Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

O Natal e os poetas de Deus

Grandes representantes da inspiração divina mostram ao mundo que “o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor”

T. S. Eliot (1888-1965), autor de um ensaio que compila ideias valiosas para esta quadra da celebração do Advento de Jesus, e sobre o que tornou Virgílio “singularmente simpático à mentalidade cristã”

Em seu livro “De Poesia e Poetas” (Brasiliense, 1991, tradução de Ivan Junqueira), o crítico T.S. Eliot nos apresenta o ensaio “Virgílio e o Mundo Cristão”, que compila ideias valiosas para esta quadra da celebração do Advento de Jesus – o Natal –, sobretudo a estima que o poeta romano angariou e que o tornou “singularmente simpático à mentalidade cristã”. Seu foco inicial é a famosa quarta Écloga:

“Terá a vida dos deuses o menino, que os verá
no meio dos heróis, e será visto em meio a eles,
regendo com as virtudes de seu pai um mundo em paz.”

Este “querido rebento dos deuses, grande descendente de Júpiter” é “aquele que receberá o dom da vida divina, verá os heróis” – poderia apenas ser uma profecia do nascimento do próprio Cristo, acreditamos os Cristãos, desde Santo Agostinho.

Então, o que se passa com um poema que por acidente, por mal-entendido ou por um notável engano, se torna uma peça predileta da lírica Cristã ou, mais ainda, da lírica do Ocidente?

A resposta erudita de Eliot leva-nos a crer que, embora tendo dedicado o poema a um filho de seu amigo, o cônsul Pollio, Virgílio seja considerado um “poeta-Profeta” do nascimento de Jesus de Nazaré, como o pensaram os padres da Igreja – como Cecilio Lactâncio e Santo Agostinho; e por poetas da estatura de Victor Hugo e Dante.

Homem de grande cultura, Virgílio Marão era também “muito bem informado sobre folclore e antiguidades, tendo conhecimento das religiões e da linguagem figurada do Oriente, o que seria em si o bastante para explicar qualquer sugestão da profecia hebraica” – assegura-nos Eliot:

“Virgílio fez da civilização romana algo melhor do que ela realmente era. Sua sensibilidade está mais próxima da sensibilidade cristã do que a de um cristão primitivo, talvez, mas daquela de um cristianismo à época em que podemos dizer que a civilização cristã se instaurou…”

Palavras-chave

Bem, finalmente, “quais são as características que tornaram Virgílio tão simpático à mentalidade cristã?” As palavras-chave de Virgílio, anotadas por Eliot da leitura feita de Theodor Haecker, são: labor, pietas e fatum (trabalho, piedade e destino).

A primeira ordena o convento. Daí se deriva o princípio cristão (e monástico) do “Ora et labora” (trabalho e oração) como essenciais à vida do homem completo. A segunda (pietas), a Piedade é a virtude por excelência do herói Enéias (na Eneida) – demonstrada no respeito piedoso ao Pai, aos deuses e à sociedade. Não seria exagerado, pois, afirmar que “Eneias é o protótipo do herói cristão, pois é, humildemente, um homem com uma missão, e a missão é tudo”, conclui Eliot.

Finamente, a terceira palavra, fatum (cuja tradução mais próxima seria “destino”), é uma palavra carregada de significado. O que vem a se tornar o Sacro Império Romano é a busca por um governo da cidade que seja ordenado conforme as virtudes cristãs.

E se a “inspiração” de Virgílio o levou a prever algo que está acima do mero versejar (e que versejar, que há tanto tempo resiste!) significa dizer que, talvez, o poeta não soubesse exatamente o que dizia, mas que por isso mesmo permaneceu dois mil anos e meio século depois… por ter, justamente, sido o mais próximo que um homem de sua época foi do mundo cristão “na escolha, na ordem e no relacionamento entre seus valores”, fórmula que nos proporciona dizer, repetindo Franklin de Oliveira, que a civilização cristã se funda em tais valores, garantindo ao poeta “uma possessão órfica, pois o poeta é um homem que possui a dádiva de dominar sua loucura e guiá-la”, como diz Franklin, repetindo Broch (em “A morte de Virgílio”).

O Pai do Ocidente, como o designou Haecker, é o antecessor dos grandes utopistas Morus, Campanella e Bacon, aos quais inclusive precedeu, com o seu sonho de uma “Astas Aurea” (Idade de Ouro) para Humanidade.

Inspiração poética

Os predicados do mundo virgiliano são de certa forma parte das virtudes cristãs que Santo Tomás de Aquino resumiu na sua fórmula insuperável, no século 13, que podem ser resumidos na legenda escolástica: “o Bem, o Belo e o Verdadeiro”, cuja compreensão só pode dar-se no seio da metafísica tomista e que alguns poetas vislumbram como “inspiração” ou “visão”  – a exemplo de São João da Cruz, Santa Teresa D´Ávila, Angelus Silesius e, mais recentemente, Hölderlin, Geoffrey Hill e uma meia-dúzia de outros poetas do Ocidente, entre eles o fundador da língua italiana (Dante Alighieri), que colocou Virgílio “no lugar certo” (cf. Eliot), como guia, professor, modelo exemplar a ser seguido.  Ele, Virgílio, que nos parece o poeta clássico mais próximo do mundo cristão”.

Ora, desde São Bernardo, predecessor de Agostinho, sabemos que “o modo da Caridade [uma das expressões do Amor] é não ter modos”. Desde então, as formas de expressão como um poeta inspirado, são as dos poetas de Deus.  E o “Deus-menino”, visão do Deus Encarnado, transfigura-se no Natal, a maior festa do Ocidente Cristão, sempre de ouvidos na lição de Hölderlin: “non coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est” (“não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”); ou, na sublime teologia do papa Bento XVI (J. Ratzinger)[2]:  os poetas de Deus são aqueles que, por suas obras, mostram ao mundo que “o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Vislumbres

Pessoa, Lima, Vinicius e Tasso: alguns dos poetas de língua portuguesa que vislumbraram a capacidade humana de “deixar-se abarcar pelo mínimo”

Seguem-se quatro amostras em que podemos vislumbrar essa capacidade de “deixar-se abarcar pelo mínimo” nos poemas de Fernando Pessoa & Tasso da Silveira; Vinícius de Moraes e Jorge de Lima. Um Feliz e Santo Natal aos meus seis leitores!

Fernando Pessoa                                      &                                      Tasso da Silveira[3]:

Natal…  Na província neva. FALAR com Deus perdidamente,
Nos lares aconchegados, no misericordioso encontro eucarístico,
Um sentimento conserva na hora da dor incoercível, em que nada [mais me alivia no mundo,
Um sentimento conserva na hora da ansiedade infinita, que nada mais
[enche a minh´alma no mundo,
Coração oposto ao mundo, na hora da serena, ou da profunda alegria,
Como a família é verdade! em que está mais próxima a compreensão gloriosa
Meu pensamento é profundo, do absoluto e do terreno.

 

‘Stou só e sonho saudade […]
E como é branca de graça Andar, andar, sem parar,
A paisagem que não sei, Perpetuamente descobrir
Vista de trás da vidraça a inocência e a beleza
Do lar que nunca terei! Falar perdidamente com Deus…

 

Vinicius de Moraes[4]:

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje, a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

[…]

De Jorge de Lima, Poema de Natal,[v]5
Era um Natal. (E um poema de alegria)

escrito pela mão de quem se iludia
E nele havia as dádivas do dia,
e nele havia sinos acordados;

e havia nele tudo o que se espera
com seus anseios sempre contrariados;
só lhe faltava o que ninguém sabia
porque ficara n’alma que o fizera.

Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação” (2ª. ed., Caminhos, 2017). E-mail: [email protected]

1 Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

2 Introdução ao Cristianismo – cap. 2: “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”. Edições Loyola, 2005.

[3] SILVEIRA, Tasso. “Poemas”, org. e seleção Ildásio Tavares, ABL/Edições GRD. São Paulo, 2003, pág. 104.

[4] De Vinicius de Moraes, poema de Natal:  “Antologia Poética”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.

5 Este poema está em JORGE DE LIMA: Obra completa, ed. J. Aguilar, 1958, p. 982. Veja em Vimeo, outro Poema de Natal, de Jorge de Lima, bem mais ao gosto da Igreja e dos fiéis, pós-Concílio Vaticano II com uma temática mais “social” – poesia falada pela atriz Fernanda Montenegro

 

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A coluna Destarte me proporciona alegria e matéria para meditação todas as semanas. A energia e disciplina do poeta Adalberto é sempre contagiante!

Obrigado, Fabrício Tavares de Moraes. Ter leitores como você só animam o velho cronista a continuar – com energia e disciplina, para o Louvor do Criador.