Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

Dramatização de Marcos Fayad traz à tona toda a força metairônica de Daniil Kharms

Ao adaptar “Miniaturas Grotescas” para o teatro, diretor revela potencialidade do escritor russo, e o associa, de forma nem um pouco gratuita, à figura do mestre do Dadaísmo, Marcel Duchamp

Marcos Fayad costura ironia e humor em espetáculo que adapta textos do escritor absurdista russo Daniil Kharms | Foto: Corália Elias / Divulgação

Se foi ousada e notável a adaptação que o diretor de teatro estadunidense Bob Wilson fez, há al­guns anos, do conto “A Velha”, de au­to­ria do russo Daniil Kharms (1905-1942) – pseudônimo de Daniil Ivá­no­vitch Iuvatchóv –, tanto mais notável quanto ousada é a adaptação de dezoito narrativas curtas do mesmo autor, fei­ta pelo diretor goiano Marcos Fayad, que, sob o título “Cerimônia pa­ra personagens estranhos – Mi­ni­aturas grotescas”, estreou em Goiânia, na quarta-feira, 5, no Teatro Sesc Centro.

Digo isto tendo em vista que, ao adaptar para o teatro um único texto literário um tanto mais longo (que é o caso da novela), não há a mesma preocupação central com as transições de cena para cena, com a agilidade e a inventividade que este processo implica. No caso da dramatização de quase vinte narrativas isoladas, esta preocupação torna-se nevrálgica, posto que há a exigência de uma organicidade entre elas. Fayad, dispondo de um elenco de quatro atores, Saulo Dallago, Guerhard Sullivan, Leopoldo Rodri­guez e Edimar Pereira, acerta em cheio no alinhavo entre as historietas, ou “miniaturas grotescas”, do autor.

O fio com o qual Fayad costura as “miniaturas grotescas” é o das tradições de espetáculo irônico e humorístico do clown e do cabaré. O tratamento cênico para cada uma das dezoito narrativas está embebido nessas tradições. O espectador pôde percebê-lo nos figurinos tipicamente de clown (chapéus coco, gravatas e ternos em tons escuros e contornos extravagantes, meias listradas em preto e branco, bengalas, etc.) e nas músicas (em especial, tangos) tipicamente de cenas do estilo cabaré. Assim, mesmo ao espectador que não conhece a literatura de Kharms, bem como àquele que não está muito familiarizado com narrativas fantásticas e absurdas, o espetáculo flui organicamente, com transições ágeis entre as cenas e com atuações bastante expressivas, ritualisticamente desconcertantes e, não raro, cômicas.

“Cerimônia Para Personagens Estranhos” tem como cena de abertura a interpretação da narrativa “Caderno azul N°10” (“Os Sonhos Teus Vão A­ca­bar Contigo”, de Daniil Kharms; Ka­lin­ka, 291 páginas, tradução de Aurora For­noni Bernardini, Daniela Mountia e Moissei Moutian), que conta a história de “um homem ruivo…”, que não tinha o­lhos, nem boca, nariz ou orelhas. Tam­pouco tinha cabelos e o restante das partes do corpo. O que se podia dizer desse homem, então? Como qualificá-lo de ruivo? A história assim termina: “De modo que não está claro de quem estamos falando. Pois o melhor é não falarmos mais dele”. Dessa forma, já de início é perceptível a atmosfera que será paulatinamente construída ao longo do espetáculo. O humor nonsense, carregado de chistes e metáforas, dá a tônica.

Entre as outras narrativas que Fayad incorporou à “Cerimônia…” destaco: “Soneto”, “Agora vou contar como nasci…”, “Havia um homem chamado Kuznetsóv”, “Uma mosca bateu na testa de um senhor…” e “O Baú”. Esta última tem o objeto principal da história, o baú, substituído para uma simples caixa de papelão. Este recurso faz com que a história seja transformada no clímax do espetáculo. Isto porque, no enredo original, um homem entra em um baú, fecha-lhe a tampa e, na medida em que o ar fica exíguo, procura fazer “um experimento”, a um só tempo fisiológico e ontológico, consigo mesmo: quem vencerá a batalha nessa cena de auto-asfixia, a vida ou a morte? Em cena, o ator põe sobre a cabeça a caixa de papelão, e, arfante, interpreta o mesmo texto, ofertando ao público a sensação claustrofóbica que toma conta de todo o teatro. Acredite, é de arrepiar.

Metaironia
A estrutura humorística, de chistes e metáforas, que sobressaltam na obra de Daniil Kharms e impressionam vivamente, com a adaptação de Marcos Fayad, segue a tônica da “tradição da ruptura”, levada a cabo pelas vanguardas artísticas europeias do início do século 20. Kharms pertencia ao grupo da Oberiu – Associação para uma arte real –, atuante na União soviética, que convivia com outras vanguardas russas, como o suprematismo abstrato e o cubofuturismo. Em seu manifesto, há a seguinte afirmação: “Em nossa criação, ampliamos e aprofundamos o sentido do objeto e da palavra, mas de maneira nenhuma o destruímos. Um objeto concreto, livre de sua casca literária e rotineira, torna-se propriedade artística.” Não raro, muitos analistas do que fora produzido pela Oberiu estabelecem relação direta entre seus membros e os artistas do Dadaísmo. A proposta da apropriação artística de objetos concretos e sua consequente “descotidianização”, descrita acima, é idêntica ao ready made de Marcel Duchamp.

O ato de subtrair um mictório de sua funcionalidade cotidiana e banal, dar-lhe uma assinatura (“R. Mutt, 1917”) e expô-lo em uma galeria, como fez Duchamp, é mais que uma simples brincadeira ou um kitsch, é um ato metairônico. O conceito é do poeta e ensaísta Octavio Paz, trabalhado em “Os filhos do barro” (Cosac Naify, 137 páginas, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), quando aborda exatamente a posição de Duchamp nas artes plásticas (e, lateralmente, a de James Joyce, na literatura). Sengundo Paz, a metaironia implica uma “espécie de suspensão do ânimo, um além da afirmação e da negação”, ou da mera “desvalorização do objeto”, que a ironia opera. O ato metairônico “nos obriga a suspender o juízo”, faz da arte uma atividade crítica, provoca instabilidade, dá voz ao nonsense e incita a contaminação entre os pares opostos: vida/arte, amor/humor, tempo linear/tempo cíclico e assim por diante. Em suma, a metaironia “não é uma inversão dos valores, mas uma libertação moral e estética que põe em contato os opostos”.

Em outro trecho do manifesto da Oberiu está escrito: “Os senhores devem estar se questionando se este objeto é o mesmo que veem na vida. Cheguem bem perto dele e o peguem com as mãos. Se olharem para o objeto com olhos nus, irão vê-lo pela primeira vez limpo da velha douração literária. Talvez digam que nossa temática é ‘irreal’ e ‘ilógica’. Mas quem disse que a lógica do cotidiano é a lógica em arte?”. Aqui está explícita a metaironia. Esta é exatamente a suspensão do ânimo e do juízo de que fala Paz a respeito da arte de Duchamp. Para a Oberiu, em geral, e para Kharms, em particular, “a arte tem sua própria lógica…”. E o propósito mais patente do artista é “ampliar o sentido do objeto, da palavra e da ação”.
Isso fica ainda mais claro quando lemos a descrição de Kharms no manifesto da Oberiu. Para a associação, Kharms possui uma atenção “que focaliza não a figura estática, mas a colisão de uma série de objetos, suas interações. No momento da ação, o objeto ganha contornos novos, cheios de significado da realidade”. Kharms é o Duchamp da palavra.

Se fosse nosso objetivo esgarçar esse argumento, poderíamos arrolar aqui uma série de análises sobre o Dadaísmo que convergiriam com uma análise mais aprofundada da arte da Oberiu. Mas não é esse nosso intuito. Sendo assim, procuramos rematar o assunto apenas com a análise que o crítico e historiador da arte italiano Giuliu Carlo Argan faz de Duchamp em seu clássico “Arte Moderna – Do Iluminismo aos Movi­mentos Contemporâneos” (Cia das Letras, 710 páginas, tradução de Denise Bottmann e Frederico Carotti). De acordo com Carlo Argan, “Dada não quer pro­duzir obras de arte, e sim ‘produzir-se’ em intervenções em série, deliberadamente imprevisíveis, insensatas, absurdas.” Ao lermos as “miniaturas” de Kharms e, mais ainda, ao assistirmos à en­cenação de dezoito delas em “Ce­rimônia para Personagens Estranhos”, é isso que percebemos com nitidez.

Carlo Argan diz que, com a ação do ready made, “apresenta-se como dotado de valor algo a que geralmente não se atribui valor algum”. O ready made “limita-se a destacar o objeto do contexto que lhe é habitual, e no qual atende a uma função prática: desambienta-o, desvia-o e o conduz por uma via morta. Retirando-o de um contexto em que, por serem todas as coisas utilitárias, nada pode ser estético, situa-o numa dimensão na qual, nada sendo utilitário, tudo pode ser estético. Assim, o que determina o valor estético já não é um procedimento técnico, um trabalho, mas um puro ato mental, uma atitude diferente em relação à realidade”.

Se tiver a oportunidade de ler Kharms e assistir ao espetáculo de Fayad, o leitor perceberá que estas palavras de Carlo Argan, destinadas a Du­champ, bem que poderiam ter sido escritas tendo em vista o vanguardista russo.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.