“A cidade de Ulisses”, de Teolinda Gersão, é um prato cheio para o leitor amante de narrativas híbridas

Escritora portuguesa nos dá um livro vigoroso e abrangente porque realiza uma sinergética
fusão entre romance, história e ensaio, daí sua abrangência temática e seu acento reflexivo

Escritora portuguesa Teolinda Gersão

Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção

Para além de uma história de amor ambientado em tempos e geografias distintos, “A cidade de Ulisses” (Oficina Raquel, 2017. 254 páginas), de Teolinda Gersão, recentemente lan­çado no Brasil com a presença e palestras da autora em diversas cidades, entre elas São Paulo, Rio, Petrópolis, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília, é um romance que carrega várias leituras, entre elas a de uma relação tumultuada; e, noutra vertente, a paixão por Lisboa, o olhar cirúrgico sobre a cidade legendária e uma imersão na própria história de Portugal.

Se a narrativa transcorre entre dois planos, quando se discorre sobre os paradoxos e possibilidades de um amor e questiona o passado, o presente e o futuro do País que lançou-se ao mar e tornou-se império dominador por muitos séculos, por outro lado esmiúça a própria história literária, ao mergulhar na lenda, segundo a qual Lisboa teria sido fundada por Ulisses. Pinçando de Homero e de sua Odisseia a força motriz dessa sedutora história, a autora, em clave epifânica, com erudição e elegância, percorre territórios geográficos, históricos e políticos, para, no fundo, construir uma obra de densa investigação existencial, tanto sobre seus personagens quanto sobre Portugal, numa espécie de encontro de contas com a verdade pessoal e histórica e as amplidões da Política, numa viagem instigante e apaixonada nos escaninhos do homem e da nação.


” A cidade de Ulisses” realiza um delicado transporte mítico e sensorial por uma Lisboa antiga tendo como catapulta dois protagonistas que emulam esse trânsito onírico: os pintores Paulo Vaz e Cecília Branco. A partir dessa relação, outras se desenvolvem, para deambular por um grande cenário histórico e humano da capital lusa, num leque crítico e inquiridor que vai da era dos Descobrimentos à atualidade, quando passado e presente se interpenetram em intensa simbiose, promovendo a autora um mergulho numa aguda atmosfera em que os mitos e a realidade se fundem para uma compreensão da própria identidade portuguesa.

A paixão interrompida de Paulo e Cecília são motivadores de uma busca pela própria essência – a interior, dos personagens; a exterior, social, política e histórica – e nesse particular, Teolinda amarra a trama num fluxo narrativo que transita, habilidosamente, por universos distintos. No meio dos contratempos amorosos, subsiste a enviesada convivência entre o pintor e seu pai (um militar autoritário); e entre estes e a esposa e mãe (ausente e sem afeto), quando o fio de uma relação repleta de travas e fragilidades acaba por delimitar os contornos dessas vidas, tensionando ainda suas relações com o mundo.

Como sinaliza a autora na nota de abertura do livro, trata-se de uma obra ficcional inspirada nas artes plásticas, a partir de conversas que manteve com alguns pintores, entre os quais João Vieira e José Barrias, definindo seu diálogo peculiar com a pintura e sua paixão pelas artes em geral. É um livro habitado pela memória, pela investigação social e pela irredutível esperança no amor de duas criaturas em sua procura incessante, a um só tempo, dos prazeres físico e estético, cujos contornos albergam, além de uma extensão dos sentimentos, a necessidade de recuperação da liberdade do ato de amar e de criar, de resgate da identidade, de entender o mundo em todas os seus contextos e dimensões.

“A cidade de Ulisses” abre-se com uma busca, uma tentativa de resgate que é também uma reafirmação do valor do amor (à amada e à arte). Paulo foi apaixonado por Cecília, com quem não pôde casar. Tendo ela engravidado, o que não foi bem recebido por Paulo, que reagiu com violência à notícia, desencadeando uma discussão que a leva a um acidente doméstico e acaba por perder o filho, pondo fim ao namoro e culminando num afastamento melancólico que a leva para outras terras e outro destino afetivo. No desejo de Paulo de realizar uma mostra como homenagem póstuma a Cecília reside a necessidade de recompensa íntima de uma vida interditada pelas contingências e é o combustível com que a narrativa conduz o olhar estético de Teolinda Gersão pelas telas da história pública e privada. Pois aqui, em suas diversas camadas e projeções, a autora, com a habitual elegância de sua prosa poética e inegáveis sutilezas de estilo e olhar, alcança o leitor ao exprimir, num imenso painel conceitual e filosófico, os grandes momentos de Lisboa e de Portugal; e os dilemas vividos por Paulo e Cecília e seu confronto permanente com o pai e a mãe, são entidades que, no fundo, representando seus tormentos e castrações, metaforizam a gênese do País e sua relação com os movimentos históricos que o constituem.

Livro vigoroso e abrangente, de híbrida arquitetura, porque realiza uma sinergética fusão entre romance, história e ensaio, daí sua abrangência temática e seu acento reflexivo, reafirma o lugar de Teolinda Gersão entre os grandes escritores contemporâneos e honra as melhores tradições literárias da Língua Portuguesa.

Ronaldo Cagiano é um escritor mineiro de Cataguases, autor, dentre outros, de “Eles não moram mais aqui” (Contos, Ed. Patuá, Prêmio Jabuti 2016) e “O sol nas feridas” (Poesia, Ed. Dobra, SP, Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2013), reside em Portugal.

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