Eugênio Giovenardi: o silêncio de um homem entre ruídos

O escritor enveredou pelas florestas obscuras do inconsciente e trouxe à luz a história de seres díspares criados à nossa imagem e semelhança

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

O escritor Eugênio Giovenardi milita no verso e na prosa com a desenvoltura de quem sabe o caminho das pedras, em sua caminhada pelo mundo e pelos insondáveis mistérios da metafísica. Mas o seu forte, pelo visto, é o gênero em que melhor se acomoda dentro da linguagem: o romance de ficção, no qual já publicou seis títulos dos vinte e quatro que constam de sua bibliografia.

Seu penúltimo trabalho nesse gênero saiu em meados de 2011, e se intitula “Silêncio”. É um romance que, pela proposta de conceitos e desmembramentos de significados, pode ser perfeitamente incluído naquela lista de obras ousadas e bem-sucedidas, embora de assimilação não muito fácil. O volume, de 198 páginas, em formato 14 X 21, traz capa de Thiago Sarandy e editoração eletrônica de Cláudia Gomes, com acabamento bem cuidado da Thesaurus Editora, e está disponível nas boas casas do ramo e também na Internet.

Todo autor almeja escrever um livro perfeito, mas poucos o conseguem. A tarefa é árdua e espinhosa, por iniciar-se além do mundo real e materializar-se no plano consciente e palpável da natureza humana. Mas Eugênio Giovenardi, nesse caso, busca alcançar a proeza do intento com bons resultados. Embora não tenha conseguido de todo livrar-se de referências autobiográficas, contidas, aliás, em seus romances anteriores, neste livro da maturidade o autor de “As Pedras de Roma” enveredou pelas florestas obscuras do inconsciente e trouxe à luz a história de seres díspares criados à nossa imagem e semelhança; portanto, personagens de carne e osso — em toda a sua extensão física e psicológica. Com exceção de Lídice, que surge como um anjo e, como tal, desaparece, para no fim da narrativa juntar-se ao protagonista, mas que em momento algum se entrega ao jogo ou controle de seu criador.

A ação se passa em Brasília e arredores, em cenários físicos e extrafísicos, em que Pedro de Montemor é personagem principal e narrador. E ele, com frases curtas e domínio vocabular, descreve a experiência vivida e, até certo ponto, compartilhada, em “flashes” ou lampejos de consciência. São angústias e desassossegos a incomodar a visão de um ser atormentado pelas conquistas do progresso em contraste com os recuos de gestão numa administração arcaica, cada vez mais inapta e incompetente. E isso se dá no coração de uma das mais modernas cidades do mundo, ao lado, naturalmente, da insistência de tenebrosos fantasmas a perseguir o trajeto de quem já caminha meio de lado, devido ao peso excessivo de um viver entre as lembranças do passado e as incertezas do futuro. E mais: Pedro de Montemor busca nos mistérios da própria vida uma certeza para seus questionamentos e, como faz com os personagens do romance, nos instiga a acreditar num mundo paralelo situado bem na rota de suas descrenças ou perquirições. Parece-nos cansado de eufemismos e metáforas. Ao contrário de Hamlet, para ele o silêncio é o limite.

Eugênio Giovenardi: escritor | Foto: Divulgação

Na construção do romance, segundo palavras do próprio autor, combinam-se episódios verídicos e ficcionais. Ao redor deles, o silêncio fala de maneira intemporal. “O cérebro, envolto pelo silêncio interior e exterior, fabrica associações intermináveis, superpostas e contrastantes de fatos, palavras, gestos, atos e pensamentos, expectativas e desejos produzidos no passado, memorizados no presente e lançados ao futuro.” O silêncio é desordenado. As vozes interiores se atropelam e nem sempre respeitam a ordem e a sequência de sua origem. “A liberdade do silêncio libera o inconsciente e exacerba o consciente.” Toda essa história pessoal é personificada e projetada nos indivíduos e grupos que intermitentemente formam os laços da convivência social.

Eugênio Giovenardi, além de escritor, é também sociólogo e sabe que a vida se situa mais dentro da visão de um Guimarães Rosa que de qualquer outro. E que os perigos são numerosos, principalmente para aqueles que trazem, desde sempre, as marcas de uma formação baseada nos princípios da fraternidade entre os homens, da liberdade inalienável do indivíduo, da igualdade de todos os seres humanos e — mais forte que tudo — do respeito a todos os seres vivos. E isso parece bastante, mesmo quando colocado de maneira não muito marcada nos entremeios de uma narrativa ficcional pouco linear. De forma insistente e quase obsessiva, o silêncio — que para Montemor é um fim em si mesmo — atravessa as páginas do livro, sem deixar vestígios.

Biografia de Eugênio Giovenardi

Nasceu em Casca (RS), em 28 de junho de 1934. Diplomado em Filosofia e em Sociologia. Veio para Brasília em 1972. Professor universitário, consultor da Organização Internacional do Trabalho. Teve livro traduzido para o espanhol e para o finlandês. Filiado ao Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, colabora em periódicos. Também já foi premiado em concurso literário. Pertence à Associação Nacional de Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. E tem participação em “Todas as Gerações — O Conto Brasiliense Contemporâneo”, de 2006, que teve a organização de Ronaldo Cagiano.

Bibliografia

“Os Filhos do Cardeal – O Homem Proibido”, 1997;

“Versos Irregulares”, 1998;

“Em Nome do Sangue”, 2002;

“Ventos da Alma”, 2003;

“Os Pobres do Campo”, 2003;

“Solitários no Paraíso”, 2004;

“O Retorno das Águas”, 2005;

“A Saga de Um Sítio”, 2007;

“As Pedras de Roma”, 2009;

“Heliodora”, 2010;

“Silêncio”, 2011;

“As Árvores Falam”, 2012;

“O Último Pedestre”, 2013;

“Sutilezas do Cotidiano”, 2013;

“Ecologia – Catecismo da Austeridade ou Nova Forma de Prosperidade”, 2013;

“Anarquismo Literário”, 2014;

“Ecossociologia”, 2016;

“Relicário”, 2016;

“Uma Obra em Verde”, 2016;

“Reencontro – O que Aprendi da Natureza”, 2017;

“Aldebarã e Eu”, 2018;

“A Velhice do Tempo – O Tempo da Velhice”, 2020;

“Cartas da Prisão”, 2020;

“Ecossociologia – Relações Homem/Natureza”, 2021.

João Carlos Taveira é poeta, ensaísta e crítico, com vários livros publicados. Tem poemas traduzidos para o espanhol, o italiano, o romeno, o inglês, o alemão e o russo. É colaborador do Jornal Opção.

3 respostas para “Eugênio Giovenardi: o silêncio de um homem entre ruídos”

  1. Taveira, gostei da frase “A liberdade do silêncio libera o inconsciente e exacerba o consciente.”
    Além disso, sua crítica sempre é interessante.
    Parabéns, mais uma vez!

  2. Avatar Angela Maria de Menezes Delgado disse:

    Por que meu comentário não foi publicado ?!

  3. Avatar Raquel Naveira disse:

    Parabéns a João Carlos Taveira pela crítica ao romance de Eugênio Giovenardi. É mesmo na solidão e no silêncio que são geradas as grandes obras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.