Dan Brown mostra, em Origem, um mundo em que a religião é substituída pela ciência

Em “Origem” – novo livro de suspense do norte-americano Dan Brown –, um cientista da computação e gênio da tecnologia prenuncia o fim das religiões e sua substituição pela ciência

“Origem” não é um livro apologético da “morte da religião”. Antes, traz o tema à discussão, com o contraponto de ninguém menos que o protagonista do suspense, Robert Langdon

NILSON JAIME
Especial para o Jornal Opção

Uma descoberta revolucionária, capaz de responder às clássicas perguntas “de onde viemos?” e “para onde vamos?”, e com isso desacreditar todas as religiões do mundo, dando lugar à ciência como senhora absoluta das mentes. Esta é a promessa do jovem bilionário Edmund Kirsch – cientista da computação, teórico de jogos e gênio das inovações –, que se tornou conhecido por suas audaciosas previsões e invenções de alta tecnologia, ao estilo de Steve Jobs.

Assim se inicia “Origem” (Edito­ra Arqueiro, 2017, 432 páginas), o novo livro de suspense de Dan Brown que chegou às livrarias do Brasil em 3 de outubro de 2017. Como Kirsch explica ao bispo Antonio Valdespino, íntimo do Rei da Espanha, e prior da Catedral de La Almudena – Madri –, “a teoria dos jogos é um campo da matemática que estuda padrões, com o objetivo de fazer previsões sobre o futuro”.

O local escolhido para anunciar a grande descoberta é o ultramoderno Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha, saudado por ocasião de sua inauguração, em 1997, pela revista “The New Yorker” como “um fantástico navio de sonho, de formas onduladas, sob uma capa de titânio”, obra do arquiteto Frank Gehry. Ali, na construção futurista, um grupo de seletos convidados – entre eles o professor de simbologia de Harvard, Robert Langdon, protagonista de todos os livros de Brown – reúne-se para uma apresentação meticulosamente orquestrada, acompanhada ao vivo por milhões de pessoas em todo o mundo, via internet.

Entretanto, acontece uma tragédia, e a descoberta não é anunciada. Com a impossibilidade de Edmund Kirsch fazer a revelação, cabe ao amigo e ex-professor de Kirsch em Harvard – Langdon – desvendar o mistério e descobrir quem está por trás do desastre, a par de uma fuga desesperada de Bilbao. E o mais importante, elucidar qual foi a descoberta que erradicaria o mito das religiões para sempre. Para isso, conta com a ajuda da jovem e elegante diretora do museu, Ambra Vidal, noiva do príncipe da Espanha. Como em todos os livros do autor, os acontecimentos se sucedem em breve espaço temporal. Neste caso, em 24 horas.

Padrão

Algumas semanas antes da apresentação de Bilbao, as revolucionárias descobertas de Kirsch são compartilhadas em “avant première” com três representantes das mais significativas religiões do mundo ocidental: o catolicismo, o islamismo e o judaísmo. Reunidos na famosa e inacessível Biblioteca de Montserrat, em um antiquíssimo mosteiro na Catalunha, o bispo Valdespino, juntamente com o rabino Yehuda Köves – “filósofo judeu, autor de vários estudos sobre cosmologia cabalista” – e o allamah Syed al-Fadl, “reverenciado erudito muçulmano” assistiram, estupefatos, em primeira mão, às descobertas de Edmund Kirsch. “Isso não vai abalar os alicerces das religiões. Vai destruí-las!”, vaticinou o genial cientista da computação.
Dan Brown é o mais festejado autor de suspense da atualidade, tendo ultrapassado 200 milhões de exemplares vendidos. Seus livros transformam-se em best-seller e são transpostos para o cinema. Foi assim com “Anjos e Demônios”, “Infer­no” e “O Código da Vinci”, este com mais de 80 milhões de exemplares e, transformado em filme, grande sucesso de bilheteria. O autor escreveu também “Ponto de Impacto”, “Fortaleza Digital” e “O Símbolo Perdido”. Suas obras seguem um padrão, sem serem repetitivos.

Alguns elementos estão presentes em todas elas: além do protagonista Robert Langdon, envolve uma companheira de aventura (Sophie, Sienna, Ambra Vidal); a Igreja Ca­tólica; um antípoda da igreja, como o Priorado de Sião ou os Illuminati, precursores de uma “nova ordem mundial”; um famoso museu, que pode ser o do Vaticano, o Louvre ou o Gug­genheim; e grupos fundamentalistas católicos, como a Opus Dei. Não faltam os abnegados da causa, dispostos a ações extremistas pelo bem da igreja, como Silas, do suspense mais famoso.

Comparações

Neste thriller, o almirante Luíz Ávila, da Armada espanhola, que perdera mulher e filho em um atentado terrorista dentro da catedral de Sevilha, abraça a causa da Igreja Palmariana, seita ultraconservadora, dissidente do catolicismo romano, que denuncia sua modernização, após o Concílio II (1962-1965), contando com a ajuda financeira de influentes pessoas, até da cúpula da Igreja de Roma.

Com a perda da família e mergulhado no alcoolismo, o almirante é presa fácil para a Igreja Palmariana e seus sonhos de restauração da velha ordem religiosa. Assim como Silas de “O Código da Vinci”, Ávila dispõe-se a fazer o “trabalho sujo”, ou cuidar dos “efeitos colaterais” para a consecução dos objetivos da causa.

Desde que o filósofo alemão Nietzsche (1844-1900) apregoou a morte de Deus, em “Assim Falou Zaratustra” – “Deus está morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes?” –, a humanidade não se cansa de repetir o fim do “mito” de Deus. Na música, a banda americana Black Sabbath e a norueguesa Gorgoroth (nome que em português significa “Deus está morto”), a irreverente Legião Urbana (“E esse mesmo Deus / foi morto por vocês”) e até os Engenheiros do Havaí (“Não foi a morte de Deus / Que matou a poesia”), libelam a morte do “Eterno”.

Ao se propor a responder às duas perguntas capitais (“de onde viemos?” e “para onde vamos?”), Brown traz à tona a discussão filosófica milenar, que tem suscitado homéricas discussões entre os religiosos, os cientistas criacionistas (sim, eles existem!) e os cientistas evolucionistas, como Richard Dawkins, autor dos panfletários “Deus, um Delírio” e “O Relojoeiro Cego”. Aliás, Ed­mund Kirsch parece ser um híbrido da genialidade vanguardista de Steve Jobs, o magnata das inovações da Apple, com o ateísmo apologista de Dawkins. Ao ler o livro, não dá para não fazer comparações.

William Blake

Mas “Origem” não é um livro apologético da “morte da religião”. Antes, traz o tema à discussão, com o contraponto de ninguém menos que o protagonista do suspense, Robert Langdon. O simbologista da ficção tem posição semelhante à do também professor de Harvard na vida real – e maior biólogo vivo – Edward Wilson (ver Jornal Opção, Edição 2189, 24/06/2017): “Bom, ciência e religião não competem, são duas linhagens diferentes tentando contar a mesma história. Neste mundo há espaço para as duas”, relativiza o professor Langdon ao contestar o ex-aluno Kirsch.

Todas as obras de arte citadas no livro de Brown, assim como arquitetura, locais, conceitos de ciência e organizações religiosas citadas são reais, conforme afiança o autor no pré-texto. Ao ler “Origem”, o leitor toma contato com a obra de Antoni Gaudí (1852-1926), arquiteto da Catalunha – famoso por mesclar religião e natureza com sua arquitetura –, figura de proa do modernismo Catalão.

O professor Langdon e Ambra Vidal vão até a Casa Milà, (construída entre 1906 e 1910, por Gaudí), conhecida como “La Pedrera”, em busca de uma senha de 47 letras, incluída em um poema. Ali, no último andar do famoso edifício de aparência biomórfica, como uma construção tribal africana, e uma das principais atrações de Barcelona, residia Edmund Kirsch.

A senha estaria inscrita em algum livro ou obra de arte da imensa biblioteca de Kirsch, e é a chave para a revelação do grande segredo científico descoberto pelo gênio da inovação. Em sua procura, Langdon vai desfilando uma enormidade de livros sobre artistas de todas as escolas, principalmente impressionistas, cubistas, surrealistas e contemporâneos. Essa busca traduz-se em uma aula de arte para o leitor.

A obra do poeta, tipógrafo e pintor inglês William Blake (1757-1827) transforma-se no alvo da busca do professor de simbologia. Com seu estilo definido como “pintura fantástica”, Blake e seus livros de iluminuras entram no escopo de Langdon, após a dedução de que, assim como Kirsch, Blake era um profeta: “William Blake, pensou Landgon, era o Edmund Kirsch do século XIX”.

Em suas obras, Blake “Enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da igreja anglicana e do Estado”, escreveu o tradutor José Antônio Arantes, no livro “Um Profeta Obscuro e Genial”. Exata­mente como Edmund Kirsch. As pinturas e profecias de Blake são perfeitas para o livro de Brown, repleto de códigos secretos e dicas obscuras em iluminuras. Os escritos de Blake “Todas as Religiões São uma Só” (1788), “Não Existe Religião Ntural” (1788), “América, uma Profecia” (1793) e “Europa, uma Profecia” (1794), tidos como “livros malditos”, são possíveis repositórios do poema que Langdon procura.
A busca leva o casal de protagonistas ao monumental Templo Expiatório da Sagrada Família, expoente da arquitetura modernista catalã – obra-prima de Gaudí –, onde se desenrola parte da história, em meio a suas enormes torres e incomensuráveis figuras repletas de simbologia.

Assassinatos e complôs

Durante todo o tempo, o casal é envolvido em uma trama em que se revezam a Polícia espanhola, membros da Guarda Real, o “palmeriano” almirante Ávila e o “Regente”, figura enigmática que parece comandar todos os acontecimentos, inclusive a tragédia do Museu Gug­genheim. Não faltam assassinatos e complôs de toda ordem para comprometer e desacreditar o professor de Harvard.

 

As analogias com o mundo real incluem também a Conspi­racyNet.com, claramente inspirada na WikiLeaks, organização transnacional sem fins lucrativos, que publica em suas páginas documentos, fotos e informações confidenciais vazadas de empresas e governos. A ConspiracyNet.com cuida de alimentar, durante todo o enredo, as teorias de conspiração, que levam o leitor a inferir que o Regente seria o bispo Antônio Valdespino.

Logo no início do episódio, o protagonista Robert Langdon se depara com um “guia virtual” – William –, que desempenha papel fundamental no enredo. E que levanta questões éticas e conjecturas sobre o papel da inteligência artificial no mundo moderno e no futuro da humanidade. William é na verdade a face audível – através de um iPhone de última geração – do primeiro computador quântico, o E-Wave, desenvolvido por Edmund Kirsch secretamente e que estaria “uma letra à frente” do D-Wave, criado por um consórcio da Nasa com o Google.
Superando o Laboratório de Inteligência Artificial Quântico do Google, que usava o D-Wave para aumentar o aprendizado das máquinas, Kirsch criou o sistema bicameral, que dotou seu supercomputador de inteligência e capacidade de decisão. Esse sistema consistia em “Duas máquinas distintas fundidas em uma só: uma mente bicameral”, como o cérebro humano.
Winston explica a Langdon que a descoberta de Edmund Kirsch sobre a origem da vida, assim como “a rejeição de Pitágoras ao modelo da Terra plana, o heliocentrismo de Copérnico, a teoria da evolução de Darwin e a descoberta da relatividade por Einstein” consistiram em “modelos revisados do universo”. Para Winston, a descoberta de Edmund Kirsch estabelecerá um novo modelo universal, ao responder às perguntas “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”. Pa­ra o supercomputador, as religiões e os mitos da história da humanidade não sobreviverão às descobertas, assim como Osíris, ou os deuses gregos, que desapareceram.
Nesta resenha não seria possível discutir as revelações de Edmund Kirsch sem roubar do leitor o gáudio da descoberta: o sorver do último trago de uma bebida; o prazer ao último quinhão de um delicioso sorvete. Seria como contar o final do filme, ou todo o enredo de um livro. As revelações do gênio das inovações tecnológicas são impactantes e surpreendentes, mas deverão ser lidas, relidas, avaliadas e reavaliadas pelo leitor.

Para responder à primeira pergunta (“de onde vivemos?”), Dan Brown usa conceitos de eletromagnetismo, gravidade e entropia, ou melhor, do Universo Entrópico (a tendência física da natureza a se desorganizar) para revisitar e recriar o experimento de Miller e Urey (Stanley L. Miller e Harold C. Urey da Universidade de Chicago). Este experimento, realizado em 1953, pretendia criar vida a partir da “sopa primordial”, testando a hipótese de Oparin e Haldane, sobre a origem da vida.

À época, o resultado foi um fracasso, com consequente descrédito da ciência e júbilo da religião. Agora, fundamentado em novos conceitos da física, e com tecnologia mais avançada, como os supercomputadores, E­dmund Kirsch refaz o experimento. É com esses resultados que o engenheiro da computação pretende sepultar as religiões e entronizar a ciência.

Questões éticas

A resposta da segunda pergunta é tão perturbadora quanto a conclusão da primeira. Baseado em modelos computacionais avançadíssimos, Edmund Kirsch acelera o experimento e constata o futuro da humanidade (“para onde vamos?”). As previsões chocam os três líderes religiosos mundiais – bispo Valdespino, o rabino Yehuda Köves, o allamah Al-Fadl –, e também a estupefata população mundial, que tudo presenciou, ao vivo, por meio da internet.

A clássica afirmação religiosa de que “viemos de Deus e para Deus vol­taremos” é menos positivista do que a bíblica “tu és pó e ao pó voltarás”, proferida por Jó, um homem de fé. Entretanto, um destino humano que não coincida com o preconizado pelas grandes religiões do mundo, seria suficiente para eliminar a necessidade de Deus na existência humana?
Langdon reflete: “Dados antropológicos mostram que culturas que praticavam religião historicamente viviam mais do que culturas não religiosas”. “O medo de ser julgado por uma divindade onisciente sempre ajuda a inspirar comportamento benévolo”, admitiu o professor de Harvard. O personagem de Dan Brown toma partido – até certo ponto – ante à desesperança que se abateria sobre a humanidade com o fim da religião.

Questões éticas e filosóficas relevantes – “qual o limite para a inteligência artificial e a automação?”; ou, “a humanidade será melhor sem a religião?”; ou, finalmente, “a ciência é suficiente para suprir as necessidades de um homem sem Deus?” – são inferidas pelo personagem Robert Langdon. As informações reveladas por Edmund Kirsch para o experimento capital do livro são surpreendentes e chocantes. O leitor tomará conhecimento delas. Seriam suficientes para destruir a religião?

Nilson Jaime, membro das Academias de Letras de Palmeiras (Apla) e de Pirenópolis (Aplam), é mestre e doutor em agronomia e colaborador do Jornal Opção.

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ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Nilson, parte das respostas que procuramos e suscitadas por sua resenha estão revisitadas por Alberto Oliva neste texto do link, que deixo pra você e seus leitores:
https://www.revistaamalgama.com.br/12/2017/devora-me-ou-decifro-te/

Dido Gonzaga Jaime

Mais uma vez, com vontade de ler o original… O Código da Vinci li entre as 12:00h de um sábado e as 15:00h do domingo seguinte. Record? E Origem, dá pra fazer o mesmo?

wagner

Não é recorde , isto é alienação e pessoa que não tem afirmação da vida ainda.

Felipe

Pior livro do Dan Brown. Esperava muito mais. Gostaria de dar detalhes mas nao é justo com quem não leu.