Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

“É hora de mais Montoros”: Paulo Mercadante e a nossa tradição conciliatória – Parte 2

Dois artigos de Fernando Henrique Cardoso, um de 2016 e outro de 2017, “As responsabilidades históricas” e “A história ensina”, respectivamente, se contrastados um com o outro, podem fornecer chaves interpretativas sobre o futuro da atual situação crítica do país

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: a pinguela como metáfora

Cláudio Ribeiro

Na primeira parte deste artigo, publicada na edição passada do Jornal Opção, teci alguns comentários sobre o pensamento do historiador Paulo Mercadante (1923-2013), cujo grande trunfo está na análise do processo histórico brasileiro tendo em vista o fenômeno da conciliação, da articulação político-institucional que nossas elites engendram – a partir da absorção de determinadas características herdadas da tradição ibérica – a fim de evitar radicalizações, revoluções e rupturas. Acresci a estes comentários considerações sobre a figura do ex-ministro Nelson Jobim, cujo nome é ventilado nos bastidores de Brasília como um possível candidato à presidência da República, numa eventual eleição indireta, provocada por uma também eventual queda do presidente Michel Temer. Jobim poderia, em tais circunstâncias, ser o grande agente conciliador a quem estará reservada a missão de contornar a crise pela qual passa o país. A necessidade de encontrar uma solução foi destacada por Jobim no evento “Desafios Conjuntos – O Futuro da América La­tina”, realizado na Fundação Ge­túlio Vargas (FVG), na cidade de São Paulo, em 21 de março de 2017, ao qual fiz referência no texto anterior. Neste evento, o ex-ministro pergunta o que podemos fazer, nessa “situação de pinguela que estamos vivendo?”, e responde dizendo que “não se faz política sem se considerar o entorno. E o entorno é o que está aí, e não o que gostaríamos que fosse”.

“Pinguela” sem conserto

Curiosamente, o outro personagem que está sendo aventado, junto a Jobim, como o possível agente conciliador da crise, Fernando Henrique Cardoso, em artigo publicado no dia 4 de junho de 2017, em sua coluna no jornal “El País”, intitulado “As Responsabilidades históricas”, se valeu da mesma metáfora da “pinguela” para comentar a atual situação que estamos atravessando.

Ao falar da postura que o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) deve adotar com relação ao governo Temer, o ex-presidente da República, no referido artigo, diz que “é preciso dar uma oportunidade de reflexão e, quem sabe, de revigoramento, a quem está no governo. O PSDB não apelou ‘ao muro’, mas à prudência de um tempo maior para que todos, colocando interesses partidários e pessoais em segundo plano, possamos responder com desprendimento: o que é melhor para o Brasil? O tempo urge, porém, pois o país exige respostas. Se houver manobras dilatórias no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o PSDB correrá o risco de coonestar o que o povo não quer e a economia não suporta, ajudando o governo a empurrar a situação com a barriga?” Procurando enxergar um horizonte menos plúmbeo, FHC fala de travessia e de “pinguela”: “Não desejo, nem prevejo que seja este o curso dos acontecimentos. Disse no início do atual governo que ele atravessaria uma pinguela, como o governo Itamar atravessou com minha ativa participação. O governo Temer tem feito um esforço, até maior do que se imaginaria possível, para rearranjar uma situação institucional e financeira desoladora, esta sim uma ‘herança maldita’. Apoiei a travessia e espero que a pinguela tenha conserto.”

Bom, e se não tiver conserto? A tal pergunta, FHC também dá a resposta. Prossegue o ex-presidente: “E se as bases institucionais e morais da pinguela ruírem? Então caberá dizer: até aqui cheguei. Daqui não passo. Torçamos para que não sejamos obrigados a tal. Se o formos, e o tempo corre, assumamos nossas responsabilidades históricas com clareza diante do povo e das instituições.” Neste trecho, FHC sinaliza para o perigo da ruptura institucional, o perigo de a “pinguela” não suportar a passagem da travessia. Tal como Jobim, no evento da FGV, FHC apela ao tom conciliatório e reclama, em última instância, a assumirmos nossas “responsabilidades históricas”. Mas que responsabilidades seriam essas, especificamente? O que, para FHC, a história – em especial a história de nós, brava gente brasileira – tem a ensinar? A resposta talvez esteja em outro artigo do próprio Fernando Henrique Cardoso, publicado na mesma coluna do “El País”.

“A história ensina”

Em 7 de agosto de 2016, no calor do processo de impeachment contra a então presidente afastada Dilma Rousseff, FHC publicou no “El País” um artigo intitulado “A história ensina”, o qual tem início com referência a Franco Montoro, que teria feito 100 anos em julho em 2016. FHC toma a figura de Montoro para relembrar o momento complicado da abertura democrática dos anos 1980, e, por conseguinte, a eleição indireta que tornou Tancredo Neves presidente da República, vindo este a falecer antes de tomar posse. FHC, então, relata um episódio ocorrido naquele contexto histórico, envolvendo, além de Montoro, Ulysses Guimarães e Roberto Gusmão. Na ocasião, o ex-presidente era presidente do diretório do Partido do Movi­men­to Democrático Brasileiro (PMDB) e muito próximo a Ulys­ses Guimarães. O velho Ulysses, tendo lido na revista “Veja” uma entrevista com Gusmão, à época chefe da Casa Civil de Montoro – então governador de São Paulo –, em que este dizia que o governo de São Paulo apoiaria Tancredo Neves na disputa do Colégio Eleitoral, perguntou a FHC se aquilo era coisa do Gusmão ou do próprio Montoro. FHC disse a Ulysses que Tancredo seria a melhor opção para uma vitória no Congresso – naturalmente contra Paulo Maluf, candidato pelo Partido Democrático Social (PDS), herdeiro do partido oficial do Regime Militar, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

Ulysses, que cogitava ser o próprio Montoro o candidato pelo PMDB, quis ouvir pessoalmente da boca do então do governador a razão da sua preferência por Tancredo. Assim, um jantar foi organizado e nele compareceram FHC, Montoro, Gusmão e Ulysses. Em meio ao jantar, Ulysses, narra FHC, “não teve dúvidas: chefiou a campanha pela eleição de Tancredo. De fato, eleitoralmente quem poderia concorrer com Tancredo era Montoro, dado o volume de votos de São Paulo, que pesariam em eleições diretas. Tancredo, entretanto, teria vantagens táticas no convencimento de um Colégio Eleitoral composto por congressistas. Realista, Montoro logo propôs o nome mais viável. Ven­cemos.” Este é o exemplo histórico que Fernando Henrique Cardoso trouxe a lume no artigo em que comentava o começo da crise vertiginosa em que nos meteríamos, desde o iminente impeachment de Dilma até o momento presente, com o avançar da Operação Lava Jato. Prossegue FHC, dizendo que “assim atravessamos o Rubicão e fomos, pouco a pouco, reconstruindo a democracia. Escrevo isso não só para valorizar a trajetória política e humana de gigantes como Montoro, Ulysses e Tancredo, mas para fazer paralelo com o presente.” Foi neste ponto que a metáfora da “pinguela” a­pareceu pela primeira vez: “Para o Brasil poder se reconstruir, depois do tsunami lulopetista, ingloriamente culminado com quem talvez menos culpa tenha no cartório, a ainda presidente Dilma, é preciso grandeza. Não nos iludamos: estamos atravessando uma pinguela, a ponte é frágil.”

Procurando ainda ponderar uma possível condenação da chapa Dilma/Temer, pelo TSE, FHC, em “A história ensina”, diz que, aconteça o que acontecer, a Constituição precisa ser respeitada. Isto é, a realização de eleições indiretas para presidente está prevista constitucionalmente. Mas, antes de pensar nisso, FHC recomenda – lembremos, o ex-presidente escrevia este artigo em agosto de 2016 – “fortalecer a pinguela”: “Logo, o que de melhor temos a fazer é fortalecer a pinguela, caso contrário caímos na água; e quem sabe, fortalecida, a pinguela se transforme mesmo em ponte para o futuro. Não é tarefa fácil e não cabem hesitações nem ambições pessoais.” Mas todos sabemos que após as denúncias da holding J & F contra Temer, e do julgamento da chapa já em trânsito o TSE, a “pinguela” não mais está em condições de ser “ponte para o futuro”.

E, então, o que acontecerá? Como Paulo Mercadante analisaria tal cenário se vivo estivesse? Se lido retrospectivamente, como procurei fazer, e em contraste com o outro artigo, “As responsabilidades históricas”, comentado acima, “A história ensina”, sobretudo o seu parágrafo final, se torna sintomático e aponta para algo que pode se desenhar num futuro bem próximo: “Há que aceitar as diferenças e conciliar pontos de vista olhando para o horizonte. É hora de mais Montoros e dos demais gigantes que nos tiraram do autoritarismo e nos levaram à democracia.” Traduzindo: É hora dos mestres da conciliação entrarem em cena.

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