Goiás como rito de passagem na trajetória política de Fernando Henrique Cardoso   

FHC lutou pra realizar um sonho da família: o de que um Cardoso deixasse o Brasil mais perto de se tornar não apenas a terra do futuro, mas o país de hoje                                         

Jales Guedes Coelho Mendonça

Especial para o Jornal Opção      

Lançado originalmente em inglês no ano de 2006, o livro “O Improvável Presidente do Brasil — Recordações”, de autoria de Fernando Henrique Cardoso (e colaboração do jornalista Brian Winter), foi traduzido para o português e publicado no Brasil em 2013 pela editora Civilização Brasileira. Prefaciada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, a autobiografia de Fernando Henrique Cardoso, doravante FHC, percorre toda a sua movimentada trajetória, iniciada em 18 de junho de 1931, no Rio de Janeiro, filho de Leônidas Fernandes Cardoso e Naíde Silva Cardoso.

O capítulo inaugural intitulado “Ofício de família” aborda a família Cardoso, oriunda do Estado de Goiás. A menção a parentes, no entanto, aparece frequentemente ao longo do texto, sobretudo o pai, figura visivelmente marcante em sua vida. A narrativa tem início com a descrição do impacto familiar causado pelo chamado “putsch” integralista, tentativa de golpe patrocinada pelos seguidores de Plínio Salgado que atacaram, em maio de 1938, o Palácio da Guanabara, residência oficial do presidente.

Diante da fragilidade da segurança do local na ocasião, Alzira Vargas, filha do mandatário Getúlio Vargas, desesperadamente aciona pelo telefone os comandantes militares. Comunicado da quartelada altas horas da noite, o major Leônidas Fernandes Cardoso (1889-1965), oficial de gabinete do ministro da Guerra, general Góis Monteiro, se dirige apressadamente ao Rio de Janeiro, suspendendo momentaneamente suas férias em Niterói. Aflito com o telefonema que o despertara do sono, o pequeno Fernando Henrique Cardoso, filho de Leônidas, só conseguiu relaxar no dia seguinte com o regresso triunfante do genitor. “Podemos voltar a nossas férias”, ouviu aliviado o infante de 6 anos de idade. “A política interrompeu pela primeira vez a minha vida”, rememorou FHC.

Fernando Henrique Cardoso com os pais Leônidas Cardoso e Nayde e os irmãos Antônio Geraldo e a irmã Gilda, em 1940 , em São Paulo | Foto: Arquivo da Família

Família Cardoso forte no Exército e com ligação com Goiás

A família Cardoso registra destacada presença no Exército brasileiro. No consulado varguista, por exemplo, o general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso (1867-1947), tio-avô de Fernando Henrique, apoiado pelo movimento tenentista, foi ministro da Guerra entre 1932 e 1933, justamente durante a rebelião paulista denominada Revolução Constitucionalista. Dois de seus rebentos, Dulcídio Cardoso (1896-1978) e Ciro Cardoso (1898-1979), tornaram-se igualmente generais, sendo que o primeiro foi ainda prefeito do Distrito Federal e o último exerceu, como o pai, o comando do Ministério da Guerra.

O avô de FHC, Joaquim Inácio Batista Cardoso (1860-1924), de igual modo, atingiu o generalato e participou ativamente dos eventos alusivos à Proclamação da República, a ponto de fontes indicarem um suposto diálogo entre ele (à época alferes) e Benjamin Constant a respeito do destino do imperador Dom Pedro II. Sentou praça no 20º Batalhão de Caçadores aquartelado na antiga capital de Goiás aos 15 anos de idade. Ao combater na Revolta da Armada em 1893, estreitou laços com o presidente Floriano Peixoto, de quem se tornou amigo. Em 1922, foi preso acusado de conspiração na revolta tenentista de 5 de julho (Forte de Copacabana), sendo posteriormente reformado.

Joaquim Ignácio Batista Cardoso, avô de Fernando Henrique Cardoso, no início da década de 1910 | Foto: Arquivo da família

Tanto Joaquim Inácio (avô) quanto Augusto Inácio (tio-avô) nasceram na Cidade de Goiás e eram filhos de Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso (1835-1905), também militar e líder político de prestígio em Goiás, “um estado no árido e atrasado planalto central do Brasil”, consoante registrou o autor, sem declinar o nome da unidade federativa mediterrânea. “Cresci ouvindo histórias fantásticas sobre meu bisavô”, sublinhou. Embora não detalhe quais foram essas lembranças, é lícito supor que a atuação de Felicíssimo na lendária comissão Cruls — incumbida de demarcar o local da futura capital federal nos albores da República — tenha povoado o imaginário de seus descendentes.

Por falar nos primeiros passos da era republicana, calha consignar que, ao inserir em sua obra “1889” o teor do telegrama enviado por Felicíssimo ao filho Joaquim Inácio, o escritor e jornalista Laurentino Gomes o imortalizou: “Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado”.

Em um ambiente doméstico dominado pelo ofício militar, potencializado ainda pelos palpitantes acontecimentos relacionados à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a declaração do menino Fernando Henrique de que no futuro seria ou general ou cardeal soou quase como natural. Do pai, só ouviu o estímulo para que sempre tivesse “grande curiosidade intelectual”.

No entanto, como costuma acontecer com os mirabolantes planos traçados na infância, o roteiro soçobrou nos anos seguintes. Mais inclinado ao mundo das ideias e decidido a ingressar na Universidade de São Paulo (USP), o autor inicialmente tentou admissão na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. De acordo com ele, porém, a despeito de lograr média suficiente para a aprovação, acabou reprovado no teste de latim.

Professor de Sociologia na USP e estudo de Marx

Fernando Henrique, a antropóloga Ruth Cardoso e o filósofo José Arthur Giannotti | Foto: Reprodução

Já que também tinha se inscrito para a seleção da Faculdade de Filosofia, ali granjeou melhor sorte. Superada essa fase de recrutamento em 1949, logo FHC pendeu para o campo da Sociologia, onde o convívio com professores franceses estimulava saudavelmente os discentes, máxime os noviços.

Bastou pouco tempo de vivência universitária para Fernando Henrique abandonar os planos profissionais de outrora. Descobrira a sua verdadeira vocação: o magistério. Assim, em 1952, ano de sua formatura e do casamento com a colega e antropóloga Ruth Villaça Correa Leite, já lecionava na Faculdade de Economia da USP. No ano seguinte, foi contratado pelo Departamento de Sociologia como professor assistente.

Na docência, seu principal objeto de pesquisa esteve associado inicialmente às relações raciais no Brasil. No afã de desconstruir o mito da democracia racial, forte no imaginário coletivo, aproximou-se do professor francês Roger Bastide (1898-1974) e principalmente de Florestan Fernandes (1920-1995), seu maior preceptor na academia. O compromisso com a temática pode ser comprovado pelo título de sua tese de doutorado, publicada pela Difel em 1962: “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional — O Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul”.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso na defesa de sua tese de doutorado | Foto: Arquivo da família

O autor confessa ter flertado com a ideologia comunista. Todavia, a antipatia sentida pelo autocrático líder soviético Ióssif Stálin interditou uma provável filiação à legenda leninista, que terminou definitivamente sepultada com a invasão russa da Hungria em 1956. Ao tempo em que se apartava da militância no Partido Comunista, FHC mergulhava no conhecimento legado por Karl Marx.

Instado pelo amigo José Arthur Giannotti, filósofo que acabara de chegar de uma temporada intelectualmente frutífera na França, combinaram então, defronte ao mar de Copacabana, a formação de um grupo de estudos, afinal cognominado de “seminário Marx”, em razão de preliminarmente esquadrinharem o denso livro “O Capital”. “Nos apaixonamos pelo talento de Marx para análise empírica e por sua técnica de análise dialética mesmo quando não concordávamos com suas conclusões ou recomendações”, sintetizou FHC. Inserido na conjuntura binária e extremista da Guerra Fria, o rótulo de “marxista” impingido aos integrantes do comitê não demoraria, o que futuramente lhes carrearia grandes aborrecimentos.

A propósito, os prenomes de Karl Marx e Friedrich Engels serviram de inspiração para Maurício de Lacerda batizar seu filho como Carlos Frederico Werneck de Lacerda, conhecido no mundo político por Carlos Lacerda, jornalista e notável tribuno que desempenhou papel saliente na queda de três presidentes (Getúlio Vargas, Jânio da Silva Quadros e João “Jango” Goulart). A ele, Fernando Henrique dedica uma consideração, que tangencia a área da psicanálise, merecedora de maior reflexão dos especialistas: “Embora tivesse sido comunista na década de 1930, Lacerda renegou as origens com uma veemência que parecia conter boa dose de autodesprezo”.

O autor busca contextualizar suas experiências às circunstâncias do momento, motivo pelo qual passa em revista por vários presidentes da República que governaram o país após 1931, ano de seu nascimento. A única exceção refere-se ao imperador Dom Pedro II, a quem tece, em geral, referências positivas, sobretudo as alusivas à sua erudição, como o domínio de dez idiomas e o cultivo de amizades com vultos da expressão de Victor Hugo, Alexander von Humboldt, Graham Bell, entre outros. Como não poderia deixar de ser, anotou sua reprovação à excessiva procrastinação para a abolição da escravidão, o que colocou o Brasil na triste posição de última nação do hemisfério ocidental a libertar seus cativos.

Em contrapartida, no tocante ao presidente Jânio Quadros, com quem disputou e perdeu a eleição para prefeito de São Paulo em 1985, o enfoque é inversamente proporcional ao tom usado com o imperador. Salvo o comentário atinente à edição de 30 de junho de 1961 da revista “Time”, cuja capa estampou a imagem de Jânio, e que, para Fernando Henrique, “quase” chegou a conferir ao mandatário “a aparência de um estadista”, as demais menções são negativas quando não depreciativas. “Muito conhecido popularmente pela tentativa de proibir biquíni e minissaia — logo no Brasil! —, Jânio Quadros não tem equivalente em nossa história como figura excêntrica, instável e trágica”, é a abertura do capítulo 4. Além de qualificá-lo de “bêbado” em certa passagem, até um suposto reconhecimento de sua feiura pela esposa ganhou espaço: “A própria mulher de Jânio o considerava o homem mais feio que eu conhecia’.’’

Acompanhando Sartre no Brasil e o golpe de 1964

Fernando Henrique Cardoso serviu de intérprete para o filósofo francês Jean-Paul Sartre na sua passagem pelo Brasil | Foto: Arquivo da família

Para FHC, o ano de 1960 não se limitou à renhida disputa eleitoral entre as candidaturas de Jânio Quadros e Henrique Lott. A visita ao Brasil do filósofo francês Jean-Paul Sartre, pai do existencialismo, acompanhado de sua elegante mulher Simone de Beauvoir, escritora e baluarte do feminismo no planeta, teve muita significação também.

Segundo o autor, a palestra que Sartre daria em São Paulo seria transmitida ao vivo pela televisão para todo o território nacional. Convidado para realizar uma ou duas indagações ao conferencista, ele acabou assumindo o encargo da tradução, porquanto o responsável previamente incumbido da missão na hora acabou não correspondendo às expectativas nele depositadas.

O satisfatório desempenho de FHC, mesmo colhido pela surpresa, ao que tudo indica, granjeou a afeição do casal francês, a ponto de ambos aceitarem o delicado convite da família Cardoso para uma confraternização em seu solar no bairro do Brooklin. “Ficamos fascinados com ele”, reconheceu o anfitrião. Empolgado com Cuba, Sartre manifestou aos cicerones não compreender a motivo de eles optarem por Henrique Lott em detrimento de Jânio, que recentemente visitara a ilha. “Jânio é um populista, o que no Brasil não é necessariamente o mesmo que de esquerda. Além disso, não está vendo que se trata de um farsante?”, respondeu Cardoso.

Em agosto de 1961, cerca de seis meses após sua posse, Jânio Quadros inesperadamente renunciou à Presidência da República. Seu vice João “Jango” Goulart,, herdeiro do trabalhismo de Vargas, encontrava-se em missão diplomática na China de Mao Tsé-tung. Diante do cenário, eclodiu uma forte resistência, principalmente em setores militares, à assunção de Jango.

Fernando Henrique e Jânio Quadros (a fotografia mostra-o desinfetando a cadeia onde FHC havia se sentado): o populista de 1961 derrotou o sociólogo em 1985 | Foto: Reprodução

Em reação, Leonel Brizola, governador gaúcho e cunhado do vice-presidente, mobilizou seus conterrâneos para o cumprimento da legalidade. Criado o impasse, a solução ajambrada culminou com a implementação do modelo parlamentarista, com Tancredo Neves alçado ao posto de primeiro-ministro, e a fixação, mais à frente, de um plebiscito para o povo decidir sobre a reversão ou não do presidencialismo.

Em 1963, por ampla maioria, venceu o presidencialismo. Jango então acelerou seu programa denominado reformas de base. Observando de longe a evolução da cena política, Fernando Henrique afirma ter intuído que a coisa não daria certo. Para ele, tanto a reforma agrária quanto a reforma urbana deixaram os brasileiros, nas cidades e no campo, aterrorizados com a perspectiva de perderem suas casas ou propriedades rurais.

No dia 13 de março de 1964, realizou-se um grande comício em prol das reformas de base no Rio de Janeiro. Em visita ao estimado genitor, FHC encontrava-se na cidade. Ao sair do apartamento do pai, conta ter percebido uma luminosidade diferente: “Por toda parte velas tinham sido acesas nas janelas, simbolizando um silencioso apoio a um golpe contra Goulart. No prédio do meu pai, só duas janelas estavam escuras: a dele e a do famoso poeta Carlos Drummond de Andrade”.

A percepção do golpe seria confirmada na sequência. A surpresa recaiu na facilidade com triunfou. Derrubado Jango sem maiores focos de resistência, logo a caça às bruxas começaria. Arrolado nas primeiras listas de procurados pela polícia, Fernando Henrique se viu na contingência de ter de esconder-se, malgrado desconhecer as violações que cometera. Ao desconfiar da ingerência de professores de quem divergira no debate sobre a reforma da cátedra na USP, deixou consignado um sábio ensinamento para a posteridade: “É onde reside o caráter insidioso dos golpes. Inicialmente eles sempre são apresentados como nobres iniciativas de depuração, mas acabam degenerando em vulgares acertos de contas, nas mãos de quem estiver do lado certo”.

Fernando Henrique (lavando louça) e Ruth Cardoso, no exílio chileno | Foto: Arquivo da família

Rumo ao exílio e professor da filha de Salvador Allende

Tentando fugir como podia, alternando os lugares, após alguns dias, recebeu um telefonema da esposa contendo uma sugestão que ele já previa, mas não desejava ouvir: “A situação aqui está piorando” — disse Ruth em voz baixa, com delicadeza.  “Todos nós achamos que seria melhor se você deixasse o Brasil por um tempo.” FHC desligou o telefone muito abalado. Apesar de relutante, acatou a recomendação e rapidamente se viu arquitetando um plano de fuga. Agindo com a máxima cautela, na tarde do dia 17 de abril de 1964 entrava numa aeronave com destino a Buenos Aires, deixando para trás sua família e a carreira na USP.

“Poucas coisas são mais revoltantes que o exílio,” aduziu. Apesar da raiva, não demorou muito e a sua excelente teia de relacionamentos sociais aliada à reconhecida capacidade intelectual já lhe socorriam. Pelas mãos do amigo benfeitor Nuno Figueiredo, foi-lhe oferecida uma proposta de emprego na Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e Caribe (Cepal), em Santiago do Chile.

Agarrada de imediato a oportunidade promissora, a nova etapa da vida de FHC rapidamente foi acalentada pelo reencontro com a mulher e os filhos. O bom emprego num organismo internacional e a companhia da família por certo abrandaram as dificuldades do exílio, a ponto de qualificá-lo retrospectivamente de “amargo caviar”.

Com efeito, não se pode olvidar que Santiago à época talvez fosse realmente a capital intelectual e cultural da América Latina. “Fiquei pasmo com o caráter refinado e democrático da sociedade chilena”, recordou. Acrescentou ainda que despertou para o conceito de “América Latina” e a afinidade cultural entre as porções de origem portuguesa e espanhola.

O sociólogo brasileiro parece ter experimentado na efervescente Santiago uma espécie de verdadeiro período “bossa nova” chileno. Era adido cultural do Brasil no Chile o poeta e tradutor amazonense Thiago de Mello. Casado com uma nativa e desfrutando de um extenso rol de amigos na cidade, ele alugava uma casa do também poeta Pablo Neruda, onde promovia festas frequentadas pelas celebridades de ambos os países. Além do próprio Neruda, FHC, assíduo participante dos descontraídos encontros, se lembra de conviver com Salvador Allende, popular político socialista. Em resumo, Santiago era uma festa.

No exercício da docência no Chile, Fernando Henrique lecionou para Isabella Allende, filha de Salvador Allende, vítima do famoso 11 de setembro latino-americano, bem como para o brasileiro José Serra, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) no pré-1964, que mais tarde se tornaria seu fraterno amigo. Resgatando a experiência de sucesso do “Seminário Marx”, ele a replicou em um novo grupo de estudos que ficou conhecido como “Seminário de Santiago”, contando com a participação de Almino Affonso (ex-ministro de Jango), Plínio de Arruda Sampaio, Leon Hirszman, Paulo Alberto Monteiro de Barros, entre outros.

No dia 20 de agosto de 1965, em São Paulo, faleceu Leônidas Cardoso. Ao ser comunicado da funesta perda, FHC decidiu, apesar dos riscos, voltar imediatamente ao Brasil para se despedir “daquele homem marcante que eu sempre emulara”. Durante a missa de sétimo dia, um dos generais presentes prestou suas condolências a um parente e emendou um recado direto para o filho do ex-colega de farda: se não deixasse o país, iria para a cadeia. “Seriam necessários anos para que eu me recuperasse dessas injustiças e voltasse a estabelecer uma relação com o Brasil”, salientou.

Fernando Henrique e Enzo Faletto formularam a “teoria” da dependência | Fotos: Reproduções

O chileno Enzo Faletto e “teoria” da dependência

O sentimento de verdadeira devoção de FHC pelo genitor aclara-se ainda em outra passagem: “A morte do meu pai infundiu-me novo ânimo. Eu queria deixá-lo orgulhoso. Não terá sido por mera coincidência que pouco depois, em 1967, concluí um livro que é provavelmente meu trabalho acadêmico mais conhecido.” A obra referida é “Dependência e desenvolvimento na América Latina”, escrita em conjunto com o cientista social chileno Enzo Faletto, transformada na sequência em um dos clássicos acerca da teoria da dependência, ao lado dos estudos de Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra e outros.

O sucesso do livro abriu-lhe as portas da prestigiosa Universidade de Paris, a convite do professor francês Alan Touraine. Ao assumir a docência no campus de Nanterre, Fernando Henrique percebera “uma espécie de inquietação burguesa” nos alunos, entediados com as formalidades excessivas da tradicional instituição, além dos rigorosos padrões comportamentais, a exemplo da proibição tanto de fumar quanto de os estudantes homens visitarem os alojamentos universitários das mulheres.

Encontra-se justamente no bojo deste último item trivial acima mencionado o gatilho que disparou o tsunami de maio 1968 em Paris. No olho do furacão, o autor assistiu de camarote toda a evolução dos acontecimentos, com o privilégio ainda de ser professor do líder da revolta, Daniel Marc Cohn-Bendit, apelidado de “Danny, o vermelho” (hoje com 75 anos).

De acordo com Fernando Henrique, ao comparecer ao campus a fim de inaugurar uma piscina, o ministro dos Esportes da França se viu cercado por estudantes que reivindicavam a revogação da proibição de visitarem o dormitório das universitárias. O ministro, na galhofa, respondeu que talvez eles “pudessem mergulhar na piscina para acalmar o ardor sexual”. Indignado com a colocação, Daniel Cohn-Bendit chamou-o de “nazista”. Aberta uma investigação para apurar a ofensa, os discentes reagiram com um ato de apoio. A tempestade perfeita estava formada. “Nessa época, era proibido proibir; a pauta do momento era sexo, drogas e rock’n’roll”, contextualizou.

De volta ao Brasil, paixão pela democracia e o Cebrap

Na capital francesa, o bisneto de Felicíssimo Cardoso conviveu com os pensadores mais renomados daquela quadra, como o historiador britânico Eric Hobsbawm. Participou também do círculo de refugiados brasileiros, no qual deve ter recebido a informação de um suposto “esmorecimento da ditadura”. Diante da chance de seu reingresso aos quadros da USP, da revogação de sua prisão e, por último, da saudade do Brasil, FHC decidiu fazer as malas e regressar com a família ao país meses antes da edição do draconiano AI-5.

A análise equivocada da conjuntura brasileira não ocorrera apenas nessa ocasião. Nos primeiros dias de Chile, quando ainda morava em uma república, FHC rememora o diálogo estabelecido entre o jornalista Samuel Wainer e o economista Celso Furtado: “Não se preocupe, disse [Celso Furtado]. ‘A ditadura vai durar no máximo dois anos’. Wainer encarou Celso, indignado. ‘Não existe a menor possibilidade de os militares ficarem no poder tanto tempo!’ Eu assenti, externando firmemente a mesma opinião. Nossos cálculos estavam errados em quase duas décadas.” (No livro “Modelo Político Brasileiro”, Fernando Henrique faz a crítica da ideia de Celso Furtado de que o país não cresceria devido ao regime autoritário.)

Fernando Henrique, Raúl Prebisch, José Serra e Aníbal Santa Cruz | Foto: Reprodução

Após mais de quatro anos degustando o “amargo caviar”, Fernando Henrique desembarca no Brasil com a percepção de ter carregado na bagagem o vírus das barricadas parisienses. Isso porque semanas depois de reassumir a docência assistiu pela janela de sua sala no segundo andar da Faculdade de Filosofia uma verdadeira batalha campal entre os alunos da USP e do Mackenzie em plena Rua Maria Antônia.

O clima de aguda polarização ideológica motivava jovens idealistas a caírem na clandestinidade e abraçarem a opção pela luta armada. Desde o início, FHC percebeu que essa forma de enfrentamento apenas justificaria o recrudescimento do regime autoritário. Incorrendo no mesmo erro de 1935, ano da “Intentona Comunista”, “os guerrilheiros tentavam fazer uma revolução proletária sem o proletariado”. Para ele, o melhor caminho era a resistência civil, afinal “minha paixão era a democracia”.

Guindado à condição de símbolo da luta contra a ditadura pela comunidade universitária, por ser um dos primeiros exilados a regressar, o autor ouviu pelo rádio sua aposentadoria, em abril de 1969. Na realidade 70 “professores militantes” sofreram as mesmas consequências, todos de alguma forma vinculados ao “seminário Marx”. A despeito da amarga medida, os militares temperaram-na com um ingrediente bem peculiar à cultura política brasileira: concederam-lhes o direito a uma pensão proporcional ao tempo trabalhado e a permanência no país.

Convidado mais uma vez para lecionar na França, FHC recusou enfrentar um segundo exílio. Embora manietado pelas restrições em vigor, buscou canalizar, secundado por outros intelectuais, sua resistência civil no esforço pela criação e estruturação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Nesse sentido, aceitou o valioso apoio financeiro da Fundação Ford, que, ao mesmo tempo, afastou o seu mestre Florestan Fernandes. Eis sua explicação sobre o instituto: “Essa fundação produziria estudos sociológicos e econômicos, mas o objetivo político continuava sendo apoiar a democracia”.

Florestan Fernandes e FHC: sociólogos| Foto: Reprodução

Uma das pesquisas realizadas pelo Cebrap que talvez melhor possa ilustrar a perspectiva esposada, até pelo sucesso editorial alcançado, encontra-se no livro “São Paulo 1975: Crescimento e Pobreza”. Prefaciada pelo cardeal Paulo Evaristo Arns, a obra, em apertada síntese, intentava ressaltar que o crescimento econômico do país privilegiava apenas a elite rica, enquanto a maioria da população perdia renda e não usufruía de serviços públicos de qualidade.

Aliança com o PMDB e uma visita à Cidade de Goiás

As eleições parlamentares de 1974 ajudaram a aproximar o Cebrap do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) de Ulysses Guimarães, única legenda oposicionista, tanto que o instituto formulou a atualização do programa partidário, o que certamente contribuiu para o relativo êxito da agremiação no sufrágio. Quiçá, a mais consagradora vitória do MDB tenha sido a de Orestes Quércia para o Senado por São Paulo. Aliás, chama a atenção do leitor atento a completa ausência de Quércia do livro. Assim como a palavra, o silêncio também merece ser devidamente interpretado.

Como sinal de advertência, uma bomba foi lançada contra a sede do Cebrap — sem maiores consequências por ser à noite — e, em seguida, todos os seus colaboradores foram intimados a prestar depoimento na delegacia onde funcionava a temida Operação Bandeirantes (Oban). O que FHC vivenciou naquela repartição pública não deixou boas recordações: “Nunca tive estômago para voltar lá.”

“Mudança já!” é a epígrafe do sétimo capítulo da autobiografia. Esse título retrata adequadamente o sentimento que passa a dominar o espírito de Fernando Henrique após empreender uma viagem ao Estado de Goiás, curiosamente a terra de seus antepassados. A sincera percepção que desborda da narrativa é a de que a rápida porém sentimental permanência no torrão natal dos ancestrais representou no seu íntimo uma espécie de “rito de passagem”, no melhor sentido antropológico. Em outras palavras, seria como se, a partir daquele exato momento, FHC tivesse assumido um compromisso sagrado com o avô Joaquim Inácio Cardoso ou pactuado uma missão de fé com o bisavô Felicíssimo Cardoso no sentido de ajudar a empurrar a história do país rumo à democratização de corpo e alma.

Albert Hirschman, professor de Princeton, e Fernando Henrique | Foto: Reprodução

Eis o roteiro da viagem. Em meados da década de 1970, acompanhado do sofisticado catedrático e economista de Princeton Albert Hirschman (autor do livro “A Retórica da Intransigência — Perversidade, Futilidade, Ameaça), FHC participou, em Brasília, de uma tensa reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Tensa em decorrência dos comentários acerca de sua iminente detenção, o que não se confirmou na sequência. À noite, jantaram com Severo Gomes, o rebelde ministro do governo do presidente e general Ernesto Geisel.

No dia seguinte, o casal Cardoso resolveu apresentar ao amigo Albert Hirschman e sua mulher Sarah os encantos da antiga capital de Goiás — desde 2001 declarada patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. A arquitetura colonial do centro histórico da cidade, fundada pelo bandeirante Anhanguera no século 18, tem sua melhor representação no Palácio Condes do Arcos (por engano, chamado pelo autor de “Palácio dos Remédios”), onde, aliás, repousa uma fotografia de Felicíssimo Cardoso, bisavô do anfitrião, mostrada aos visitantes estrangeiros.

Da Cidade de Goiás, os quatro seguiram para a fazenda de um primo de FHC, localizada no município de Jaraguá (GO). Ao chegarem na propriedade rural, diante da frugalidade da sede, Albert Hirschman e Sarah aparentemente não se sentiram muito confortáveis. No entanto, tudo mudou quando Albert achou um exemplar da “New York Review of Books”. Folheando a revista, como alguém que acaba de descobrir “água no meio do deserto”, Albert ouviu a seguinte explicação do primo de Fernando Henrique, vestido rigorosamente como um peão e falando casualmente em um impecável inglês: “Acabei de chegar da União Soviética, e comprei isto no aeroporto em Nova York. Mas realmente não está entre as melhores edições recentes”. Ato contínuo, frisou ser diplomata em Moscou, travando um diálogo com Sarah num “russo perfeitamente fluente”.

A já engraçada cena torna-se mais hilária ainda ante a reação dos protagonistas: “Albert parecia a ponto de desmaiar. O sorriso do meu primo escancarou”. Como não poderia deixar de ser, a descontração dominou o ambiente a partir de então. Observando de longe a espontaneidade de Albert, que brincava como uma criança, FHC refletiu: “Eu tinha esquecido o quanto o Brasil é um país diversificado. Quantos séculos não tínhamos atravessado nas últimas 48 horas? Pelos menos três.” Em seguida, assinalou: “Naquela noite, voltei para Brasília com novos projetos. Albert e eu conversávamos animadamente sobre as maravilhas do Brasil, tentando entender as chances da democracia e da mudança. Dessa vez, de volta para casa, eu nem sequer me perdi no caminho.”

Fernando Henrique e Franco Montoro, de quem foi suplente de senador | Foto: Reprodução

Terra do futuro e o país de hoje

Os projetos não demoraram a aparecer. A candidatura ao Senado em 1978 foi o primeiro deles. Arrostados vários obstáculos, inclusive anulada a suspensão de seus direitos políticos, atingiu uma expressiva votação, ficando na primeira suplência do senador Franco Montoro. Nessa sua primeira candidatura, recebeu o apoio do Sindicato dos Metalúrgicos, cujo presidente Luís Inácio da Silva (Lula) chamou-o de “reserva moral” do país.

Assumiu quatro anos mais tarde a cadeira de senador, ante a vitória de Franco Montoro para governador de São Paulo. Ainda em 1982, FHC recebeu convite de Robert Bellah, da Universidade da Califórnia, para ocupar a vaga do respeitado filósofo alemão JürgenHabermas. Parodiando o estilo do ministro dos Esportes da França, respondeu: “Fico lisonjeado. Mas só poderei aceitar sua oferta se também me garantir um assento no Senado americano. Caso contrário, terei de recusar, pois estou para me tornar senador no Brasil”.

Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva: em campanha em São Bernardo | Foto: Reprodução

Dessa vez, o gracejo não movimentou placas tectônicas como em 1968, arrancando apenas leves sorrisos dos professores. Entrando de vez para a política, mergulhando no “ofício de família”, Fernando Henrique Cardoso encerra assim sua autobiografia: “Espero que meus atos tenham sido de natureza a orgulhar meus pais e avós, pois lutei por realizar o seu sonho: o de que um Cardoso deixasse o Brasil um pouco mais perto de se tornar não apenas a terra do futuro, mas o país de hoje”.

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG).

Uma resposta para “Goiás como rito de passagem na trajetória política de Fernando Henrique Cardoso   ”

  1. Agenor Mariano disse:

    Resenha de altíssimo nível que premia o leitor e engrandece o jornal que à publicou

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