Do que falamos quando falamos de amor

Raymond Carver é o autor das minúcias da vida, da violência e dos sentimentos que bombeiam nosso sangue, o criador da atmosfera cotidiana mais próxima da realidade comum, onde lateja a existência por ela mesma

Seus contos falam da vida cotidiana, em lares destruídos pela violência, ou em ambientes estáveis, mas atravessados pela temática dos embates banais

Se fôssemos dividir o amor em categorias, talvez encontrássemos apenas duas delas, distinções absolutas como água e vinho: o amor de que se fala e o amor que sente. Neste caso, o vinho, obviamente, é o amor falado, entusiasmado, como se um deus discursasse pelo amante.

A água, que atravessa barreiras antes intransponíveis, capaz de se espalhar e ocupar todos os cantos, que toma a forma do ser amado, é o amor que se sente, ao mesmo tempo transparente em si mesmo, mas sem jamais deixar-se expressar em palavras, porque aí, já seria literatura, o amor de que se fala. O que se sente é inefável, e no máximo, quando quer dizer alguma coisa, fala por gestos.

Cada um sente o amor que pode. E cada um é seu único interlocutor capaz de compreendê-lo como tal. Na literatura, cada um fala do amor de um jeito, da maneira que sua linguagem consegue articular, e os leitores compreendem a seu modo.

O livro de contos “What We Talk About When We Talk About Love” (“Do Que Falamos Quando Falamos de Amor”), do escritor americano Raymond Carver (1938-1988), é um exemplo cabal da forma literária da figura amorosa, mas é ao mesmo tempo o modo mais fecundo e mergulhado no que se poderia pensar sobre o amor sentido.

Essa capacidade de puxar duas frentes sobre os sentimentos humanos, trazendo o abstrato para o mais perto possível do concreto, é que fez de Carver um dos mais lidos e admirados autores de short stories do final do século 20, e que até hoje causa inquietação nos leitores. Faz isso pela simplicidade no modo de dizer e pela complexidade da coisa dita.

Trunfo
“Do Que Falamos Quando Falamos de Amor” intitula um conto e um livro inteiro de Carver, que traz 17 histórias diversas sobre as coisas que ocorrem entre as pessoas no dia a dia. Sua capacidade de armar uma trama banal – dentro da qual fala-se algo de interesse comum, que também parece banal, mas que no fim das contas sustenta a prosa como uma pilastra seria capaz de sustentar uma estrutura inteira – é o trunfo de sua obra.

A mancha verbal do texto, lendo-a em sua totalidade, deixa no leitor a nítida impressão de que o que vale não é o que está escrito, mas o vazio entre as coisas ditas, o espectro silencioso de algo que está além das palavras, como o amor que se sente, cujo sentido é intrínseco e profundo, tecido no interior das células, forjado em cada uma delas ao modo de ser do ser que ama.

Impulso
Seus contos falam da vida cotidiana, das relações familiares em lares destruídos pela violência de algum modo, ou em ambientes estáveis, mas atravessados pela temática dos embates banais. Neste sentido, Carver vê o amor como uma relação de conflito. Quando fala de amor, fala do homem que espanca a mulher, tenta tocar fogo na casa e vai embora, para mais tarde voltar e pedir perdão, como em “A Serious Talk” (“Um Papo Sério”, tradução livre).

No conto “I Could See the Smallest Things” (“Eu Podia Ver as Menores Coisas”), uma mulher supostamente de meia idade deixa o marido na cama dormindo e vai ao quintal altas horas da noite, de camisola. Lá, ela conversa com o vizinho sobre lesmas. Depois volta para a cama e tira a camisola para dormir ao lado do marido. Só isso, mas o que não foi dito – o que ficou por dizer – é uma vida inteira.

É como se dentro da narrativa houvesse uma mensagem dizendo que o amor não está nas palavras. O amor está encarnado nos gestos e na atmosfera dos laços afetivos, não nas palavras. O que você encontra nelas, quando vê algo apaixonante, é literatura.

A história mais importante desta coletânea, a mais expressiva, talvez seja o próprio conto que empresta o título do livro. Como de praxe na construção do autor, traz uma trama simples, mas contundente. Dois casais de amigos estão na casa de um deles (Mel e Terri). A conversa começa numa tarde agradável de sombra e vento fresco.

Estão bebendo. Os diálogos atravessam o ambiente da casa e se cruzam entre falas e movimentos de corpo para encher o copo, bebericar, ou sinalizar com mãos e braços, sorrisos, algum tipo complementar de raciocínio.

No meio da conversa, Mel começa a falar de amor por alguma razão. Quem está narrando é o outro amigo, Nick (marido da Laura). Terri entra no assunto e diz que seu ex-marido batia nela enquanto dizia que a amava. Mel diz que aquilo não é amor. Terri insiste que do jeito dele (do ex-marido) aquilo é amor, sim.

Veja como Terri defende o sentimento que impulsiona a violência do ex. E de certo modo, em um jogo contraditório de retórica, Terri está defendendo a tese de que só quem ama pode falar de seu próprio amor, e ninguém saberá se é verdadeiro ou não, porque quando ouve, cada um interpreta como quiser.

Claro-escuro
Mel, por sua vez, fala sobre o amor que teve pela ex-mulher também, mas diz que depois a esqueceu e agora ama Terri. E aí entra a sagacidade do autor por meio de Mel, que apresenta um tipo de amor que é ao mesmo tempo físico, porque pode morrer dentro da gente, e ao mesmo tempo abstrato, porque pode permanecer na memória.

Mel defende a ideia de um amor físico que harmoniza, que não cria nem crise nem conflito, e que busca o outro pelo interesse que tem em vê-lo do lado, em senti-lo com as mãos, com os olhos, com o corpo inteiro. Ele cita o caso de um casal de velhinhos vítima de um acidente de carro. No hospital, o velho não consegue ver a velha, e sofre por isso.

Tudo que o velho queria era ver a velha, mesmo de longe, para se sentir bem. “O tipo de amor de que estou falando é. O tipo de amor de que estou falando, você não tenta matar as pessoas”, diz Mel, numa sintaxe própria do cotidiano, linguagem que Carver usa como quem respira. Eis a ambiguidade instalada: amor que não machuca, amor que machuca.

Faz 30 anos que Carver morreu, e 80 que havia nascido. No espaço das cinco décadas que viveu, superou uma trajetória miserável em meio ao álcool, do pai e dele mesmo, para experimentar a glória nos últimos anos de vida.

Ler seus contos ainda é como catar gravetos numa floresta espessa de grandes árvores no fim da tarde. É uma sensação estranha no cômputo da leitura. Do que falamos quando falamos de amor? Falamos de tudo e de nada. Quando o sol estava se pondo, Mel e Terri saíram para jantar com o casal amigo, e a vida seguiu seu rumo, ampla em seu claro-escuro. l

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