Carolina Jabor fala sobre “Aos Teus Olhos” e sobre arte

Filme conta a história de um professor de natação infantil acusado de beijar um aluno na boca, e é massacrado nas redes sociais como pedófilo; segundo a diretora, lançar um filme sobre o tema nesse momento é uma oportunidade de debater a questão

Carolina Jabor com o ator Daniel de Oliveira (d) e o curador da mostra Lisandro Nogueira: “Fazer cinema é um trabalho que passa pelo desejo de transcendência” | Foto: Gilberto G. Pereira

Já houve um tempo em que Carolina Jabor detestava ser reconhecida como filha do Arnaldo. Mas era impossível desfazer a associação. Mesmo sobrenome, mesmo escolha profissional, e Jabor, o pai, é uma figura indissociável da própria agitação cultural brasileira desde pelo menos 1968, o ano que nunca acabou.

Em vez de bater o pé, Carolina resolveu trabalhar. Há 20 anos ela vem construindo uma carreira que começou como assistente de direção com Andrucha Waddington, ao mesmo tempo que fazia filmes publicitários na produtora em que ela e Waddington são sócios, a Conspiração Filmes. Em 2014, dirigiu seu primeiro longa-metragem, “Boa Sorte”, com um elenco de peso, como Deborah Secco, no papel principal, Fernanda Montenegro, Enrique Diaz, Felipe Camargo e Gisele Fróes.

Agora ela lança seu segundo longa, “Aos Teus Olhos”, na mostra “O Amor, a Morte e as Paixões”, nesta noite, às 21 horas, no Cine Lumière Bougainville, com a presença da diretora, que após a exibição, junto com Daniel de Oliveira, o protagonista do seu filme, conversa com o público.

Além desta noite, “Aos Teus Olhos” ainda poderá ser visto por algumas sessões mostra adentro. Num bate-papo informal no hall de entrada do Cine Lumière Bougainville, a diretora e o ator falaram com os jornalistas sobre o filme e sobre o momento atual do cinema brasileiro.

“Aos Teus Olhos” conta a história de um professor de natação infantil que é acusado de beijar um aluno na boca, e é massacrado nas redes sociais como pedófilo, sem que as pessoas de fato tenham acesso a algum tipo de prova.

Dos filmes

Segundo Carolina, seu filme já estava pronto quando surgiu a onda de moralismo e denúncias contra a Exposição Queer Museu, no Santander Cultural em Porto Alegre, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, no caso da garotinha levada pela mãe em uma exposição de um homem nu, e no caso do MASP com uma exposição sobre a história da sexualidade. “É uma oportunidade de debater a questão. É interessante lançar um filme sobre o tema em um momento como este”, diz Carolina.

Mas, para além do debate social, a julgar pelo seu primeiro longa, “Boa Sorte”, o novo filme de Carolina terá muito a oferecer em termos de linguagem. “Boa Sorte”, com roteiro de Jorge Furtado, tem uma trilha sonora que imprime um silêncio incrível, quase japonês.

A diretora diz que a comparação é interessante, e não é a primeira vez que ouve isso, embora não se sinta influenciada pelos filmes dos japoneses de que ela gosta, como Takashi Koizumi e Kenji Mizoguchi. “A trilha de ‘Aos Teus Olhos’ é ainda mais silenciosa, porque uso mais a ambiência natural. No outro ainda havia algumas músicas pops”, diz.

Ao falar sobre o sentido da arte que ela faz, Carolina procura analisar o significado da obra de ficção como algo que desperte emoções sem ser piegas, algo que transcenda a realidade. “Acho que passa por aí, por um desejo de transcendência”, diz. “O artista tem de trabalhar o tempo todo perseguindo a tradução daquilo que quer contar.”

Impacto da telona

A obsessão parece ser também o que persegue Daniel de Oliveira. Ator de cinema e de televisão, poucas vezes sobe no palco para fazer teatro. Mas diz que gosta da dramaturgia. Não faz muito teatro, porque não sobra tempo.

Desde o começo, ele conseguiu engatar um trabalho no outro. O ator fez seu primeiro filme aos 20 anos, e nesses 20 anos de carreira cinematográfica (hoje ele tem 40 anos) já fez 20 filmes, na média de um por ano. “Fui chamado pra fazer cinema, e fiquei impactado pelo set de filmagens. Depois, gostei também de assistir ao filme pronto na telona, e falei ‘quero fazer muito, cinema’”, diz.

Às vezes pula algumas temporadas, quando mergulha na televisão, mas depois lança três, quatro filmes de uma só vez. Este ano, por exemplo, além de “Aos Teus Olhos”, Daniel de Oliveira vai lançar ainda outros dois, “Morto Não Fala” e “Dez Segundos”, em que faz o papel do boxeador brasileiro Eder Jofre, campeão mundial de boxe.

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