Em livro bilíngüe, escritora goiana despe-se, “lambe as palavras” e faz “ménage” com a literatura

As mulheres em Claudia Machado configuram arquétipos de Medeia, Helena, Maria Madalena, Frida, Bartira, Janaína, Iemanjá, Carmem, Anaïs Nin, Leocádia e dezenas de outras que “se apresentam” com outros nomes 

Escritora goiana Claudia Machado escreve livro bilíngue ­

Nilson Jaime
Especial para o Jornal Opção

Ao escrever a edição bilíngue português-Italiano de seu “Livro do Depois” – “Quel Che Vien Dopo” – (Editora Kelps, 2015, 215 páginas), a escritora goiana Claudia Machado faz uma travessia literária. Claudia, que é psicanalista e membro do Núcleo Freudiano de Psicanálise em Goiânia, foi um pouco Drummond e um pouco Cora em seus seis livros anteriores. Assim a define o psicanalista e linguista Cris Martins, no “Prefazio” do livro: “filha do amor de Drum­mond por Cora Coralina”. Drum­mond, porque todo mundo quer ser o poeta mineiro. E também porque a mineirice ancestral dessa inquieta escritora, cujos avós migraram de Formiga para Palmeiras de Goiás – onde a poetisa nasceu, em 1972 – se manifesta em sua poesia, ora contida, ora telúrica, recheada de elementos da terra e das gentes de Minas e de Goiás. Sua linguagem “forte, de ferro”, com lírica drummondeana, remete à influência do poeta de Itabira. Cora, porque de fato ela tem um pouco de Coralina, ao cantar em suas poesias as coisas do cotidiano de sua infância, as reminiscências das ruas, do largo e da mangueira de sua Palmeiras natal. Foi assim em seu livro “Bor­dados e tantas outras costuras” (2011), onde Claudia ajunta coisas do dia-a-dia – como a Maria Grampinho de Cora – e transforma tudo em boa poesia.

Qual a poetisa vila-boense, Cláudia Machado cruzou seu Paranaíba particular com este livro. Antes, precisou mergulhar no universo infantil de “A invenção do João” (2015) – igualmente bilíngue com a lín­gua de Dante – um mundo Carrolliano com fadas, cavalhadinhas e carrosseis. Ao emergir, ganham vida as muitas facetas da autora: Romana Rosa, Nilta Sapucaia, Arminda Cruz Alta, Maria da Concepção, Dorotéa Amado, Rosa Entremeios, Jacinta Cruz Alta, Tereza Amanheceres, Jandira, Walkiria e uma anônima, “Donna senza nome, la mama” que, ao contrário de Zuzu Angel, do universo buarqueano, se resigna com a morte dos três filhos no célebre caso dos “mata-sete”, ocorrido em Palmeiras, 1966. Assim, as mulheres em Claudia configuram arquétipos de Medeia, Helena, Maria Madalena, Frida, Bartira, Janaína, Iemanjá, Carmem, Anaïs Nin, Leocádia e dezenas de outras que “se apresentam” com outros nomes, mas todas Cláudia Machado: “Estar só? Impossível. Há tantas em mim” (in: “Becos”, p. 60).

Todas essas personagens foram interpretadas no palco por atrizes psicanalistas durante o lançamento do livro, no Palácio das Esmeraldas, ocorrido em setembro de 2015. Depois foi destaque internacional, durante o Art Film Festival, em Asolo, Itália (outubro de 2015) ao ter esses poemas interpretados, juntamente com poemas de Cora Coralina, no Teatro Duse. Na ocasião, Claudia foi a homenageada no Pre-Festival, com o “Café Coreto”, nos mesmos moldes da atração principal. A talentosa escritora goiana primeiro saltou o rio de Santa Rita do Paranaíba. Por fim, o Oceano Atlântico.

Uma das “alter ego” da autora – Dora Machado –, em “Porque Portugal existe” diz coisas que faria corar a Cláudia “coralina”: “O Tejo penetra-me como homem faceiro. / Estou causada. / Em febres. / Parindo a palavra próxima daquilo que enterro” (p. 41). Ainda, “La carne trema, Gemiti il parto, La delizia, La ebbrezza, La follia, Il disaggio”. Dora evoca tanto a cosmogonia afro: “Iemanjá à porta do mar em fúria de tempestade / E aquele touro branco a impingir-me / Desejos de parição. / Aceito. / Beijo a boca do poema / Com languidez” (In: Fúria, p. 45); quanto os deuses do mar: “O mar penetra-me. / En­trego o que não possuo. / Antes, quero.” … e, ain­da; “Eu sei: os seios me contam. / A­brem-se: flores na brisa fresca. / Deito: Quero. / Ardo” (Oceano. p. 46).

As muitas mulheres que habitam Claudia se sucedem com Romana Rosa: “Calejei a língua para ensiná-la as distâncias / Entre o corpo / E a transcendência” (Sinais, p. 64). Nilta Sapucaia faria companhia a Bernar­do em seus Ermos e Gerais: “Será que foi a manga com leite de ontem à noite? Eu sabia. Essa misturera não pode. O estômago tá embrulhando. O cheiro de pinga me mata. Capaiz que foi a manga mesmo” (“As saias de Nilta e a sapucaia”, p. 74). E a mãe anônima de Palmeiras, com suas mandingas e encantos, dá a tônica da mitologia afro – à Jorge Amado – na obra da autora: “Senhor de Oyó. Pai dos justiceiros, hoje e sempre. Kaô meu pai, faça valer a justiça. Empresta-me a força do guerreiro” (in: “1967”, p. 103).

Às vezes a autora se permite ser ela mesma. Nesse momento, revela-se a fragilidade da menina de dez anos que decidiu ser escritora: “Gosto de encostar-me à vida usando palavras. / Gosto de sentir a palavra: abrandar, invadir-me”. Mesmo em sua própria pele, revela amadurecimento, manifesta em forma de Eu-Lírico: “Gaia deita-se com Uranus e o mundo cria-se” […]. “Ao entardecer fui parida” (Cama, p. 65). E os devaneios ancestrais da autora, na terra “conquistada” pelos filhos de Tibiriçá – o maioral, cujos descendentes mamelucos deixaram o planalto de Piratininga para domar o planalto Central – se evidencia com “Guaraci, a lua, a vida e as palavras”: “Guaraci emudeceu. / Ficou entalada em silêncios / E encantada de lua. / Guaraci virou poema vadio” (p. 108).

Mas a nova Claudia tem uma recaída para enaltecer a amiga palmeirense Co­mary Perillo (a autora diz ser trigêmea com a simpática senhorinha de 103 anos e sua irmã Cory, já falecida) na poesia proseada “Mistério”. Nesse momento a poetisa volta a ser Cora, para reverenciar a anciã de Itaberaí que viveu e cantou Palmeiras em seu silêncio, com toda a intensidade: “Eu vi: o tempo não passa. Eu vi: não há envelhecer. Eu vi: há uma mulher, seus amores, a vida e a morte. Há uma mulher e os limites do corpo”. […]. “Acreditem: a casa resistiu e também essa mulher que ainda faz viver, em segredo, toda a cidade” (p. 124). Comary viu ser edificada a casa de 97 anos – a mais antiga da antiga Mataúna – em que reside. Comary é a Cora do velho povoado habitado por Jonas, “o Alemão”. Cláudia Machado, sua irmã gêmea.

O livro é entrecortado por frases esparsas que desnudam a cosmovisão de Claudia sobre seu novo universo: “As coisas são como gente: gemem”. “Faço livros como quem morre”. “Escrever é arear consequências”. “O mar invadiu-me… engravidei do poe­ma”. “Envelhecer é aceitar dizer: a­mém!”. Poderiam ser chavões, não fossem inéditos, pessoais e reveladores da poetisa que ousou mergulhar e ressurgir, qual Fênix, tantas vezes quanto necessário.

Em “Solitude”, a essência da maturidade da autora: “Ménage a Trois? / A quatre, / A cinq. / E, por que não? / Com as tantas mulheres? / Sim. / A cama nunca está vazia. / Todas / E nenhuma / Em meus cantos” (p. 137). Para quem “usa as palavras para lamber a vida”, não há lugar para exclusividade, para a monogamia criativa. Afinal, como dito, “escrever é arear consequências”. Com um estilo direto, pungente, conciso, a escritora doma as palavras e seus significados. Após a travessia, Claudia Machado ousa ser tantas, para ser ela mesma. Para ser única!

Nilson Jaime, mestre e doutor em agronomia, membro das Academias de Letras de Palmeiras (Apla) e de Pirenópolis (Aplam), é colaborador do Jornal Opção.

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Marcia Marina da Silva

Uma emoçao iniqualável ler seu artigo sobre a escritora Claudia Machado! Fica uma questão que a psicanálise sempre diz: quem leu e quem foi lido? Acho que voce foi lido e soube dizer muito bem de tudo isso que é universal para todos os homens! Parabens Nilson Jaime! Bela reportagem!

ADALBERTO DE QUEIROZ

Fiquei interessado na poesia de Cláudia Machado, ainda mais pela edição bilingue.

ADALBERTO DE QUEIROZ

Faltou dizer que o artigo do professor Doutor Nilson é um primor.

Nilson Gomes Jaime

Sua avalição muito me engrandece, Adalberto de Queiroz. Repasso os méritos à Claudia Machado, que fez um livro muito bom. Obrigado.