Em homenagem a Cassiano Nunes

Organização de obra do poeta paulista morto em 2007, prevista para sair em cinco volumes, é fundamental para que sua produção esteja ao alcance não só do leitor comum como de professores e pesquisadores

Cassiano Nunes (1921-2007): autor de uma vasta bibliografia, poeta só foi publicar seu primeiro livro de poemas, “Prisioneiro do Arco-Íris”, aos 41 anos de idade

Adelto Gonçaves 
Especial para o Jornal Opção

Primeiro de uma série de cinco volumes, “Poesia – Obra Reunida” (Brasília: Universidade de Brasí­lia/Thesaurus Editora, 2015), de Cas­siano Nunes (1921-2007), reúne livros esgotados e poemas inéditos do poeta, ensaísta, conferencista e an­tigo professor de Literatura Brasileira da Universidade de Bra­sília (UnB), à qual consagrou 25 anos (1966-1991) de dedicação e amor pelas letras, formando gerações de mestres e doutores.

Sem herdeiros, o professor doou à UnB não só a sua extensa biblioteca como muitos manuscritos que hoje formam o acervo do Espaço Cassiano Nunes, que fica na Biblio­teca Central no Campus Univer­si­tário Darcy Ribeiro daquela instituição. Talvez os cinco volumes previstos não sejam suficientes para abrigar uma vasta produção que inclui muitas conferências em universidades do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos, bem como uma obra que consta de mais de uma centena de títulos, muitos dos quais aguardam reedição, além de textos inéditos.

Esse trabalho é fundamental porque só assim a produção teórica, além da obra poética, ficará ao alcance não só do leitor comum como dos professores e pesquisadores que, com certeza, haverão de incluí-la nos programas universitários. Dessa tarefa, foi incumbida a professora Maria de Jesus Evangelista, nomeada pelo reitor da UnB como curadora do Espaço Cassiano Nunes, amiga de longa data do colega de trabalho, que neste primeiro volume reuniu cinco livros já publicados – “Prisioneiro do Arco-Íris” (1962), “Jornada” (1972), “Madrugada” (1975), “Jor­na­da Lírica” (1984) e “Poesia II” (1998) – e , além de peças inéditas e reflexões breves chamadas pelo autor de “Grafitos nas Nuvens” (1995), que foram publicadas no diário “Correio Braziliense”.

Este primeiro volume encerra-se com “Poemas traduzidos” (1998) para o inglês, que trazem uma apresentação (“Seven Sides to Cassiano Nunes”) do professor Danilo Lôbo, que, aliás, foi quem saudou o poeta por ocasião da outorga do título de Doutor Honoris Causa que lhe fez a UnB em 2002.

Poesia despojada
Como bem observa na introdução que escreveu para este livro o poeta e ensaísta Anderson Braga Hor­ta, a poesia de Cassiano Nunes é despojada, com uma “linguagem bem cuidada, mas nada de excessos de palavras, de preciosismos linguísticos, de complicações formais, enfim”. Mais: “não metrificada, mas musical, com apurado senso de ritmo.”

Primeiro volume reúne livros esgotados e poemas inéditos de Cassiano Nunes: poeta, ensaísta, conferencista e professor de literatura brasileira

Além disso, é uma poesia madura, sem arroubos juvenis, pois não se conhece até agora a produção do poeta em seus verdes anos, que talvez ainda resida no acervo que legou à UnB. Até porque o poeta demorou muito para mostrar os frutos do seu ofício: só com 41 anos de idade publicou o seu primeiro livro de poemas, “Prisioneiro do Arco-Íris”.

É neste livro, no poema “Canto do prisioneiro”, que o poeta mostra sua ligação à cidade de Santos, que seria uma marca de sua poesia: “Felizes são os marinheiros/ que partem sem dizer adeus, e em cada porto de escala/ renovam o mistério do amor/ (…) Só eu não parto… Prisioneiro do arco-íris/ como quem num presídio abafa/ e expressa a sua ânsia construindo/ um navio dentro de uma garrafa!”

Do livro “Madrugada”, é no poema “Sou de Santos” que ele faz referência a outro poeta santista, Ribeiro Couto (1898-1963), de geração anterior: “Nasci perto do mar/ como Ribeiro Couto./ Como ele, cantei/ o cais do Paquetá,/ cheio de marinheiros,/ estrangeiros,/ aventureiros./ Apitos roucos de navios/ me atraíam para outras terras,/ propostas sedutoras./ Corri mundo./ vim parar no Planalto Central/ onde, solitário, entre livros,/ contemplo os últimos anos./ Às vezes, à noite,/me encaminho para o lado do Eixo/ e me detenho ante os terrenos baldios/ (amplidão) da Asa Sul./ Ao longe,/ os guindastes das construções/ sugerem um cenário de cais./ E o vento me traz com o cheiro de sal/ o inútil apelo do mar.”

Vivendo os 40 anos finais de sua vida em Brasília, obviamente, a nova capital federal não deixaria de ficar marcada em sua poesia, pois, andarilho, conhecia praticamente todos os seus meandros, de que é exemplo o poema “Palavras à Cidade Livre hoje Núcleo Bandeirante”: “Há vinte anos, quando aqui cheguei/ no Planalto Central,/ em Brasília, ainda encontrei/ intacta, na tua verdade pioneira,/ na tua realidade rude, mas fecunda: áspera imagem, do “far west” brasileiro, e Cidade Livre!/ Livre! Haverá adjetivo/ com mais oxigênio e glória? (…).”

Forjando o futuro
Filho de um português de escassas letras, para quem “livros não davam dinheiro”, e nascido numa rua do tradicional bairro da Vila Mathias, em Santos, litoral paulista, o futuro poeta e professor Cassiano Nunes Botica, a princípio, não teve como não se vergar à imposição do pai: formou-se técnico de Contabilidade pelo Colégio Santista, instituição católica dirigida pelos Irmãos Maristas, em uma época em que a profissão de contador significava na cidade pelo menos uma carreira na prefeitura local ou em alguma empresa de despachos aduaneiros ou de corretagem de café.

Àquela época, cursar o Colégio Santista era privilégio reservado a famílias que tinham recursos financeiros, o que indica que a de Cassiano não seria de modesta condição.

Foi difícil, mas Cassiano conseguiu escapar do futuro discreto e obscuro que o pai autoritário, como deixou explícito em alguns de seus versos, insistia em lhe apontar, não sem antes passar três anos como datilógrafo de um instituto de aposentadoria para os estivadores, até conseguir um emprego no Office for Inter-American Affairs, ainda em sua cidade natal.

Mas, por conta própria, começou a ler muito, até que se integrou aos meios intelectuais da cidade nos anos de 1940. Foi, então, que encontrou guarida em “A Tribuna”, principal diário da cidade, onde começou a publicar resenhas e críticas de livros.

Nessa década, com os poetas Roldão Mendes Rosa (1924-1988) e Narciso de An­drade (1925-2007), participaria do movimento literário denominado Pesquisista, que reuniria também, entre outros nomes, Miroel Silveira (1914-1988), Cid Silveira (1910-?), Nair Lacerda (1903-1996) e Leonardo Arroyo (1918-1985).

Foi secretário-executivo da Câmara Brasi­leira do Livro a partir de 1947, quando a entidade iniciava suas atividades em prol da difusão do livro no país. Em São Paulo, vivendo sozinho, muitas vezes em modestos hotéis, conseguiu o título de bacharel e licenciado em Letras Anglo-Germânicas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), em 1954 e 1955, respectivamente.

Numa época em que quase não havia no Brasil universidades que oferecessem estudos de pós-graduação, ele obteve bolsa para estudar na Miami University, onde se especializou em Literatura Norte-Americana. Estudou Litera­tura Norte-Americana também na Univer­sidade de Ohio. Depois, novamente com bolsa de estudos, rumou para a Alemanha, onde na Universidade de Heidelberg se aperfeiçoou em Literatura Alemã. Lá deu aulas de Literatura Brasileira.

Há vinte anos, quando aqui cheguei
no Planalto Central,
em Brasília, ainda encontrei
intacta, na tua verdade pioneira,
na tua realidade rude, mas fecunda:
[áspera imagem, do ‘far west’ brasileiro, e Cidade Livre!
Livre! Haverá adjetivo
com mais oxigênio e glória?”

(Cassiano Nunes)

Projetos e obra
Ao retornar para o Brasil com tamanha bagagem, Cassiano tornou-se orientador cultural na Editora Saraiva, de São Paulo. Foi ainda fundador da Biblioteca Pública de São Vicente. Por fim, em 1966, por sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), seu amigo, foi para Brasília, onde ajudou na instalação da UnB. Antes disso, ajudou os professores Antônio Soares Amora (1917-1999) e Antônio Cândido (1918-2017) a fundar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, no Estado de São Paulo, em 1958, e foi ainda professor-visitante na Universidade de Nova York.

Entre os muitos livros que publicou estão “O Lusitanismo de Eça de Queiroz” (1947); “A Evo­lução da Literatura dos Estados Unidos” (1953); “Modernidade de Chaucer” (1954); “Prisioneiro do Arco-Íris” (1962); “A Experiência Brasileira” (1964); “Sedução da Europa” (1968); “Norte-americanos” (1970); “Retrato no Espe­lho” (1971); “O Sonho Brasileiro de Monteiro Lobato” (1979); “A Felicidade Pela Literatura” (1983); “A Atualidade de Monteiro Loba­to” (1984); “Jornada Lírica” (1984); “Poesia – II” (1998); e “Literatura e Vida” (2004), entre outros.

Participou de antologias como “Poemas do Amor Maldito” (1969), com organização de Gasparino Damata e Walmir Ayala; “Antologia dos Poetas de Brasília” (1971); “Brasília na Poesia Brasileira” (1982), com organização de Joanyr de Oliveira; “Poetas de Santos” (1977), com organização de João Christiano Maldonado; “Nem Madeira nem Ferro Podem Fazer Cativo Quem na Aventura Vive” (1986); “Caliandra – Poesia em Brasília” (1995); “Cronistas de Brasília” (1996, v.2), com organização de Aglaia Souza; “Poesia de Brasília” (1998); e “Poemas para Brasília” (2004), com organização de Joanyr de Oliveira, entre outras.

Perfil da organizadora
Organizadora do primeiro volume da obra de Cassiano Nunes, Maria de Jesus Evangelista, professora de Letras da Universi­dade de Brasília, nascida no Piauí, é bacharel em Letras Neoclássicas pela Universidade Federal do Maranhão e doutora pela Université de Toulouse, França.

Com estudos comparativos em Portugal, Maria de Jesus foi professora catedrática na Univer­sidade de Coimbra, onde dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros. Tem publicado ensaios em revistas especializadas no Brasil e no exterior. Recentemente, publicou pela Editora da UnB o livro “Cassiano Nunes – Poesia e Arte”.

Serviço
“Poesia – Obra Reunida, volume 1”, de Cass­iano Nunes, organizada por Maria de Jesus Evan­gelista, com introdução Anderson Braga Horta. Brasília: Thesaurus Editora/Espaço Cassiano Nunes/Biblioteca Central/Universidade de Brasília, 270 págs., 2015. E-mail: [email protected]

Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de “Os Vira-latas da Madrugada” (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo” (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), “Bocage – o Perfil Perdido” (Lisboa, Caminho, 2003), “Tomás Antônio Gonzaga” (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012) e “Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial” (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]

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