A crueza de um mundo sem nada

Com espaço bem desenhado e personagens expressivos, narrativa de “Godless” tem intensidade dramática ao mostrar que convívio social é uma necessidade que a violência interrompe

“Godless” se destaca pela produção toda, do roteiro à atuação, incluindo as belas cenas de cavalgadas, com os cavalos levantando respingos d’água entre o sombreamento natural e raios de sol

Poucas séries de TV conseguiram enquadrar a emoção com tanto vigor como “Godless”, uma minissérie de sete episódios produzida pela Netflix em 2017. É um trabalho notável de teledramaturgia. Tudo nela é bem feito. A fotografia, a direção, a atuação, a trilha sonora. O roteiro é o que há de mais primoroso.

A história se passa numa região do Colorado, no Centro-Oeste dos EUA, em 1884, circunscrevendo algumas cidadezinhas esquecidas. La Belle é uma delas, e é o ponto de convergência da ação. Foi lá que houve um acidente na mina, e todos os homens produtivos morreram, deixando mulheres, crianças, velhos e inválidos à mercê do destino.

Alguns roteiristas sabem transitar na narrativa híbrida, entre a literatura e o cinema, sabem jogar melhor o jogo das séries de TV, criando procedimentos metafóricos em que se concentram os significados ora na imagem, ora na palavra. Scott Frank, diretor e roteirista de “Godless”, é um desses sujeitos.

Ele criou um ambiente e um grupo de personagens expressivos, que fazem a narrativa ter intensidade dramática, tensão, alívio no momento certo e recuperação da tensão. Frank sabe focar nos detalhes e abrir o quadro no ritmo adequado para o formato.

Crueza

A história de Scott Frank é um western dramático, ambientada numa época em que saber manejar bem uma arma era tão necessário quanto saber usar o cérebro hoje em dia

Os personagens estão ali cumprindo seus destinos, e eles, os destinos, às vezes doem pela dureza da revelação de seu fim. O primeiro episódio segue uma toada de apresentação detalhada dos personagens. A cena de abertura mostra uma cidade arrasada, Creede, vizinha de La Belle.

Um homem chamado Frank Griffin – e seu bando de pistoleiros – matou os moradores de Creede, um a um, para se vingar de Roy Goode, porque este o traíra e depois fugiu do bando roubando todo o dinheiro do assalto a um trem, executado por Griffin e seus homens. Creede acolheu Goode em suas casas, e por isso, como um Deus furioso, Griffin condenou todas as gerações da cidadezinha à morte, sem piedade.

A história inteira gira em torno desses três elementos. De um lado, as mulheres de La Belle tentam sobreviver sem seus maridos mortos. De outro, Griffin segue matando e roubando os lugares por onde passa. Do terceiro lado, da terceira margem, Roy se recupera – no rancho de uma mulher chamada Alice, afastado da cidade – do tiroteio que trocou com Griffin.

A minissérie nos mostra a crueza de um mundo sem nada, que é La Belle. É um espaço vazio de tudo, sem a presença do Estado, sem médico, sem prefeito (que morreu). Não há autoridades. O xerife está sempre ausente, ora buscando uma cura pagã com os índios, ora falando com o túmulo da mulher morta. Nem pastor tem. As mulheres constroem uma igreja, e uma delas espera a chegada do pastor, ou a chegada de Deus, mas a chegada prestes a ocorrer é a de Griffin.

Sem Deus

Do inglês, “Godless” significa “sem Deus”, menos pela ausência de fé do que pela suspensão do bem e do mal, que fazem menos sentido que a sobrevivência. Frank Griffin (interpretado pelo magnífico Jeff Daniels), por exemplo, faz prece para dormir, e vive citando a Bíblia. Mas quando uma vítima lhe diz “você não é um homem de Deus”, Frank responde:

“Deus? Que Deus! Claramente você não sabe onde está. Olha em volta. Não tem ninguém lá em cima para cuidar de você ou de seus filhos. Aqui é o paraíso do gafanhoto, do lagarto, da cobra. É a terra da faca e do rifle. É uma terra sem Deus.”

Já Roy Goode não deixa transparecer qualquer vestígio de crença (é camusiano, e se espanta de um dia visitar o túmulo do pai e perceber a si mesmo mais velho que o genitor). Ele é um sujeito marcado pela angústia de não saber ler e de não poder evitar a violência que traz consigo. Mas é o cara que vai ajudar as mulheres em La Belle, quando a coisa ficar feia.

Em cada um parece haver uma dor latente, um história ruim para contar, sempre misturada a um laivo de ódio, ressentimento e medo. A solidariedade vem das mulheres. Embora haja discordância entre elas, são elas quem areja a vida desgraçada de La Belle. Aliás, elas são as heroínas de si mesmas nessa história.

Amor e morte

A solidariedade vem das mulheres. Embora haja discordância entre elas, são elas quem areja a vida desgraçada de La Belle. Aliás, elas são heroínas de si mesmas nessa história

O que não falta em “Godless” são personagens interessantes. Mary Agnes é irmã do xerife Bill, acusado de covarde pelas mulheres por estar sempre ausente. Mary é forte, marrenta e sensível ao mesmo tempo. Passou a usar as calças, camisas, chapéu e botas do marido morto (o prefeito).

Quando o irmão a chama de ridícula por causa disso, ela diz: “Você agora deveria usar vestido.” Não desgruda da Winchester por nada, só quando está fazendo amor com Callie Dunne. Esta era prostituta antes do acidente na mina, e depois virou professora infantil, quando a escola fora atingida por um raio que matou a titular.

De todos esses personagens, o mais emblemático é o único jovem que escapou do acidente na mina, por ser ajudante do xerife: Whitey Winn, a figura mais patética e dramática da série, a mais desamparada entre os desamparados. Solitário, órfão, virgem, um branco desgarrado que se apaixona por uma moça negra da comunidade de negros segregados pela força das diferenças.

Whitey é corajoso e cheio de virtude. É honrado e grato ao xerife por tê-lo ensinado a atirar. Quando está aprendendo a viver, o destino lhe crava uma faca no peito, sem piedade. A violência é uma espécie de lençol freático irrigando cada pé de homem daquela terra. Mas o afeto existe. Embora seja como a areia, como a poeira, o afeto existe.

Western dramático

A história de Scott Frank é um western dramático. É ambientada numa época em que as pessoas só recebiam estranhos com uma arma na mão. Saber manejar bem uma arma era tão necessário quanto saber usar o cérebro hoje em dia.

Além das cidadezinhas e ranchos, o cenário é composto por um ambiente de pradaria, uma área imensa de vegetação rala com arbustos e capim, serras e vales, encruzilhadas e estradas desertas. Há também bosques de álamos e abetos. Há belas cenas de cavalgadas, travessia de riachos, com os cavalos levantando respingos d’água entre o sombreamento natural e raios de sol.

Com direção-executiva de Steven Soderbergh, “Godless” é ambientada num período mais ou menos contemporâneo ao da ambientação de “Grande Sertão: Veredas”. A cena da caravana de Frank Griffin andando pelos gerais do Colorado é pura literatura. O Canyon Doubtfull, onde Roy luta com Frank e 32 homens, é o Liso do Suçuarão de Scott Frank. Não me surpreenderia se ele já tivesse lido Rosa, mesmo numa parca tradução em inglês.

“Godless” nos mostra o quanto somos parecidos, de certa forma, olhando por dentro, pelo que temos de sentimento, e da falta dele, pelo que temos de humano. Mostra-nos também que o convívio social é uma necessidade que a violência interrompe. A minissérie é uma espécie de romance de imagem, não uma telenovela, mas um tele-romance.

 

Uma resposta para “A crueza de um mundo sem nada”

  1. Avatar felipe disse:

    parece a casa das 7 mulheres versão oso dos eua

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