Crise da razão deriva de que se perdeu a orientação para a verdade
02 maio 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
De Portugal para o Jornal Opção
O abecedário de Agostinho de Hipona: R de Razão
A razão tem limites, mas o sentimento raramente conhece freios. Todo mundo quer ter razão, porém poucos estão dispostos a usá-la como processo de busca e construção que ela requer. Nas praças públicas e nos ecrãs de hoje, multiplicam-se os “racionais” que destroem o adversário com argumentos seletivos, movidos pela raiva, sede de status ou tribalismo. No polo oposto, há os que rejeitam qualquer argumento racional por considerá-lo “frio”, preferindo a suposta autenticidade emocional que ignora consequências evidentes.
Vivemos, assim, uma estranha crise da razão, não por ausência, mas por ter perdido sua orientação para a verdade. De um lado, o hiper-racionalismo tecnocrático que reduz o real a cálculo, de outro, o subjetivismo que absolutiza a experiência individual em fórmulas como “eu sigo minha verdade” ou “siga seu coração”, como se emoção e vontade fossem critérios suficientes de verdade.
Se Santo Agostinho lhe perguntasse — “Você prefere ter razão ou ser feliz?” — o que responderia? Para o bispo de Hipona, a razão sem fé facilmente se converte em vitória ilusória, incapaz de sustentar a paz interior, e a fé sem razão, por sua vez, resvala na superstição ou no fanatismo. Entre o orgulho de quem julga bastar-se pela própria razão e o sentimentalismo de quem absolutiza o “coração”, perde-se o essencial. A felicidade não está em vencer debates, mas em repousar na Verdade que nos transcende. A razão não é autossuficiente, precisa da luz da fé para não se desviar, e a fé precisa da razão para não se tornar cega, apenas assim o coração inquieto encontra descanso.
O desvio da razão não começa no erro intelectual, mas na soberba. O início de todos os pecados é a soberba, isto é, o amor desordenado de si mesmo, que leva a criatura a preferir-se ao Criador. Não se trata apenas de pensar errado, mas de querer ocupar o lugar da verdade. A razão, então, deixa de buscar e passa a justificar, a vontade deixa de obedecer e passa a impor. O homem erra porque ignora e deseja ser medida de si mesmo. Por isso, a crise da razão é, no fundo, uma crise do amor.
Agostinho não vê a razão como uma ferramenta autossuficiente à maneira dos racionalistas modernos. Para ele, a razão é limitada pela condição humana ferida pelo pecado.
Capaz de grandes coisas, como preparar o caminho para a fé, ela permanece incompleta sem a iluminação divina e a precedência da fé. Em De Trinitate, o filósofo situa a razão no interior da alma, ligada à inteligência que busca compreender a verdade, mas que não se sustenta sozinha, pois depende de uma luz que a ultrapassa. Sozinha, a razão pode levar ao ceticismo, ao erro ou à ilusão, como o próprio Agostinho experimentou no maniqueísmo e no ceticismo acadêmico. Apenas quando curvada à fé e iluminada pela graça é que a razão alcança sua plenitude, não anula a inteligência, mas a purifica e a eleva para contemplar verdades que vão além dos sentidos e da lógica puramente natural.
A razão é um dos conceitos mais ricos e centrais no pensamento do pensador de Tagaste. Não necessariamente o “melhor” no sentido de superior ou isolado, pois ele o integra profundamente a outros como graça, amor, memória, tempo, mal e livre-arbítrio, mas certamente um dos mais produtivos para dialogar com a nossa contemporaneidade.
Em tempos de polarização mais emocional do que racional, Agostinho de Hipona surge como um antídoto tanto para o racionalismo frio das tecnologias quanto para o irracionalismo afetivo das redes. Ele nos lembra que a verdadeira razão é humilde, reconhece seus limites e se abre para algo maior, a graça. Sem essa humildade, tornamo-nos escravos das influências midiáticas ou das próprias paixões.
Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

