grande mesa do julgador. Ele recompensaria os justos e puniria os culpados. E nada mais que uma fração infinitesimal de segundos bastaria para o julgamento da alma de um homem.

Num instante após a morte, a alma era pesada na balança, ao final do qual ou ela passaria para a morada da felicidade ou para a prisão do purgatório ou, então, arremessada, rugindo no inferno.

O juízo final

Não bastava o julgamento imediato “post-mortem”. O grande julgamento necessitaria de publicidade e deveria ser exemplar! A justiça divina tinha que se vingar aos olhos dos homens, de todos os homens: após o julgamento particular viria o geral. Para tanto haveria um Dia D, o dia do juízo final que chegaria ao final dos tempos!

Nora e James Joyce | Foto: Reprodução

As estrelas dos céus cairiam como meteoros candentes. O sol tinha-se tornado um saco murcho de cabelos amarelos. A lua ganhara a cor do sangue. O firmamento era um papel enrolado. O arcanjo Miguel, príncipe da corte celestial, gendarme pretoriano imbatível e feroz, aparecia glorioso e terrível contra o firmamento. Com um pé no mar e outro na terra fazia ecoar sua brônzea trombeta, despertando os mortos e extinguindo os tempos, os que foram e os que são, mas que jamais serão.

Foram três toques, não mais; ao último as almas de toda a humanidade se apinham no vale de Josafat, ricos e pobres, cultos e ignorantes, bons e culpados. São as almas de todos os seres humanos que um dia existiram, todos os filhos e filhas de Adão, que se reúnem para esse dia supremo.

E eis que chega o grande momento; surge aquele que um dia apareceu aos homens como o Bom Pastor, o manso Cordeiro de Deus, o humilde Jesus de Nazaré. Mas Ele se transfigurou! Já nada possui de humilde, de humano. Os homens logram vê-lo no alto, acima das nuvens, em todo seu poder e majestade, rodeado por coros de anjos e arcanjos, tronos e dominações, potestades, querubins e serafins, como um Deus Onipotente, Eterno.

Quando Ele fala sua voz é ouvida nos mais longínquos recantos da Terra, mesmo nos abismos sem fundo das catacumbas! Juiz Supremo, sua sentença não admite nenhuma apelação ou postergação! Ela chama os justos para sua Direita, ordenando-lhes que entrem para o reino beatífico da felicidade eterna, para eles preparado. Aos injustos enxotará, com Ira, de sua presença: “Afastai-vos de mim, oh malditos, ide para o fogo eterno preparado pelo demônio e seus anjos”.

A agonia dos pecadores a ninguém arrancará uma só lágrima. O amigo será suprimido dos que o acompanham, os filhos serão tirados de seus pais, os maridos de suas esposas. Os pobres pecadores estendem seus braços para os que lhes eram caros, para os que os aconselhava a seguir a trilha correta quando em vida. Mas já é tarde, muito tarde! Os justos voltam para o lado seus rostos, a visão das almas danadas, que transparece em toda sua horrível feiura, causa-lhes repugnância.

Sylvia Beach e James Joyce | Foto: Reprodução

E esse dia há de vir, chegará, tem de vir: o dia da morte e do julgamento! Se a morte é certa, o tempo e a maneira em que se dará, são incertos. E após a morte, o julgamento! Morte e julgamento trazidos ao mundo devido o pecado de nossos primeiros pais. Negros são os pórticos que se fecham à nossa existência terrena; a porta através das quais cada alma deve passar sozinha, sem ajuda, apenas com suas ações e intensões.

“O Inferno alargou a sua garganta e abriu a sua boca”, do livro de Isaías, disse o pregador. Adão e Eva foram criados por Deus para que preenchessem os lugares vagos deixados nos céus por Lúcifer e seus seguidores. Lúcifer era um filho da luz, da manhã, um anjo radiante, mas que caiu, caiu por sua revolta e foi arremessado com todos os seus acólitos nos infernos. Seu pecado, os teólogos dizem, foi o orgulho, aquele pensamento do que não deseja servir. O instante em que pensou o perdeu! Ofendeu a Potestade Divina pelo pensar dum instante. E Deus o condenou pela eternidade pelo sopro de um pensar!

Mas Adão e Eva também caíram! Postos pelo Divino Amor no Éden, na planície de Damasco, só lhes era negado comer do fruto da árvore proibida. O demônio, aquele que fora filho da luz, tinha-lhes inveja. Resolveu tentá-los, pois não poderia conceber que o homem, feito de barro, deveria herdar aquilo que de direito ele possuíra, antes da queda. E a mulher, o vaso mais frágil, foi quem ouviu da serpente a blasfêmia: “Se eles comessem do fruto proibido se tornariam deuses, maiores mesmo que o próprio Deus”. Ela e Adão comeram da árvore do saber e caíram, como caíram! Ouviu-se a voz irada de Deus e Miguel, o arcanjo pretoriano, espada fálica flamejante em riste, expulsou-os do Éden, atirando-os no mundo de maldades, de corrupção, de dureza, para ganharem o pão com o suor de seus rostos.

Mas quão grande é a misericórdia divina! Tomou-se de piedade por nossos pobres pais e prometeu que na plenitude do tempo deveria enviar Alguém que os redimiria, fazendo-os novamente filhos de Deus e herdeiros dos céus. E Cristo veio. Nascido de uma virgem pura, que deu à luz numa pobre estrebaria, viveu como um humilde carpinteiro até que sua hora chegasse. E então, repleto de amor pelos homens desceu até nós trazendo o seu evangelho.

Os homens ouviram-no? Escutaram-no, mas não o ouviram. Ele foi agarrado e conduzido ao suplício ao lado de dois ladrões. Crucificado teve seu corpo perfurado por lança e, mesmo nesse instante de suprema dor, o Redentor teve pena da humanidade: do topo do Calvário fundou a Santa Igreja Católica, contra a qual prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam. Mas que, após tudo o que havia feito pelos homens se eles ainda persistissem em sua maldade, restaria para os mesmos uma eternidade de sofrimento: o inferno!

Pobre alma a de Stephen Dedalus! Mergulhou num crepúsculo ameaçador, contemplando tudo com os olhos sombrios, sentindo falta de socorro, perturbado e humano, sendo visto em atos e pensamentos por um deus de olhos bovinos que o encarava dia e noite. Sentia-se regredir, sufocava-o o sentimento de terror que experimentara na infância. Mas o pregador prosseguiria!

O Inferno, a tortura física

Tentemos compreender a natureza da morada dos danados, que a justiça do Deus ofendido criou para a eterna punição dos pecadores. O inferno é uma estreita, negra, sórdida prisão fétida, cheia de fogo e fumaça. É uma prisão feita por Deus para aqueles que se recusaram a seguir as suas Leis.

Nas prisões terrenas os cativos têm, no mínimo, alguma liberdade de movimento entre as quatro paredes de sua cela e no tenebroso pátio da prisão. No inferno não é assim. Lá, devido à superpopulação, os prisioneiros estão atirados uns aos outros, extremamente apertados e desamparados, incapacitados até de retirar um verme de seu próprio olho.

Jazem nas trevas exteriores, da que o fogo do inferno é de um tipo especial, que não emite luz, mas arde eternamente em trevas, em meio a uma tempestade, que nunca termina, feita de negras chamas e de fumaça do enxofre a arder.

Logo, todo horror dessa estreita e negra prisão é aumentado por seu tremendo cheiro ativo. O enxofre enche o inferno com seu intolerável fedor. E os corpos aos milhões e milhões, na putrefação dos danados a arder e emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição criam uma tão grande pestilência que, um só desses corpos seria capaz de infectar todo o mundo!

Mas tal horrível fedentina, ainda não é o maior tormento físico. O tormento pelo fogo tem sido o maior suplício ao qual os tiranos têm sujeitado as criaturas. Colocai o dedo sobre o fogo e sentireis a dor; mas, não se esqueçam de que esta é a dor de um fogo benéfico, criado por Deus para o bem do homem. O fogo do inferno, aquele que arde nas trevas é de outra qualidade, pois Deus o fez para torturar e punir o pecador sem arrependimento. Ele não se extingue como o fogo benéfico. O fogo do inferno nunca se extingue, arde sempre e ininterruptamente com indizível fúria. Ele preserva aquilo que ele queima para que a tortura seja eternal.

E mais. O fogo terrível não aflige os danados apenas por fora, pois cada alma perdida se transforma em um inferno dentro si mesma, um fogo que se insufla em sua própria essência. Enfim, o fogo que procede da ira divina tortura tanto o corpo quanto a alma, soprado numa perene e crescente fúria pela Divindade.

Acontece que no inferno todos os sentimentos têm sinal trocado. Assim, não há pensamentos de família, amizade, Pátria, relações. O danado se esgoela e grita com os outros, sua tortura e ódio se intensificam pela própria presença de outros torturados.

Agora já não há tempo para redenção, para o arrependimento!

Por último, prossegue o jesuíta, considerai o tormento das almas torturadas na companhia dos demônios. Não podemos ter ideia de quão terríveis eles possam ser. Tais demônios, que já foram anjos virtuosos, tornaram-se repelentes, asquerosos. Aqueles, quando pecaram, fizeram-no por meios que eram compatíveis com sua natureza angelical: foi uma rebelião do intelecto. Eles mesmos, anjos decaídos enojam-se das almas dos danados que cometeram pecados que indizíveis por ultrajarem o Espírito Santo.

O padre concluiu o sermão do dia: “Meus irmãos, queira Deus que nenhum de nós ouça jamais soar em seus ouvidos a divina sentença de repulsa: Afastai-vos de mim, vós, oh amaldiçoados, ide para o fogo eterno que foi preparado pelo demônio e seus anjos!”

Stephen, desamparado, desceu a nave da capela com as pernas tremendo e o couro cabeludo arrepiado em sua cabeça, como se mãos de fantasmas estivessem tocando-a. E a cada passo tinha medo de já haver morrido, de que sua alma já tivesse sido arrancada do estojo do corpo, que estivesse mergulhando de cabeça no espaço.

O Inferno, a tortura psicológica

No dia seguinte, o jesuíta ainda prosseguia a sua fala sobre o que aguarda as almas condenadas: “O pecado é uma dupla enormidade. É um vil consentimento à nossa natureza corrupta em seus mais baixos instintos, naquilo que é grosseiro e bestial; e é, também, um afastamento do conselho de nossa natureza mais alta, daquilo que é puro e sagrado, do próprio Deus Santo. Por tal razão o pecado mortal é punido no inferno com duas diferentes formas de castigo, o físico e o espiritual”.

A maior dentre todas as penas espirituais é a perdição; de fato, é um tormento tão grande que chega a ser maior que todos os outros. Nós nessa vida não temos consciência muito clara do que tal perda possa ser, mas os danados no inferno, para seu maior tormento, têm uma compreensão total daquilo que perderam e compreendem que o se foi para sempre.

A segunda pena que afligirá as almas danadas é o castigo da consciência. Nas almas dos perdidos se ergue um remorso perpétuo provindo da putrefação do pecado, que age como um aguilhão que aferroa a consciência. A primeira ferroada descarregada por esse verme cruel é a lembrança dos prazeres passados. E que terrível recordação será essa! Lá no lago das chamas que o devora, o rei se recordará das pompas da corte; o sábio pecador dos maus livros que leu; o amante dos prazeres artísticos de seus quadros, dos mármores; o glutão dos prazeres da mesa e do vinho especial; o impuro e adúltero os prazeres imundos e inenarráveis com que se comprazia. Ah, eles se arrependerão dos pecados cometidos, terão nojo de si mesmos e este é a segunda ferroada do verme da consciência: uma tardia e infrutífera angústia pelos pecados cometidos.

Finalmente ainda irão deplorar as boas ocasiões que haviam tido para o arrependimento, e esta será a terceira ferroada do verme. A consciência dirá: tivestes tempo e oportunidade para o arrependimento, não quisestes. “Tivestes o Ministro de Deus para a santa confissão, desprezastes. Deus apelava que voltasses para ele, para Sua Lei. Mas não. Não quisestes. Imploras agora um momento de vida terrena para o arrependimento? É vão, pois esse tempo já se foi”.

A pena seguinte é a da extensão. O homem na vida terrestre embora seja capaz de muitos malefícios, não é capaz deles todos ao mesmo tempo. No inferno, entretanto, um tormento ao invés de substituir outro, cede-lhe ainda uma força que o amplifica, enquanto as faculdades internas são mais perfeitas que os sentidos exteriores, sendo mais aptas ao sofrer. Assim, cada sentido é atingido por um tormento que lhe é peculiar: a imaginação com as mais horríveis imagens, o espírito e a compreensão com uma treva mais terrível que as trevas da prisão.

Coexistindo com a pena da extensão temos a da intensidade. Na nossa vida, as aflições jamais são grandes ou longas demais, porque a natureza ou as ultrapassa pelo hábito ou lhes põe certo fim. Mas no inferno os tormentos não podem ser vencidos pelo hábito, pois sendo de terrível intensidade também o são de inimaginável variedade. E nem pode a natureza escapar dessas torturas sucumbindo mercê delas, pois a alma é sustentada no mal de modo a que seu sofrimento pode ser sempre maior.

Finalmente chegamos a última tortura, que coroa todas as outras: a Eternidade! Oh terrível e medonha palavra, Eternidade! Prestem bem atenção para a eternidade das penas. O que não será suportar as mil formas de tortura infernal para todo o sempre? Que horroroso castigo! Uma eternidade de agonia sem fim, de tormento corporal e espiritual sem fim, sem um raio de esperança, sem um segundo de trégua! Tal é o terrível castigo para os que morrem em pecado mortal e decretado por um Deus todo poderoso e justo!

Os homens muitas vezes não compreendem a hedionda malícia do pecado mortal e sua gravidade. E não compreendem que por um único pecado possa a justiça divina condenar o homem a uma punição eterna, num sofrer infinito. Isto porque eles não estão aptos a compreender toda a malícia do pecado mortal. Mas Deus, em sua suprema bondade, não poderia permitir que um pecado qualquer permanecesse sem o castigo, pois seria uma transgressão à Sua Lei e Deus não seria Deus se não punisse.

E assim encerrou a sua prédica sobre a morte, o julgamento e o inferno, dado que sobre o Paraíso pouco explanou: “Ele vos chama a Si. Sois Dele. Ele vos fez do nada. Ele vos ama como só um Deus pode amar. Os Seus braços estão abertos para receber-vos, mesmo que tenhais pecado contra Ele. Vinde a Ele, pobres pecadores. Agora é o Tempo aceitável! Esta é a hora”.

Mas Stephen Dedalus-Joyce se revoltará e o “Um Retrato do Artista Quando Jovem” refletirá, na revolta, o anseio por liberdade. E, ao se libertar, Stephen realizará uma verdadeira viagem íntima por descobertas, na incessante busca de uma consciência própria, independente dos preconceitos e dogmas religiosos que ele abomina. Nessa viagem, que é uma epifania, ele perderá a fé católica e no Deus criador, terrível e onipotente. Ganhará na liberdade o direito de perder-se por sua conta e risco.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

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