De como a poesia ronda a alma, leve e suave, como “Gatos”, saltando sem medo do escuro

A obra faz um elogio à sensatez — tão em falta. A beleza do livro começa na capa, onde se vislumbra a sombra de um gato, envolto no que parece ser bruma

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Talvez em nenhum outro momento a poesia se fez tão necessária como nesses tempos de vozes alarmadas e alarmantes. Nos quatro cantos do mundo a vida luta e pulsa clamando pelo direito básico de simplesmente viver.

Penso que podemos tentar aprender com os gatos. À primeira vista, diríamos, “são felinos, possuem garras escondidas que mostram em momentos ameaçadoras” … Sim, as garras dos gatos permanecem escondidas e só se deixam ver quando há ameaça de perigo iminente. Ora, os gatos, contrariando teorias sobre seu jeito de ser e agir, demonizados ou endeusados, são criaturas bastante carinhosas e afetivas. E, é, justamente esse carinho, mostrado de muitas formas e contrariando as que não apreciam tais felinos, que acaricia a alma do dono. E, de tal maneira se sente ele acariciado e reconfortado que procura maneiras ímpares de demonstrar esse amor e gratidão.

É o que fazem o psicanalista William Amorim e a poeta Roseana Murray em seu livro “Gatos” (2019), publicado pela Editora Viegas.

Por que falar de gatos, gente, poesia para crianças, tudo misturado?

Roseana Murray: escritora | Foto: Reprodução

Sabemos que a leveza dos gatos, poeticamente e infantilmente falando, lembra a musicalidade, o ritmo e a leveza da lírica. Gatos, poesia, criança formam um trio inconfundível no quesito brincadeira e infância. Tais quesitos, se bem observados pelo adulto mais sensível, remete a novas maneiras de ver as coisas e o mundo em si, girando o tempo todo sem parar.

O livro “Gatos” faz um elogio à sensatez tão em falta nesses tempos difíceis. A beleza do livro começa já na capa, onde se vislumbra a sombra “impressionante” de um gato, envolto no que parece ser bruma, plantas e pássaros. Ou seja, nesse momento inicial o olhar do leitor é convidado a entrar no mundo desse felino de forma mágica e surreal. A liberdade e a desenvoltura dos gatos são descritas de forma leve e comovente, remetendo ao desejo de liberdade, desejo, procura, tão característicos das pessoas. Criança é, por definição, esse ser, quase anjo/fada, sempre buscando algo.

A poesia de William e Roseana flui, delicadamente, como a alma dos gatos, página a página do livro, tão ricamente ilustrado por Geraldo Frazão. Essa fluidez remete o leitor, adulto ou criança, ao silêncio, à busca, à procura sempre. Versos como os da página 52, por exemplo, perguntam: “Onde mora o mistério dos gatos? No fundo dos olhos ou no emaranhado dos seus descaminhos?”.

A eterna procura de todos nós, iniciada na infância, responderia, com certeza tais questões. Talvez falte ainda ao adulto, recuperar esses traços infantis que deixou se perder pela vida e lhe falte um olhar mais meticuloso/misterioso de gato ou criança. Assim como os gatos, as crianças não temem saltos e mistérios, ao contrário, está sempre a procura deles.

Em tempos de isolamento social e pandemia, fica a dica: leia “Gatos” e tente aprender com eles e com as crianças. O mundo vai melhorar, depois de passar um tempo com a poesia e, quem sabe, com algum gato.

Soninha dos Santos, mestre em literatura, é professora de literatura infanto-juvenil.

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