Em nova edição, clássica coletânea de contos de Flaubert é uma preciosidade literária

Crítica está certa ao postular que a obra do escritor francês escapa ao rótulo realista. Contos mostram Flaubert deliciado com o fantástico

Ricardo Silva

Especial para o Jornal Opção

O fim do século 19 foi um período difícil para Gustave Flaubert (1821-1880 — viveu 58 anos).  Por volta de 1875, o escritor encontrava-se exaurido pelas demandas do seu ambicioso projeto narrativo “Bouvard e Pécuchet” e por problemas familiares e financeiros. Conhecido por sua meticulosidade nas pesquisas para suas obras, Flaubert estava sendo esmagado pelas leituras preliminares daquele que seria seu último grande romance.

Em décadas anteriores, o hoje clássico autor francês colecionava decepções com suas empreitadas literárias: o escândalo e o processo por “Madame Bovary”, as brancas nuvens, tanto de crítica quanto de público, pelas quais passaram títulos como “Salammbô” e “A Educação Sentimental”, além do fracasso retumbante de “Tentação de Santo Antônio” e suas peças que foram um desastre sem tamanho.

Somado a isso, o escritor estava perdendo seus amigos mais próximos e sua vida financeira estava em frangalhos. À beira de um colapso nervoso e vendo-se questionar se “ainda sabia escrever uma frase”, Flaubert é convidado por seu amigo Pouchet para passar um tempo de descanso em Concarneau, no literal bretão. É nesse contexto que nasce “Três Contos”, que ganha, pela Editora 34, uma nova e bem cuidada edição. A tradução é de Milton Hatoum e de Samuel Titan Jr.

A primeira história a ter seus contornos delineados foi “A Legenda de São Julião Hospitaleiro”. Tal qual Virginia Woolf, Flaubert buscou, durante o seu período de repouso na casa do amigo, escrever para descansar da escrita. Começou apenas com o intuito de se “ocupar com alguma coisa”, mas uma história engatou-se na outra e o remédio mental do escritor mostrou-se bem-sucedido: mesmo antes de terminar o primeiro conto, ele já estava às voltas com um segundo, que recebeu, na coletânea, o título de “Um coração simples”; e não demorou muito para surgir “Herodíade”, o conto que fecharia a tríade que compõem “Três Contos”.

Ao contrário de seus colegas de ofício que se ocupavam da escrita de contos e precisavam produzir de forma vertiginosa para atender ao curto prazo das revistas, Gustave Flaubert trabalhou ao longo de um ano e meio nas suas três narrativas curtas. Suas cartas indicavam o quanto o escritor estava entusiasmado com a elaboração dos contos, fazendo-o afirmar, muito ciente do material que estava produzindo, “que a prosa francesa pode chegar a uma beleza de que mal se faz ideia”.

Flaubert não estava errado. Saindo em dois jornais nos primeiros meses de 1877, as três histórias viraram um volume em novembro do mesmo sob o título do que hoje é considerado uma das obras-primas da literatura do século 19. O sucesso de “Três Contos” deve ter sido alentador para Flaubert. O americano Henry James viu na obra “um elemento de perfeição”, o francês Edmond de Goncourt rasgou-se em elogios e o russo Ivan Turguêniev em pessoa ocupou-se da tradução para o russo de duas das três histórias. Não é para menos, pois a clássica coletânea de Flaubert é uma preciosidade literária.

Gustave Flaubert: “A prosa francesa pode chegar a uma beleza de que mal se faz ideia”

Deslocadas por grandes espaços temporais e por uma aparente distância temática, já que são três histórias profundamente enraizadas nos seus protagonistas e esses habitam núcleos sociais e filosóficos distintos, os contos de Flaubert, contudo, guardam semelhanças singulares. São três histórias sobre a manifestação da fé, do fortalecimento da espiritualidade e da transformação de meros mortais em santos e profetas.

“Um coração simples”, narrativa de abertura de “Três Contos”, é a única história contemporânea do autor e acompanha meio século da vilipendiada vida de Félicité, serviçal humilde e abnegada, dona de uma inocência quase absurda, que leva sua vida de forma pacata e recolhida. A ingenuidade mística da protagonista enreda o leitor na contação de Flaubert, que é cadenciada e que se evapora à medida que vamos nos aprofundando na coleção de derrotas de Félicité, que as encara resignadamente e as camufla com sua inocência pudica e infantil.

Neste conto, Flaubert elabora cores sublimes num pêndulo narrativo que ora cede espaço para o narrador e ora permite que a protagonista exponha sua psicologia mais interna por si só. Toda a construção episódica do conto se encaixa formando um quadro maior de elevação e espiritualização da personagem sem que a escrita caia para uma caracterização pobre ou rasa. O equilíbrio e sobriedade da prosa de Flaubert conferem à este relato de vida simples a beleza de uma narrativa sem moralismos, mas que não perde a oportunidade de inserir na história os poderes místicos da fé.

Já na hagiografia contida em “A Legenda de São Julião Hospitaleiro”, situada na Idade Média, Flaubert utiliza-se somente do corpo estrutural da narrativa católica ortodoxa que conhecia desde a infância — no último parágrafo, o escritor dá um indicativo de sua relação com a história a dizer que a contou “mais ou menos como se encontra num vitral de igreja da minha terra”. Na tinta flaubertiana, a história do santo parricida adota camadas maiores de complexidade e os caminhos de Julião tornam-se ainda mais tortuosos, assumindo um tom fatalista e incontornável.

Por sua crueldade e sede de sangue, o caçador Julião é confrontado com uma dura profecia que recebe aos moldes da mitologia bíblica da jumenta falante do profeta Balaão, e, para escapar dela, empreende em fuga até, depois de inúmeras reviravoltas, dar-se em casamento com uma filha de nobres, donos de vastos patrimônios. Julião relata para sua esposa os seus medos mais internos e ela lhe acalma, dizendo-lhe que não há mais, depois de tanto tempo, razões para se preocupar. No entanto, por uma virada do destino, a fatalidade prescrita pela profecia se realiza e Julião entra em estado de desgraça, vagando como pedinte e vivendo uma vida mulamba. É, então, que a graça divina, em misteriosos e enigmáticos termos, se revela à Julião e eleva-o aos céus.

O conto se elabora sob o signo do místico, e ele inteiro é atravessado pelo enigma, desembocando, assim como em “Um coração simples”, na elevação e na transcendência que revela ao pobre mortal as resplandecências da luz divina.

Fechando a trinca narrativa flaubertiana, “Três Contos” se encerra com “Herodíade”, conto que precisou ser domado por Flaubert para que não virasse, conforme ele mesmo relata, um volumoso romance de trezentas páginas. Nessa história, o episódio bíblico da execução de João Batista é retomado com tons conflitivos, expondo um jogo de poder no seio do império romano. Gustave Flaubert pesquisou um vasto material historiográfico para a composição dessa narrativa — como também fizera na escrita das outras duas —, e esse esmero de pesquisa exemplifica-se na erudição utilizada como ferramenta de concisão, resultando num conto cristalino, de frases perfeitas e prosa madura.

É um exercício desnecessário buscar adiantar em detalhes os elementos das tramas de cada conto — podem atrapalhar a experiência do leitor —, pois a riqueza da leitura está em explorar a poderosa prosa de Flaubert. Na orelha da nova edição, a crítica Leyla Perrone-Moisés afirma que a história literária, com seus procedimentos reducionistas, é imprecisa ao prender Flaubert sob o rótulo de realista. “Três Contos”, última obra concluída do escritor francês — que morreria três anos depois ainda compondo o inconcluso “Bouvard e Pécuchet” —, mostra o porquê disso: nesta obra, que tem a irretocável tradução a quatro mãos de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr., o leitor encontra um Flaubert maravilhado com o fantástico, um autor disposto a mergulhar no infinito enigma do Mistério Divino.

Ricardo Silva é pesquisador nas áreas de Filosofia e Literatura, crítico literário e colaborador do Jornal Opção.

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