Immaculada, a história da pobre menina rica paulista

Romance de Ivone C. Benedetti tem como cenário São Paulo da época do café à Constituição Polaca de Vargas, e apresenta o drama de duas famílias ligadas pelos negócios e laços do matrimônio

Mariza Santana

Immaculata é uma menina na tenra idade de 10 anos prometida em casamento ao viúvo Francisco, advogado e fazendeiro de café. Sua família é proprietária de empresa na área da construção civil, atividade econômica que começa a dar os primeiros passos em São Paulo, na década de 1920, auge da economia cafeeira no Brasil. Ela cresce, e cinco anos depois casa-se com seu prometido sem o desejar, conforme os costumes vigentes na época.

O casamento de Immaculata e Francisco reforça os negócios entre as famílias de ambos: Dantas e Almeida e Silva. O aporte do capital proveniente da exportação do café na construtora lhe dá envergadura para fechar grandes contratos. O setor da construção é promissor. A economia brasileira cresce e se moderniza, começam a surgir as grandes obras públicas e de prédios residenciais, um novo nicho de negócio.

Entretanto, Francisco guarda um segredo do passado, um drama vivido por ele que causou impactos irreparáveis a sua vida e a seu caráter. Nem mesmo a inocência de Immaculata —, e ou até mesmo por causa dela —, é capaz de evitar os acontecimentos que ocorrem no período de noivado e, depois, na convivência matrimonial.

O romance “Immaculada”, da escritora e tradutora Ivone C. Benedetti, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), é um retrato da sociedade paulista, e também brasileira, no período histórico que vai do auge da economia do café, passando pela depressão de 1929, o Tenentismo, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder como presidente da República, a Revolta Constitucionalista de 1932, até a outorga da Constituição Polaca de 1937 pelo presidente gaúcho. Mostra ainda os primórdios do movimento operário no País.

“Immaculada” é o primeiro romance da escritora paulista, e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010. A obra possui uma narrativa primorosa, bem escrita, a respeito de um período de grandes transformações políticas e econômicas do Brasil. Além das famílias da elite paulista, conta a trajetória de outros personagens que foram importantes para a formação do povo de São Paulo, que são os imigrantes italianos.

Ivone C. Benedetti: escritora e tradutora | Foto: Facebook

Fugidos da pobreza daquele país europeu, os chamados “carcamanos” migraram para o Brasil em busca de melhores oportunidades. Muitos foram trabalhar nas fazendas de café, substituindo a mão de obra escrava. Em seguida, algumas famílias de imigrantes italianos se mudaram para a capital paulista, na procura de mais liberdade e ascensão social, participando assim ativamente do amálgama de formação do povo paulistano.

Immaculata, a protagonista do romance, é o elo entre as duas famílias, e também a principal fiadora do acordo firmado pelos futuros marido Francisco e sogro Evaristo, com seu pai, o engenheiro Dantas. Como muitas mulheres de sua época, não representava mais do que moeda de troca, por vir acompanhada de um rico dote. Tinha seus passos vigiados e permanecia confinada na segurança do lar. Isso quando era apenas a jovem prometida, e também depois, já como senhora Almeida e Silva. E segue enigmática diante de seu inevitável destino.

Entretanto, a jovem heroína não está livre das reviravoltas da vida. O desenrolar do romance, alinhavado com competência por Ivone C. Benedetti, comprova que nossa existência, em muitos momentos, escapa do controle exercido pelos responsáveis pelo nosso bem-estar. E isso é verdade até para uma mulher nascida em berço de ouro e educada para se tornar apenas uma madame da alta sociedade.

“Immaculada”, portanto, é uma narrativa arrebatadora, onde desfilam dramas, desejos políticos e interesses econômicos. Traça ainda um retrato perfeito de um período da história de São Paulo, quando a capital paulista ainda era apenas uma cidade próspera, muito longe da metrópole multicultural que viria a se tornar.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção.

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