Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A graça da amizade

Amigos mais próximos sabem o que representa Jacques Maritain em minha caminhada espiritual, com seu Tomismo renovado e sua experiência de vida exemplar, que não é senão o que todos devemos fazer: seguir o exemplo de Cristo. A conversão de sua esposa Raïssa tem, como a minha, influxos das experiências do Outro e da aceitação da Graça divina. Afinal, como diz um dos personagens do livro de memórias de Raïssa Maritain, “a Graça é a parte de Deus; o desejo da Graça é a minha parte”

De Berson a Bloy, passado por todo o ensino que a Amizade pode conter

Capa do livro de Raïssa Maritain

Devo muito ao livro “As Grandes Amizades[i]”, de autoria de Raïssa Maritain, e o recomendo com entusiasmo, porque sei que pode ser uma descoberta notável para aqueles que conhecem e para os que desconhecem a obra dos Maritain.

Jacques e Raïssa Maritain desempenham o papel de um “casal-farol” da vida intelectual e espiritual francesa, na primeira metade do século XX. Foram alunos do filósofo Henri Bergson, afilhados espirituais do escritor católico Léon Bloy, amigos de Ernest Psichari e de Jean Cocteau, de Charles Péguy e de numerosas outras figuras ilustres da literatura francesa.

Jacques e Raïssa superaram as crenças de sua época, marcada por duas guerras mundiais, pelo positivismo que dominava o ambiente intelectual, e se consagraram à busca da verdade cristã.

O testemunho de Jacques e Raïssa Maritain permanece profético até hoje. Para muitos cristãos que anelam viver uma vida piedosa dedicada ao trabalho da inteligência, o casal Maritain nos ensina que “é necessário que o Amor proceda da Verdade e que o conhecimento frutifique em Amor”.

Aos apóstolos impacientes, tentados pelas estratégias de evangelização massiva, eles lembram que cada alma é única em seu mistério irredutível. Só a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da caridade e o da verdade.

Este casal respondeu positivamente à vocação do sacramento do matrimônio de forma muito particular e cada um se transformou (sem que o brilho de um impusesse sombra sobre o outro) num convite a compartilhar as grandes amizades em seu caminho de santificação da vida.

Há um ensinamento superior na frase simples de Raïssa:

Seule l’amitié spirituelle peut réconcilier l’appel de la charité et celui de la vérité. Il faut que “L’Amour procède de la vérité et que la connaissance fructifie en Amour”.
(Só a amizade espiritual pode reconciliar o chamado da Caridade com o da Verdade. É preciso que o Amor proceda da Verdade e que o conhecimento frutifique em Amor).

Num precioso artigo que vai além do comentário ao livro de Raïssa, o jurista brasileiro Ives Gandra nos brinda com um mini tratado sobre a Amizade[ii], com citações que vão de Aristóteles a Saint-Exupéry, passando por R. R. Tolkien e C. S. Lewis.

Sobre “As Grandes Amizades”, Gandra assinala: “O elemento de aglutinação das grandes amizades decantadas por Raïssa Maritain foi Léon Bloy (1846-1917), com quem ela e seu noivo Jacques Maritain travaram contato durante o processo interior da conversão dos dois. Esse processo, terrível na sua coerência, mas fantástico na sua conclusão, começou pela decepção de ambos com o racionalismo reinante na [Universidade] Sorbonne no começo do século XX, que apresentava aos jovens universitários franceses uma visão de mundo puramente mecanicista e materialista e, portanto, carente de um sentido mais elevado e profundo”.

Os valores cristãos são “o cimento da amizade” que reúne os Maritain a tantas pessoas ilustres da história da literatura francesa, assegura Gandra, que acentua ainda: “As inquietações espirituais são um terreno propício para se lançar raízes de grandes amizades, que crescem como árvores frondosas pela comunhão de valores espirituais e dão flores e frutos de crescimento como pessoas e de serviço real aos demais”.

Poderia parecer anacrônico esta indicação de leitura, numa época em que na bolsa de valores do mundo as ações pertinentes aos ensinamentos de Cristo encontram-se em sensível viés de baixa. Entretanto, creio muito no poder de mudança e sou grato à força dos depoimentos apaixonados (e até aparentemente desesperados), como o de Raïssa neste livro ou em outros livros as confissões de Gustavo Corção, de Thomas Merton, G. K. Chesterton, C. S. Lewis e tantos outros escritores movidos pela fé cristã que insisto com meus seis leitores que abram estes livros.

Cabe notar que foi num cenário parecido que Raïssa Maritain começou a escrever “As grandes amizades”, na década de 1940, em meio à II Guerra Mundial com a sua França invadida e o III Reich em plena expansão:

“6 de julho de 1940 – Não vejo mais diante de mim um futuro neste mundo. Para mim a vida acabou-se, encerrada pela catástrofe que mergulha a França no luto, e com ela o mundo – pelo menos o que na França e no mundo está ligado aos valores humanos e divinos da inteligência livre, da verdadeira liberdade e da Caridade universal. Por muito tempo, talvez para sempre, nossos olhos não avistarão a nossa França bem-amada.
[…]
Sabemos também que através de todas as catástrofes, do desmoronamento dos impérios, das perseguições e do martírio – apesar de tudo, o Bem existe, o Bem se faz, o Bem perdura. Mas a minha vida, a minha vida muito imperfeita, atinge essa idade adulta da alma a que só nos fazem chegar desgraças extremas, pessoais ou não; essa idade em que não há mais vestígio da infância, nem da felicidade de viver. Minha vida chega a esse termo muito menos por causa das provações que sofri pessoalmente, do que por causa da desgraça que desabou sobre a humanidade inteira: porque a justiça está enlutada, porque os aflitos não são nem podem ser consolados, porque os perseguidos não são amparados, porque a verdade de Deus não é dita, e porque de repente o mundo se tornou por demais pequeno e estreito para o espírito, graças à uniformidade da mentira que nele reina e é quase a única a se fazer ouvir.
[…]
Como poderia falar dos que me são caros, dessas amizades a que são em primeiro lugar dedicadas tais recordações, e de uma época em que tudo, mesmo a angústia e o sofrimento, me aparece, em comparação com o momento presente, como um paraíso perdido, sem reviver ao mesmo tempo a minha própria vida, tão intimamente ligada a tudo isso. Nossos amigos fazem parte da nossa vida, e nossa vida explica nossas amizades. Tive, pois, necessidade de falar de nós, e mesmo de mim, e até da minha infância. Espero que compreenderão que agir de outra forma seria tornar impossível o meu propósito”.

Os Maritain: vida em comunhão mútua, ambiente católico e amizades ilustres

Ou como diz na abertura da parte II do livro, intitulada “As Aventuras da Graça”:

“Nova York, 1944. Quando, há exatamente quatro anos, comecei a escrever este livro, foi para fugir ao desespero que nos assaltava a todos, naquele verão inesquecível em que a França e a Europa – talvez o mundo – quase desapareceram.

Ao fazer isso, segui, embora com alguma relutância, um conselho amigo; de fato não me tinha ocorrido até então a ideia de escrever minhas memórias e por isso não sabia que feição dar à minha narrativa. Foi o título que me ocorreu primeiro; ele me orientou e me reconciliou com o empreendimento.

O primeiro volume destas memórias foi acolhido com uma simpatia que eu estava longe de esperar, e proporcionou-me amizades preciosas. Recebi de correspondentes americanos e franceses muitas cartas belas e tocantes… Neste volume das “Aventuras da Graça”, tentei registrar o que me foi dado conhecer da extraordinária floração espiritual que na França precedeu e seguiu a I Guerra Mundial. Nada é mais rico de humanidade e revela melhor os tesouros ocultos de nosso país, do que essas aventuras espirituais e temporais ao mesmo tempo empreendidas por tantas personalidades de valor”.

Uma dessas personalidades é Ernest Psichari, cujas aventuras ocupam o Capítulo V (O Chamado das Armas) do volume que tenho em mãos[iii]. Este soldado, amigo do marido da Autora, foi “desenganado em seu amor não correspondido pela irmã de Jacques, e desesperado pelas experiências amargas que tem a seguir, [Psichari] chega a tentar o suicídio. Acaba decidindo buscar na disciplina militar o meio de colocar ordem em sua vida, como escreverá no ‘O Chamado das Armas’: Somos dos que têm sede de se submeter para se tornarem livres” (o comentário síntese é de Ives Gandra).

A conversão de Ernest Psichari foi para ele e para Jacques Maritain “o estreitamento dos laços fraternos que os uniam desde o tempo de colégio e nos revelou o esplendor das grandezas da Graça num coração magnânimo e simples, numa alma cavalheiresca e livre” (op. cit. p.154). Tendo se alistado para uma batalha na África, lá encontra um ajudante de ordem muçulmano, com quem estabelece vínculos e esse mouro é o que faz surgir a fagulha da conversão no coração do guerreiro Ernest Psichari.

“No limiar das terras novas meu coração como que estava cheio de aurora, e ouvia toda a revoada da vida como um largo bater de asas…
Não se podem admitir ali senão ideias elevadas como as da glória, da virtude, da dignidade…
E ao caminhar para terras que não conhecemos, eis que descobrimos no nosso coração zonas imensas inexploradas.”

E assim, no meio do deserto, com seu jovem amigo mouro (Mohammed Fadel Oued Mohammed Roullam), Ernest Psichari recebe o chamado da Graça: “A Graça, diz, é a parte de Deus; o desejo da Graça é a minha parte”.

Se a Amizade pode levar a alguém a refletir, a melhor reflexão está exemplificada nas confissões do amigo Ernest a Jacques Maritain:

“Quando penso no problema da Fé, nenhuma das dificuldades levantadas na exegese moderna consegue impressionar. As supostas ‘contradições dos sinópticos’ só servem aqueles que estão de antemão, e antes de qualquer exame, decididos a negar o Sobrenatural. Por mais ignorante que eu seja, sinto perfeitamente que por essas tão miseráveis discussões não se poderia chegar a nenhuma convicção, qualquer que fosse. De fato – e toda questão está nisso – trata-se de saber se se deseja um certo fundo moral, um certo reflexo da alma, uma espécie de inocente pureza. Trata-se de saber se se tem ou não gosto pelas coisas do céu, se se deseja viver com os anjos ou com os animais, se se tem vontade de subir, de espiritualizar-se incessantemente. Aí está toda a questão. A qualquer argumento se pode opor um outro argumento e assim surge a vaidade da argumentação. Se não existe, pois, esse desejo de dilatar o próprio coração, nem o gosto pelas coisas de Deus, nenhuma prova poderá ser explanada utilmente, nenhum argumento é eficaz. Mas, se considerarmos essa angústia do cristão, que não é senão o desejo da perfeição; se não se teme o Absoluto, mas, pelo contrário, se sente que o coração é bastante largo para contê-lo; se se tem bastante delicadeza para se desejar alguma coisa mais do que a moral natural –, por mais salutar que seja – , então, não se está longe de dizer como São Paulo aterrado: “Senhor, que quereis que eu faça”.

Só uma grande amizade pode conter uma tal confissão. Só uma amizade baseada no eterno pode levar a conclusões tais como as de Ernest Psichari e de todo os demais amigos que se fazem presente em “As Grandes Amizades”, da Sra. Maritain.

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e Poeta. Autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (Poemas, Edit. Mondrongo, 2017).

[i] O livro está disponível na Estante Virtual: https://d1pkzhm5uq4mnt.cloudfront.net/imagens/capas/426473903e14ad5c89ec565aaf9798f780323c96.jpg

[ii] GANDRA, Ives. Artigo em website, cf. link: https://www.valinor.com.br/8484

[iii] MARITAIN, Raïssa. “As Grandes Amizades”, parte II, Cap. V, pág. 154-177.

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