Cartografias surrealistas no “Atlas do impossível”, de Edmar Monteiro Filho

Em seu livro de contos, escritor paulistano toma como pontos de referência grandes nomes, como André Breton, Jorge Luis Borges e Maurits Cornelis Escher

Edmar Monteiro Filho, prosador paulistano expõe, em seu livro “Atlas do Impossível”, grande influência do surrealismo

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Um livro de contos, geralmente, é o resultado da reunião de textos literários dispersos e autônomos que o autor produz ao longo dos anos, quase sempre sem um fio narrativo que os una. São também textos que escapam a qualquer critério quantitativo, ou seja, não podem ser definidos com base em sua extensão. Mas, ao contrário da novela e do romance, o conto exige, antes de tudo, a atenção concentrada do leitor para produzir nele um “efeito preconcebido, único, intenso, definido”, com observou o professor, ensaísta e investigador venezuelano Carlos Pacheco (1948-2015) em “Del cuento e sus alrededores. Aproximaciones a una teoria del cuento” (Caracas, Monte Ávila Latinoamericana, 1997, p. 20), com base no que dizia o poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), para quem o “conto devia ser lido de uma assentada”.

“Atlas do impossível” (Editora Penalux, 2017), de Edmar Monteiro Filho, quinto livro de contos do autor, não preenche todos esses critérios. Mas, entre os 15 relatos que o compõem, há dois que provam que a extensão em número de páginas ou palavras não é mesmo critério seguro para definir um conto. Por exemplo, o texto de abertura, “Autorretrato em espelho esférico”, tem apenas 18 linhas, enquanto aquele que encerra o volume, “Galeria”, ocupa 49 páginas, dividido em dez capítulos ou trechos, aproximando-se do que se poderia chamar de novela.

O livro, po­rém, vai além. São relatos caudatários do movimento surrealista da década de 1920, liderado pelo poeta e crítico francês André Breton (1896-1966), que, tanto na pintura ou na gravura como na poesia ou na prosa, procurava incorporar elementos desconexos, formas abstratas e ideias irreais, com o objetivo declarado de escapar da lógica e da razão. Em outras palavras: levar o poder da subversão à criação.

Muitos destes contos, de fato, não apresentam um fio condutor, mas, ao contrário do que seria comum em livros do gênero, foram escritos sob a inspiração de dois mestres. Um deles é o artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972). O outro se trata de Jorge Luis Borges (1899-1986), poeta e contista argentino, a quem a Academia Sueca ficou a dever um Prêmio Nobel de Literatura.

Atlas do Impossível
Autor: Edmar Monteiro Filho
Editora: Penalux
Páginas: 246

Em Escher, Monteiro Filho buscou inspiração não só para a narrativa de seus contos, a ponto de o título de cada uma das 15 peças repetir o de uma gravura do artista. De certo modo, os relatos buscam provocar no leitor a mesma sensação de estranhamento que as telas de Escher costumam causar naqueles que as observam, pois sempre exigem uma nova visão, tal a confusão mental que provocam. Do mesmo modo, os textos do contista exigem, invariavelmente, uma nova leitura.

É de se lembrar que as gravuras de Escher procuram representar construções impossíveis, explorações do infinito e metamorfoses, em que os padrões geométricos entrecruzados transformam-se gradualmente em formas completamente diferentes. Além das gravuras (xilogravuras, litografias e meios-tons) de Escher, Monteiro Filho vale-se de alguns de seus pensamentos, como aquele que funciona como epígrafe para o conto “Ordem e caos”: “Não consigo parar de brincar com nossas certezas incontestáveis”.

Há também nestes contos referências implícitas e explícitas a Jorge Luis Borges, que, inclusive, aparece como personagem em “Mãos desenhando”, que conta as peripécias de um acadêmico tucumano para se tornar íntimo do mestre, visitando-o com certa frequência em seu apartamento na calle Maipú, no centro de Buenos Aires, além de segui-lo à distância pelas ruas de uma cidade que o escritor, à beira da cegueira, começava a deixar de enxergar.

Como se estivesse disposto a romper todas as classificações estabelecidas pelos críticos para o gênero, o autor cita neste conto pessoas ainda vivas, como a escritora, tradutora e professora argentina Maria Kodama, ex-secretária e viúva de Borges, e o contista, romancista e novelista brasileiro Menalton Braff.

Já no conto “Três mundos”, Monteiro Filho, igualmente nas pegadas de Borges, repete a metáfora do espelho, desenvolvendo uma autorreflexão sobre seu próprio processo de escrita, ao misturar realidade e ficção. E procura reconstituir a história fabulosa da vida do libanês Ismail, que chegou ao Brasil em 1950 e adquiriu um imóvel na Rua Treze de Maio, a principal da pequena cidade de Amparo, no interior de São Paulo, onde montou uma sorveteria, depois de, como soldado da Legião Estrangeira, ter participado de combates em Camarões e na Europa e, mais tarde, no Marrocos, depois de realistar-se, voltar à França em 1926.

Até que, em 1939, já com família constituída e uma sorveteria herdada do tio para cuidar, ao atender a um obscuro chamado interior, abandonou tudo e partiu para o Norte da África, realistando-se na Legião, para participar de novos combates. É a vida desse personagem que o narrador recupera com o auxílio de seu filho brasileiro, Kalil, agora um empresário bem sucedido. Para se ter uma ideia do estilo sóbrio, mas instigante, de Monteiro Filho, segue um excerto:

“O narrador está sentado diante de Kalil. O filho brasileiro de Ismail tem as unhas cuidadas e se veste bem. Por telefone, declarou trecho de seu arsenal: longas conversas com o pai, um legado inestimável de episódios de uma vida prodigiosa. Se teria tomado notas? Desnecessário, já que possui memória prodigiosa – o mesmo adjetivo talvez desmentindo esse prodígio. Kalil não vê problemas em contar o que sabe sobre Ismail. Suas frases calculadas traduzem as intenções: “Não se pode permitir que uma trajetória de vida tão rica caia no esquecimento”; “Ismail é um personagem riquíssimo”: “toda essa riqueza renderá um livro”: “O pai legou-lhe um tesouro”.
Mas o narrador se agarra aos fios possíveis de sua história” (pag. 51).

Como observa o experiente professor, romancista e pintor Aércio Flávio Consolin, no texto de apresentação que escreveu para as “orelhas” deste livro, os contos de Monteiro Filho “foram criados sob a égide de artistas que apuseram ao real uma reinterpretação subversiva pela própria natureza, derivando para uma suprarrealidade que atiça a compreensão e alarga-a por ampliar a perplexidade a cada aproximação, tanto das gravuras de Escher como da literatura por Borges”.

Nas pegadas do que diz Consolin, as imagens insólitas de Monteiro Filho têm atraído também a atenção de estudiosos jovens, como Alexandra Vieira de Almeida, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), para quem “o contista mostra seu pleno domínio sobre esta arte difícil do conto que para muitos é o texto em prosa da literatura mais complexo de se elaborar, pois é necessária a medida certa, o ponto essencial”.

Já para o romancista e pesquisador Krishnamurti Góes dos Anjos, autor de O Touro do rebanho (Lisboa, Editora Chiado, 2014), que obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE), do Rio de Janeiro, quem vier a ler esta obra de Monteiro Filho estará “diante de um escritor com pleno domínio dos aspectos que envolvem a estruturação de suas histórias (onde ecoa um lirismo cativante)”. Para ele, o contista “articula e combina múltiplas linguagens, verbais e não verbais para criar sistemas autorrepresentativos onde a fusão interativa de elementos propicia uma maior consistência e eficiência de um fazer literário que o coloca entre os mais expressivos prosadores brasileiros da atualidade”.

Aliás, os textos de Alexandra Vieira de Almeida e Krishnamurti Góes dos Anjos, que podem ser localizados na Internet, merecem desde já ficar reservados como prefácio e posfácio para uma possível segunda edição de Atlas do impossível, tal a maneira percuciente como interpretaram a originalidade dos contos de um escritor tão seguro de seu ofício.

Adelto Gonçalves é jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP).

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