Cristina Judar: “Os prêmios em geral amplificam o potencial de disseminação da obra em questão”

Autora premiada lança “Elas Marchavam Sob o Sol” e revela suas obsessões estéticas em torno da obra

Márwio Câmara

Especial para o Jornal Opção

Perfil

Cristina Judar é escritora e jornalista. É autora do romance “Oito do Sete” (Reformatório, 151 páginas), ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e finalista do Prêmio Jabuti do mesmo ano. Escreveu o livro de contos “Roteiros Para uma Vida Curta” (menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura 2014) e as HQs “Lina” e “Vermelho, Vivo”. Seu segundo romance, “Elas Marchavam Sob o Sol”, está sendo lançado pela editora Dublinense.

A construção

Eu me dediquei a Ana e Joan, as protagonistas do romance “Elas Marchavam Sob o Sol” (Dublinense), como duas forças complementares. Elas me levaram à criação de trajetórias distintas e, ao mesmo tempo, espelhadas. Narrar os doze meses, até que ambas completassem dezoito anos de idade, foi um mergulho em um lago de águas profundas e turvas, em que a técnica (ou a consciência dos movimentos) é condição fundamental para a sobrevivência e o alcance do objetivo inicial, embora as correntes e fluxos inesperados também façam parte da experiência, tornando-a única.

Eu quis escrever sobre lendas transmitidas pela oralidade, ritos quase esquecidos, as mitologias da terra, o sangue que precisa ser escondido X o sangue que é valorizado, a opressão dos corpos, a vivência do cárcere, a violência praticada pela normatividade, o patriarcado. Tudo isso entrelaçado à nossa história e ao que presenciamos hoje no Brasil e no mundo. Trabalhei para que, com duas figuras fortes e completas em suas ambiguidades, isso fosse possível. Assim como por intermédio de outras representações que, conforme vão surgindo, enriquecem a paleta de cores e tonalidades, que agregam novas notas à melodia.

Linguagem e gênero

“Elas Marchavam Sob o Sol” nasceu de uma experiência intensa de planejamento e de execução, mas também de entrega aos temas que pra mim se faziam urgentes. A cada mês ou parte, cada fala e depoimento pesquisado, cada dado, lampejo e vontade deram corpo à “criatura-livro” que hoje se encontra finalizada.

Cristina Judar: escritora | Foto: Divulgação

Aliado ao trabalho de linguagem — no qual priorizo os significados advindos de (con)junções, cadências e sequências poéticas, sem, contudo, me afastar da clareza que se faz necessária para a construção de personagens “possíveis” em seu caráter mundano e ficcional —, o exercício de definição do corpus que deu origem ao livro foi meticuloso, exigiu concentração, organização, foco e boas doses de delírio para que todas as imagens que eu queria construir pudessem ser definidas com a exatidão que elas mereciam.

As camadas de significados, com as quais gosto de trabalhar literariamente, estão presentes de forma que, após o avistamento da ponta do iceberg, mergulhos sucessivos possam ser providenciais. Com isso, a experiência da leitura ganha novos sentidos — o que também é uma forma interessante de se trabalhar o tempo e o ritmo no texto.

Os estudos de gênero aos quais tenho me dedicado também foram relevantes para o processo de criação do romance, com base em reflexões sobre o que papéis pré-estabelecidos determinam como “ordem a ser seguida e jamais questionada” — e as consequências disso tudo. De que forma a mídia, a indústria a igreja, a sociedade, os valores da “família tradicional brasileira” colaboram para que tantos aprisionamentos ainda sejam realidade incontestável para tanta gente?

Prêmio São Paulo de Literatura

Penso que a literatura (e todas as artes) constituem poderosos instrumentos não somente de registro da época em que vivemos, mas de representação da diversidade e das singularidades que compõem grupos, comunidades, sociedades inteiras, o mundo. Aos escritores no Brasil, que possibilitam uma parcela significativa desses “retratos”, deveriam existir mais oportunidades de real aproximação com leitores, como visitas a universidades, comunidades, escolas, bibliotecas, espaços culturais, assim como chances para o próprio desenvolvimento e estudo por meio de diferentes incentivos.

Os prêmios em geral amplificam o potencial de disseminação da obra em questão, pois toma-se um novo rumo, é alcançada uma outra dimensão. Após receber o Prêmio São Paulo de Literatura 2018 com o meu romance “Oito do Sete” muito mais gente passou a se interessar pelo livro, várias portas foram abertas. A obra ganha outro patamar de visibilidade e o escritor tem mais chances de divulgar sua arte em espaços nos quais, do contrário, dificilmente chegaria. Mas é importante dizer que o antes e o depois do prêmio são tão importantes quanto o recebimento do prêmio em si. Não dá para depositar tudo em um fato isolado e esperar que as coisas, a partir daí, se solucionem sozinhas, que todos os caminhos já estão abertos e conquistados. Tanto que, na prática, vemos autores que nunca foram premiados com uma produção bastante relevante e reconhecida, até bem mais do que autores que já ganharam estatuetas. Tudo é muito relativo. Sem contar que a maneira como se direciona os caminhos dos livros (do pré-lançamento ao pós-lançamento) é outro fator fundamental, que deve ser pensado com atenção por escritores, editores, agentes e todos os que de alguma forma, fazem parte deste segmento.

Bastidores

Bastidores é um quadro idealizado pelo jornalista Márwio Câmara, com o objetivo de registrar depoimentos de escritores brasileiros contemporâneos quanto aos seus respectivos processos criativos.

Márwio Câmara é escritor, jornalista, crítico literário e professor. Autor do livro “Escobar” (Editora Moinhos). É colaborador do Jornal Opção.

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