Eu tento mas a desesperança não morre

A nova legislação dizia bem assim: que cada família se virasse e tomasse tento dos seus doentes mentais, ao invés de atirá-los à clausura, ao abandono, ao esquecimento de um hospício cujos corredores tinham um cheiro de fezes mesclado ao eucalipto dos desinfetantes”

Eberth Vêncio
Especial para o Jornal Opção

cul1Ninguém dá crédito a um louco, senão outro louco, o psiquiatra ou uma árvore. Se o maluco em questão for uma pessoa idosa, então, pior ainda: vai jogar palavras ao vento até que a própria brisa dele se amofine e pare de assoprar. Porque, no que tange ao solidário aparato à senectude, quanto mais atrasada uma nação, mais profunda será a amizade entre velhos, gatos e cápsulas de rivotril.

Mesmo habituado a ouvir tantas histórias fantásticas, o doutor Jivago por muito pouco não urina no avental branquinho de tanto rir do honesto e condoído comentário de Lara Lara, uma de suas mais peculiares pacientes, que ele conhecera durante a Marcha das Vazias, ocasião em que ambos estavam ali para registrar, fotografar o comportamento das gentes, inclusive das periguetes que sacolejavam os quadris até o assoalho de um caminhão-pipa do Corpo de Bombeiros. Por mais paradoxal que pudesse parecer, aquele rebolado sexy e siliconado ao som da versão techno-axé de Carmina Burana metia um fogo danado na multidão. Ora, não importa o conteúdo: o povo quer mais é se divertir. Como diria Caetano Veloso, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

Querendo se matar de vez em quando, o doutor Jivago trombou cliques com a septuagenária Lara Lara, uma frágil criaturinha esquizofrênica que se tornou sua paciente à primeira vista e, logo cedo, no dia seguinte, já perfilava entre os enjeitados no ambulatório do Manicômio Público Mens Sana, que seria demolido pela Prefeitura, a área desinfetada, desafetada, e vendida a toque de caixa para que um consórcio de empresários amigos do prefeito nela espetassem cinco torres de cinquenta andares cada uma, sendo cinco apartamentos por andar com sacada na varanda. Assim como a escalada da violência e dos alpinistas, o progresso e a propina não paravam de avançar.

A nova legislação dizia bem assim: que cada família se virasse e tomasse tento dos seus doentes mentais, ao invés de atirá-los à clausura, ao abandono, ao esquecimento de um hospício cujos corredores tinham um cheiro de fezes mesclado ao eucalipto dos desinfetantes. O que a lei não previa, contudo, é que uma leva de mentecaptos seria despejada pelos familiares nas ruas das cidades — como se faz aos cachorros que adoecem gravemente, e não se tem coragem para exterminá-los — as quais andavam povoadas de lunáticos de uma roupa só e um sem número de histórias, como era o caso de Lara Lara, uma senhora miudinha, simpática, risonha, com vestido de chita, batom vermelho da cor de sangue, e que fazia lembrar Cora Coralina.

Enquanto fotografava alucinações dentro do consultório com a sua lata vazia de extrato de tomates Elefante, Lara Lara provia a anamnese do doutor Jivago com respostas pesadas, embora um tanto inconsistentes, como a própria vida, diga-se de passagem. Segue a última consulta entre ambos:

— Qual a sua idade, Lara Lara?

— Ninguém gosta de ouvir o “com quem será que ela vai casar”.

— Onde você mora?

— Moro onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro, e eu me sinto bem.

Como plagiasse os versos de um samba antigo para responder, o experimentado doutor Jivago percebeu que, além de demente, Lara Lara tinha boa cultura e ótimo senso de humor, o que fazia dela um ser humano dos mais fascinantes.

— Você ouve vozes, Lara Lara? Com que frequência?

— Eu não sou surda, doutor.

— E o que essas vozes lhe dizem, Lara Lara?

— Mãos calejadas também fazem carinho.

— Não entendo. O que isso significa?

— Eu envelheci, mas o amor continua aqui dentro, novinho em folha.

— E isso não é uma coisa boa, Lara Lara?

— Nem mesmo os micróbios querem me comer, senhor.

— Não brinque. Não faça um melodrama. Isto só se aplicaria às criaturas ruins, malvadas, aos celerados varridos para baixo de sete palmos de chão. Você, não. Você está bem viva e me parece uma pessoa boa, Lara Lara.

— Eu tento, mas a desesperança nunca morre, doutor.

— Cadê a sua família? Você é casada? Você tem filhos, Lara Lara?
(Silêncio. Pausa para mais fotos.)

— Você ouviu a minha pergunta, Lara Lara?

— Já disse que não sou surda, doutor.

Uma vez que, obviamente, nenhum dos dois padecesse de distúrbios auditivos, ouviram-se lá fora os roncos dos tratores manobrando sobre o jardim. A histérica demolição do prédio histórico começaria antes mesmo do almoço. Que todos os ocupantes, fossem eles doidos ou normais, evacuassem imediatamente o prédio. E sem melodramas, por favor.

Eberth Vêncio é escritor e médico.

 

via Revista Bula

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Allan Barreto

É Eugène Ionesco.