Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

“A Mulher Obscura”, um romance

Releio um romance de Jorge de Lima: “A Mulher Obscura[i]”. Na verdade, é como se o estivesse lendo pela vez primeira; o mesmo se deu com Henry James, de quem já deixei aqui uma crônica sobre “Os Papéis de Aspern”. O fato é que me propus a ler e reler tudo o que os dois escritores produziram… À suivre

No romancista Jorge de Lima é notável a dimensão vertical da imaginação criadora

Capa da 2a. edição de A mulher obscura (Agir, 1959). Um romance de poeta-cristão e de valor

Releio um romance de Jorge de Lima: “A Mulher Obscura[i]”. Na verdade, é como se o estivesse lendo pela vez primeira; o mesmo se deu com Henry James, de quem já deixei aqui uma crônica sobre “Os Papéis de Aspern”. O fato é que me propus a ler e reler tudo o que os dois escritores produziram…À suivre.

O fato é que muitas vezes um livro que li quando eu ainda era um jovem deixou-me marcas que são confirmadas ou rasuradas agora, na maturidade. Penso em fazer o mesmo com alguns escritores de minha predileção na juventude, como Hermann Hesse, Hermilo, Canetti, Érico, Alaor Barbosa, Thomas Mann  e outros mais que me deram boa ficção ou boa memorialística.

Se hoje possuímos o recurso de acessar estes escritores e suas obras de forma digital, o que havia no passado eram as bibliotecas públicas e de amigos e o acervo que fui formando ao longo dos anos, até chegar “à l´âgé d’une soixantaine d’année” com quase cinco milheiros de livros.

Penso no Fernando, personagem central que em “A Mulher Obscura” nos relata suas memórias da infância e da adolescência. É como se “uma existência de fotografia” se me reabrisse para que eu reentrasse no enredo de uma vida em muito parecida com a minha própria. Ali estão as dúvidas, os acertos, as quedas de um cristão que busca a mulher ideal.

Pode-se dizer que, ao contrário de James, que é quase cem por cento técnica, Jorge de Lima é pura emoção. O que não é de todo um juízo de valor crítico acertado e apropriado, mas uma abordagem sentimental. Se o poeta se expressou com técnicas insuperáveis no cenário da poesia católica do Brasil, não pode o leitor avaliar o mesmo de seus romances.

Entretanto, “A Mulher Obscura” é romance que resiste, embora datado em termos de linguagem. O que resiste ao tempo ali é pertinente às grandes questões humanas: a fé, a dúvida, o desejo, o medo, o amor – os gigantes da alma, que sempre rondam as grandes criações artísticas.

Será o leitor levado a ler não como nos moldes aplicáveis hoje em dia, no romance do século XXI, mais curto, ágil, e disposto à leitura apressada; apesar de mais tomado pelos tecnicismos, as armadilhas, as sutilezas que o leitor se vê em meio a um jogo de armar às vezes de modo desconfortável – ao contrário, deverá ler com vagar, principalmente se for leitor sempre atento às armadilhas do discurso.

No romance de Jorge de Lima o que se exige é a respiração lenta e pausada, a leitura vagarosa e atenta. Desfilam personagens feitos de carne-e-osso, apresentados pelo narrador Fernando, o jovem em busca de si próprio, seu amigo Laécio, sua amada Constança, o padre-mestre Josué, o juiz Crispiniano (ou, pejorativamente, Pim!) e sua esposa Irina, o barbeiro Rui, os ingleses da fábrica, o Mr. Yeats e, sobretudo, sua esposa Hilda (a Sra. Brant) – figura central para entendimento do título do romance.

O núcleo deste romance de Jorge de Lima está centrado na imaginária Vila da Madalena, no sertão nordestino, em algum lugar que pode ser mesmo o da infância do autor (Alagoas),  próximo, pois, da região onde ocorrera o episódio da antropofagia dos Caetés e do bispo Sardinha!

A ação começa com a figura do menino Fernando e do amigo Laécio e sua descoberta do mundo e do universo feminino. A cena do banho das meninas novas e negras do Caípe é notável para os olhos do menino Fernando e do leitor. Esta cena simples, mas dramaticamente bem situada, dá azo a que o leitor pense em uma das muitas referências culturais clássicas no romance de Jorge de Lima.

Falo da cena final do capítulo VI, em que o narrador encontrará a amiga Constança (Constancinha) depois de um tempo distantes ambos da Vila da Madalena, quando o narrador desejava reconhecer na amiga-amada “os traços que tinham sido os meus velhos amigos de infância”, desejava a amiga “transparente para que visse aflorar nos olhos, no sorriso, na mudez e no silêncio da moça as águas do tempo que haviam corrido sem destruí-la”.

A virtude vence a concupiscência: Rembrandt (1647)

Rembrandt retrata o episódio bíblico: Suzana e os velhos, 1647

Mas o narrador se confessa ciumento e como tal, é como no Ulisses de Homero, não tendo no cão fiel maior denúncia do que os latidos e a sua Penélope está ali também costurando à sombra do bosquezinho “de laranjeiras e manacás”; e o ciumento que, ao regressar à casa, é bastante similar ao personagem de Homero, que “espreita se a sua ausência não lhe roubaram os gestos da bem-amadae supera “a indecisão sentimental”, recordando uma passagem bíblica:

“Para me justificar daquela indecisão sentimental que me pagava da canseira de uma recomposição amorosa, eu recordava as palavras da Bíblia [Daniel, 13] quando conta que ficaram grudados ao corpo de Suzana ao se banhar no parque, os óleos e os perfumes de seus servos e os olhos cupidos dos apaixonados velhos que se haviam ocultado atrás das árvores para vê-la. Entretanto, se se restaurasse nela a sua pessoa, sem estes enfeites e estas impurezas, a sua castidade de súbito seria reconhecida”.

Seguindo o conselho de Edwin Muir[ii], pode o leitor procurar desvendar o que o escritor quer (e obtém) como efeito, “ao exteriorizar sua visão peculiar da vida”. No romancista Jorge de Lima, cabe ressaltar, como definido por Murilo Mendes convivem certas características:

“Essa natureza pagã, constantemente sacralizada – e aqui o advérbio se reveste de particular significação – forneceu-lhe o material de um agudo conflito, ao mesmo tempo que lhe apresentou os sinais de sua libertação.  A pessoa, a vida e a obra de Jorge de Lima ilustram essa verdade tantas vezes obliterada – a vocação transcendente do homem. Se Jorge de Lima não tivesse tomado consciência desta grandeza final do nosso destino, não hesito em afirmar que poderia ter sido suicida”.

Não por acaso, o pai do protagonista Fernando é um suicida. O protagonista perdeu a mãe muito cedo e vê se abrir em seu coração uma ferida quase incurável, vendo desenvolver-se a seu lado o drama da existência e de uma busca interior, tornando-se alguém que:

 “…Enfim, desejava, conservando a sua egoística singularidade, pertencer ou diluir-se no universal, e o universal repelia, com todos os direitos que lhe assistiam, esse ser que reconhecia superior ou inferior a ele, ou diferente da maioria das pessoas que o compunham” ; [era aquele que] “num plano leigo procurava uma face que era apenas uma sombra, um momento fugaz que na vida de certas criaturas representa um instante de eternidade”.

Na defesa que o vigário Padre Josué faz do adolescente flagrado em pecado, diante do Juiz, o leitor entende que há mais do que um “Don Juan no moço Fernando”: – Daí, é que você juiz precisa descobrir o anti-donjuan neste adolescente desdenhoso das conquistas puramente carnais, numa louca procura da mulher ideal, através de tantas experiências, de que sairá malogrado até quando Deus o quiser livrar de seus fantasmas”.

Por isso, é de grande valor o “metatexto” de Oscar Mendes nas “orelhas” desta edição, quando diz: Quem leu este romance de Jorge de Lima não deve perder de vista que o autor é poeta, grande poeta, aliás, é poeta cristão. Por isso, há, no seu livro, não um simples jogo de paixões, um drama igual aos demais que se passam todos os dias, mas uma procura ansiosa do mistério do amor e do mistério da vida”.

A cena do vendaval do capítulo XXVI não sem razão é a predileta da maioria dos leitores deste romance, pois “a gente sente a natureza e a criatura identificadas, unidas numa tormenta só” (Mendes), como se o protagonista estivesse refém da força da Natureza: “tenho que continuar parado aqui, entre o meu vendaval interior e o que lá fora explodiu de repente. Procuro um expediente que consiga abafar o meu desespero e também o da natureza”.

E a saída de Fernando é a música. “Bach foi colocado na vitrola. Sendo ele sempre uma polifonia, mesmo quando fica solista, dispunha de infinitas vozes para me acalmar. A ‘Paixão segundo São Mateus’ abafou completamente a tempestade. Vi que a ventania tinha arremessado uma pesada árvore contra o oitão da casa; uma das frondosas canafístulas, provavelmente. Constança! Eu te satisfarei pondo, para teus ouvidos o teu Bach predileto: “Aus Liebe will mein Heiland sterben” [Por amor quer morrer meu Salvador] …”

É com trechos desta cena do romance que deixo meus seis leitores, prometendo voltar aos romances de personagem, resgatando a Isabel Archer de Henry James em outra crônica, além de retornar à prosa de ficção da norte-americana Flannery O´Connor, com os subsídios valiosos que estão disponíveis em artigo do crítico Martim Vasques.

Fique o leitor de romances antigos com a certeza de que “no plano vertical do romance de Jorge de Lima” encontrará o melhor de um “livro de poeta e de poeta cristão, cheio de um admirável simbolismo” (Mendes), livro de um mágico que soube reconhecer que “as mágicas que a Graça do Senhor faz são Poesia”.

[…] “Mas, na ânsia de libertação em que estava, entregaria todas as orquestras do mundo para recuperar os sons perdidos de minha velha caixa de música. Que venha Bach me consolar!
Bach foi colocado na vitrola… Agora, todas as canafístulas, e todos os oitizeiros podem se precipitar sobre esta casa. A voz de Bach é maior. Imensos relâmpagos esverdeados aclaram, de instante a instante, através das vidraças, uma espessa cortina de chuva. A impetuosidade da água abate a fronde das árvores do passeio. Vejo o pau-d´arco mais próximo de minha janela rodopiar angustiado, ser arrancado pelas raízes como um simples arbusto, vir chocar-se contra as janelas, arrebentando-as. Os ramos estão dentro de minha sala, tocam nas estantes, avançam como braços infernais contra os retratos de meus antepassados, e, esmagando-os vão estacar na parede do fundo.
“Na extremidade do grande salão, continuarei contigo Bach, com as tuas vozes numerosas contra as vozes demoníacas! A ‘Paixão Segundo São Mateus’ não me deixa sentir as primeiras agressões da chuva contra o meu rosto. Entretanto, uma ave aflita, arrastada pela ventania, se esbate no teto, de onde corre água. Continuarei a te ouvir, Bach. E, agora, que tudo está consumado, os diabos que me assaltam com os braços da ventania hão de ouvir, mesmo que tudo venha abaixo, hão de ouvir porque eu quero que ouçam, a ‘Es ist volbracht’ [Está feito!]. A vitrola está acionada no botão extremo, e o som pode encher de harmonia um quarteirão. Alguns livros boiam na água que vem do corredor. Folhas de livros voam misturadas com folhas de árvores. Sinhama que dorme num compartimento isolado da casa consegue chegar até onde estou. O caos aqui dentro é completo, mas há, apesar de tudo, uma lâmpada ainda acesa, e há, ainda viva, a vitrola, que repete Bach, vitorioso contra as encantações da ventania. Sinhama consegue atravessar a galhada invasora, chega até minha cadeira: julga-me louco ou febricitante, experimenta a febre em minha fronte:
– Que é que tem, Sinhô? Não estava vendo a chuva dentro de casa? Por que não me chamou?”

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor, entre outros títulos de “O Rio Incontornável” (poemas). Itabuna (BA), Ed. Mondrongo, 2017.

[i] LIMA. Jorge de. “A Mulher Obscura” (romance). Rio de Janeiro, Editora Agir, 2ª. edição, 1959, 266 p.

[ii] MUIR, Edwin. “A Estrutura do Romance”. Tradução Maria da Glória Bordini. Porto Alegre, Editora do Globo, 2ª. edição, 1975. 89 p.

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