Harvey Weinstein: o lobo de Hollywood

Um dos executivos mais importantes da indústria cinematográfica americana vai pular o ano na berlinda, pelos assédios sexuais e estupros que cometeu ao longo de 30 anos, segundo denúncia de atrizes e modelos

Salma Hayek: No filme “Frida”, Harvey exigiu que a atriz fizesse uma cena de sexo com outra mulher, que não estava no roteiro, enquanto ele assistia. E ela então, sentindo-se humilhada, teve de fazer

Harvey Weinstein, nova-iorquino de 65 anos, um dos maiores produtores que Holly­wood já teve, não conseguirá dizer que 2017 foi um ano bom. Desde que o jornal “The New York Times” publicou, em outubro, uma reportagem sobre os casos de assédio sexual praticado por ele, tudo começou a ruir ao seu redor.

Logo em seguida, uma reportagem da revista “The New Yorker”, assinada por Ronan Farrow, levantou vários depoimentos contra Harvey, de coisas que ocorreram ininterruptamente ao longo de quase 30 anos.

Nessa reportagem do dia 23 de outubro, intitulada “From Aggressive Overtures to Sexual Assault: Harvey Weinstein’s Accusers Tell Their Stories” (“De propostas indecentes a estupro: vítimas de Harvey Weinstein contam suas histórias”, em tradução livre), a atriz italiana Asia Argento acusou o executivo de ter feito sexo oral nela à força, em 1997, quando ela tinha 22 anos.

E aí a casa caiu. Dezenas de mulheres começaram a acusá-lo de estupro, humilhação verbal, abuso de autoridade e outras canalhices, quando elas eram jovens.

Vingança

As portas começaram a se fechar. O Conselho do Oscar o expulsou de seus quadros, e o executivo acabou sendo demitido da empresa que leva seu nome, a Weinstein Company, estúdio criado em 2005 por ele e o irmão, Bob Weinstein.

Harvey Weinstein, em foto de 1999, com a atriz Gwyneth Paltrow, que o acusou de assédio numa suíte de hotel, quando ela tinha 22 anos e protagonizava o filme “Emma”, em 1996

Entre as atrizes que vieram a público acusá-lo de algum tipo de assédio ou violência, há nomes de peso como Angelina Jolie, Ashley Judd, Gwyneth Paltrow, Lea Seydoux, Rosanna Arquette, Uma Thurman, Daryl Hannah e membros da nova geração como Lupita Nyong’o.

A última bomba sobre o cadáver moral de Harvey Weinstein foi detonada pela atriz mexicana Salma Hayek. Ela publicou um textão no “New York Times”, no dia 12 de dezembro, com detalhes impressionantes sobre as atitudes violentas do executivo.

Salma conta que desde “A Balada do Pistoleiro”, de 1995, quando ela tinha 29 anos, Harvey insistia que ela tomasse banho com ele, ou que mostrasse os seios, ou ficasse nua com outra mulher para ele ver, ou que o deixasse fazer massagem nela.

Após as insistências, e persistentes negações, Harvey se vingou na produção do filme “Frida”, em 2002. Exigiu que Salma fizesse uma cena de sexo com outra mulher, que não estava no roteiro, enquanto ele assistia. E ela então, sentindo-se humilhada, teve de fazer.

Presas

Se todos os depoimentos fossem sintetizados numa sequência de cenas, mostrando a vileza de Harvey, os roteiristas de Hollywood se sentiriam deficitários na construção de violões. Para encobrir suas atitudes, chantageava colegas, subornava jornalistas, dissimulava as intenções, intimidava e humilhava seus subordinados.

Asia Argento, atriz e modelo italiana, acusou o executivo nova-iorquino de ter feito sexo oral nela à força, em 1997, quando ela tinha 22 anos

Quando as denúncias surgiram em massa, o pano caiu, e o espetáculo de horrores ganhou o mundo. Nas festas de lançamento de filmes ou de festivais de cinema, Harvey chamava individualmente jovens atrizes ou modelos para seu quarto, e lá se masturbava diante delas, ou forçava-as a sexo oral ou penetração vaginal.

Em alguns casos, conseguiu. Em outros, viu suas presas fugirem. E aí, começava a perseguição, usando sua influência para dificultar a vida delas no meio cinematográfico. Estas são as principais razões pelas quais ninguém se atrevia a dizer em público qualquer coisa negativa sobre o figurão, que se sentia livre para as investidas.

O poder de Harvey Weinstein não era pouco. Seu arsenal foi construído ao longo de quase 40 anos. Em 1979, ele e o irmão Bob fundaram a Miramax, que se tornaria a maior produtora e distribuidora de filmes independentes dos EUA. Vendida para a Disney, na década de 1990, ainda sob o comando dos irmãos, a empresa se tornaria uma gigante papadora de prêmios, faturando bilhões de dólares.

Foi nesse fluxo de trabalhos bem-sucedidos que Harvey conquistou seu prestígio. Fez isso numa combinação de sagacidade ímpar para descobrir bons roteiros, apontar o melhor diretor para cada produção e achar os atores certos. Fez isso em meio a um estilo feroz de agir, “inspirando medo e gratidão ao mesmo tempo”, segundo Ronan Farrow.

Prestígio como escudo

Harvey era um dos executivos mais reverenciados de Hollywood. Cerca de 300 indicações ao Oscar são atribuídas a ele. Com ele, muitos atores, diretores e roteiristas foram premiados. “O Paciente Inglês” (1996), por exemplo, levou oito Oscar, de 11 indicações.

Em 1999, “Shakespeare Apai­xonado”, teve 13 indicações ao Oscar, ganhando sete vezes, incluindo Melhor Atriz para Gwyneth Paltrow, superando a brasileira Fernanda Montenegro, que naquele ano concorria pelo filme de Walter Salles, “Central do Brasil”, distribuído internacionalmente pela Miramax também.

Seu último estardalhaço foi “O Discurso do Rei”, em 2011, com 12 indicações ao Oscar, levando quatro estatuetas. No ano passado, o filme “Lion”, distribuído pela Weinstein Company, foi indicado a seis Oscar, mas não levou nenhum.

Segundo Ronan, o sucesso levou Harvey a ser o homem mais agradecido no palco do Oscar, passando Steven Spielberg e só ficando um pouco abaixo de Deus. Além disso, ele também era um brilhante angariador de fundos de campanha para candidatos democratas, incluindo Barack Obama e Hillary Clinton.

Mito e vigor

Outros poderosos seguem uma linha semelhante à tara incontrolável de Harvey. Violência machista entre os donos do poder, ao se tornar pública, não dá em muita coisa, como aquela contra Woody Allen (pai de Ronan Farrow), acusado de abusar da filha adotiva Dylan Farrow. O próprio Ronan foi à imprensa acusar o pai e cobrar da Justiça o cumprimento da lei. Em vão.

Donald Trump, bilionário e presidente dos EUA, que se gabou de pegar mulheres pela vagina, Bill O’Reilly e Roger Ailes, ambos executivos do grupo Fox Entertainment, e o comediante Bill Cosby, também já foram acusados do mesmo crime de assédio e estupro. Cosby é o único negro desse grupo de predadores e, coincidentemente, o único que foi preso.

Mas depois das denúncias contra Harvey – sob investigação, com ele correndo o risco de ser preso –, algo pode ter mudado. Várias outras acusações contra atores e executivos despontaram na mídia, como o caso de Kevin Spacey, que culminou no cancelamento da série de maior sucesso da Netflix, “House of Cards”. No Brasil, se a caixa preta do assédio fosse aberta, muitos nomes se esfacelariam.

O filme de Martin Scorsese, “O Lobo de Wall Street”, desenvolve uma tese que é bem a cara de Harvey. Ao falar da vida desregrada de um falsário do mercado financeiro de Nova York, a narrativa aborda o mito de que a energia sexual deve ser canalizada em prol do poder de decisão.

No longa-metragem protagonizado por Leonardo DiCaprio, funcionários de uma corretora contratam serviços de sexo para drenar a energia, e alguns mais desajustados se masturbam para ficar bem. Harvey Weinstein parece ter levado a sério essa cascata, no início de sua carreira. E tarado, em vez de se tratar, preferiu se tornar um predador, o lobo de Hollywood.

Uma resposta para “Harvey Weinstein: o lobo de Hollywood”

  1. Avatar Boris disse:

    corrijam ali: saiu “violões” em vez de “vilões” :)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.