Camões: a coragem dos que não se submetem às tiranias e aos preconceitos

Soldado agrediu um amigo e o poeta feriu-o com a espada. Foi torturado e só conseguiu indulto por se comprometer a seguir como soldado nas naus coloniais para o Oriente

Carlos Russo Jr.

Luís Vaz de Camões, contemporâneo de Shakespeare e de Cervantes, viveu no século 16, tempo enriquecido pelo renascimento das artes e do livre pensar, mas também gerador das lutas religiosas que inicialmente contestavam a supremacia e a intolerância do Catolicismo Romano, buscando modernizá-lo e torná-lo mais próximo dos homens. As Reformas iniciais de Lutero, que, entretanto, desembocaram em guerras pelo poder político, e o Protestantismo associado ao poder tornou-se pelo menos tão despótico quanto o próprio Catolicismo, que reagiu com as medidas destruidoras da liberdade da Contrarreforma. E o fanatismo religioso dos Savonarollas e Torquemadas por um lado, dos Calvinos e Knoxs pelo outro, competiam entre si na destruição da liberdade do pensar. E as guerras de conquistas, as torturas, os assassinatos e as fogueira arderam à exaustão desde o final do século e no, no 17, implantavam-se em quase toda Europa, para o Oriente e, mesmo, para os lados do Novo Mundo.

Camões, em sua origem escudeiro real, manteve em toda sua vida o espírito audacioso, independente e renascentista; apesar de todas as dificuldades, elevou-se no ardor daqueles que não se submetem aos tiranos e aos preconceitos de raça, de cor, credo ou dinheiro.

Em Coimbra, ainda nos bancos escolares, sofreu as hostilidades do sistema, sendo acusado de paganismo. Foi levado a instalar-se em Lisboa, quando aos 20 anos, foi aceito como poeta lírico pela Corte Portuguesa, onde ainda por volta de 1540, poetas clássicos como Camões eram benvindos. No entanto, teve um prestígio de pouca duração. Despertou a inveja dos poetastros ambiciosos como Pero Caminha e Jerônimo Corte Real. E a intriga, as mentiras e a mediocridade possuem sempre em meios da elite política uma extraordinária eficiência.

A gota d’água que levou ao seu banimento da Corte foi a peça teatral “Auto de El-Rei Seleuco”, uma obra-prima das letras portuguesas, que se coloca acima dos preconceitos, zombando abertamente do matrimônio como instituição sagrada. Acontece que em Camões o amor é encarado do ponto de vista humano e não se deixa submeter às exigências das regras morais e religiosas. Ademais, a comédia continha uma forte alusão ao amor incestuoso do Rei João III pela própria madrasta, D. Maria, o que, na vida real teria levado ao falecimento prematuro de D. Manuel, dito O Venturoso. Ademais, a crítica ao clericalismo radical do novo Rei João era mais que evidente.

A grande pergunta é porque Camões teria se arriscado tanto trazendo para a realidade presente passagens de Plutarco e Petrarca? Acontece que o Rei João III, autodenominado O Piedoso, viria a ser o introdutor da Santa Inquisição em Portugal, enviando já nos primeiros anos de reinado, centenas de “heréticos” à fogueira. No princípio de seu reinado, ele ainda possuía certa consideração para com os poetas, não perseguindo Gil Vicente por protestos contra seu excesso de clericalismo, mas enviando para Camões que seria seu primeiro exílio.

Logo, Camões conheceu também de perto as barbaridades das guerras, os abusos dos poderosos e dos fanáticos e por isto, esteve várias vezes nos cárceres, tendo por pouco escapado da Santa Inquisição. Sua morte na miséria foi fruto do da marginalização que sofreu por parte tanto da Igreja, quanto da Realeza. Não se tratou do acaso que logo após sua morte, quase todos os seus escritos hajam desaparecido. Foram necessárias décadas para que fossem reunidas não somente suas Rimas, bem como parcela de sua obra teatral.

Em 1547, ou por necessidades financeiras ou obrigado ao cumprimento de alguma penalidade imposta, guerreou por dois anos com as tropas portuguesas no norte da África, tendo sido glorificado pela bravura e perdido o olho direito em combate. Esperava uma recepção calorosa na Corte. Ledo engano, no retorno a Lisboa, foi simplesmente desprezado e apelidado de “O Diabo Zarolho”.

Homem de coragem e protetor dos amigos, estando um dia numa procissão de Corpus Christi, um soldado agrediu um amigo e Camões feriu-o com a espada no pescoço. Preso, foi torturado nas masmorras reais e permaneceu um ano atrás das grades, conseguindo indulto por se comprometer a seguir como soldado nas naus coloniais para o Oriente.

No Oriente, tão pouco deixou de passar por atropelos com as autoridades eclesiásticas e temporais. Mas foi nesta passagem que ele imaginou “Os Lusíadas”, descrevendo maravilhosamente todos os lugares pelos quais passara a esquadra de Vasco da Gama e o épico papel por ela representado, num empreendimento ousado e triunfal, embora recheado de brutalidade e violências.

Participou, entre 1551 e 1554 de uma série de aventuras guerreiras, como contra o Rei Chambé e contra os turcos no Mar Vermelho, retornando a Goa, na Índia, em 1555. Acontece que os anos como guerreiro em nada amorteceram seu espírito crítico e nem a disciplina de soldado, sua rebeldia. Atacou publicamente a corrupção e desmandos dos governantes. Novamente preso, foi deportado para as Ilhas Molucas.

Acontece que o castigo fora excessivo para o poeta, houve intervenção e se obteve para ele, em 1558, o cargo de procurador-mor de defuntos em Macau. Dizem que, para enganar seus perseguidores, pois era péssimo funcionário, esquecia os mortos e dedicava seu tempo a escrever e esconder “Os Luzíadas” em cavernas e grutas. Mas certo dia, declarado dilapidador da fazenda pública, foi preso e colocado na nau Prata e Seda para ser levado e julgado em Goa. Acontece que esta nau naufragou nas costas do Camboja. Camões viajava com Dinamene, jovem com quem mantinha laços afetivos. As águas a levaram, mas ele pode salvar-se e com um braço carregou consigo os originais de “Os Lusíadas”.

Viveu, então, algum tempo dentre os budistas e com eles ampliou seu ecumenismo. Finalmente chegou a Goa e ficou prisioneiro entre 1560 e 1562. Soube na prisão da morte prematura de um amor de sua juventude, Catarina de Ataíde, a Natércia, pessoa nobre que os pais haviam proibido de que com ele se casasse. Um dos mais belos poemas líricos foi por ele escrito na ocasião:

“Nunca ponha ninguém sua esperança,

Em peito feminil que, da natura,

Somente em ser mudável tem firmeza.”

A mudança do governo da Índia lhe foi propícia. D. Anton de Noronha o ajudou, arrumou-lhe uma sinecura pública, mas o poeta ardia de desejos de voltar a Portugal. Pelo caminho de volta, passou por outra prisão agora por dívidas, mas finalmente desembarcou em Lisboa em 1570, após 17 anos de exílio. Não encontrou nenhuma fortuna familiar, apenas uma mãe “velha e pobre”, ele que só trazia nos alforjes “O Parnaso” e “Os Lusíadas” e uma muda de roupa.

Em 1572, Camões concluiu e dedicou “Os Lusíadas” ao Rei D. Sebastião e o livro foi publicado. Mas “O Parnaso”, de uma forma ou outra, se perdeu e apenas foi recuperado e parcialmente três séculos após.

Camões jamais mendigou ou ao menos pediu apoio financeiro para a nobreza. Pobre, recolheu-se ao convívio popular modestamente, e jamais aceitou um convite que fosse para frequentar os salões de uma corte por ele definida como “corrompida, estúpida e decadente”.

Em 1579, Lisboa foi assolada pela peste. Contaminado, Camões foi recolhido a um abrigo para indigentes. Ali, só e esquecido, morreu juntamente com o antigo Portugal, cujas tropas de Felipe II da Espanha se preparavam para invadir. Morria o autor que seria imortalizado pelas obras, postura revoltada e pela coragem que jamais se curvou perante os poderosos e os fanáticos.

“Os Lusíadas”, a decadência do feudalismo e arauto de um Novo Mundo que despertava

Nascido nobre, Camões trezentos anos antes da Revolução Francesa, questiona já questiona os fidalgos, os “filhos de algo”.

“Por que fez a humana natureza

Entre os nascidos tanta diferença?”

Acontece que se encarna na obra-prima de Camões uma enorme independência moral. Nela nada se encontra de estreito, de restrito, como todo o homem autêntico do espírito renascentista, ele que sempre mais e mais se aproxima do paganismo da natureza que do espírito cristão. Jamais sua lírica se aproxima dos preconceitos, combate-os com a fé no humanismo. Como exemplo, a maior recompensa que vê para Vasco da Gama e sua gente é a Ilha dos Amores, florida e perfumada, com suas ninfas em sua estonteante nudez, com o coração e corpo abertos à espera dos heróis luzíados.

No Canto VII de “Os Lusíadas”, o poeta tece um franco elogio à mulheres liberais de Malabar, nas costas das Índias:

“Gerais são as mulheres, mas somente

Para os da geração de seus maridos:

Ditosa condição, ditosa gente

Que não são de ciúmes ofendidos.”

O censor da Inquisição manifestou-se favorável ao poema. Até hoje se imagina a pressão sobre ele exercida por D. Sebastião, o Rei, o qual tinha em muito menor grau o fanatismo religioso do falecido avô, o Rei João III. Acontece que todo o poema é rigorosamente herético! Vasco da Gama embora visasse dilatar o império e a fé cristã, só se viu auxiliado pelos deuses e deusas do velho mundo pagão. É verdade que Baco tentou com que suas naus naufragassem, mas Vênus protegeu-os, pois prometera a Zeus torná-los os Luzíadas tão famosos quanto os heróis da Antiguidade.

Ao lado da essência épica, em todo o longo poema, Camões assenta na questão econômica e não em crendices a base da vida social.

“Quanto no rico assim como no pobre

Pode o vil interesse, e sede amiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga…

O dinheiro rende munidas fortalezas

Faz traidores e falsos amigos;

Este a mais nobre faz fazer vilezas

E entrega capitães aos inimigos:

Este corrompe virginais purezas

Sem temer de honra ou fama perigos,

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízes cegando, e as consciências.”

Não haviam sido em vão as perseguições políticas sofridas e tanto anos de prisão:

“Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade,

Ama somente os mandos e a riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Da feia tirania, e da aspereza

Fazem direito e vã severidade.

Leis em favor dos reis se estabelecem;

Em favor do povo só perecem”.

Mesmo tendo dedicado seu livro a D. Sebastião, em nenhum momento, em nenhuma estrofe, abriu mão de seu pensar, aquele que se autodenominava “o cantor da gente surda e ensurdecida”.

É bem verdade também que, na luta entre os senhores feudais e o Rei D. Sebastião, Camões sempre o prestigiou, pois representava, conforme Engels, a “ordem em meio à desordem”, impedindo que a unidade nacional se dispersasse em estados vassalos. No entanto, na luta entre o Soberano e o Povo, seu lado estava definitivamente ao lado deste último, mesmo quando apoiado em leis injustas:

“Nem que ache que é justo e que é direito

Guardar-se a lei do Rei severamente

E não acha que é justo, e bom respeito

Que se pague o suor da servil gente”.

E dirigindo-se diretamente ao Rei em relação aos povos:

“Favorecei-os logo, e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desaliviai-os

Que assim se abre o caminho à santidade.”

Camões também pode ser considerado como o poeta da burguesia nascente, em sua fase inaugural. Se “Os Lusíadas” têm o caráter patriótico, também possui um caráter universal,  pois “toda terra é pátria para o forte.” Marx e Engels colocavam Camões ao mesmo nível que Tasso e Ariosto, como os grandes épicos do mundo moderno, lídimos continuadores de Homero, Virgílio e Dante.

Finalmente, Camões também soube em dado momento, despir-se de um passado glorioso e perceber a decadência em que a sociedade vivia e, melancólico, murmurou:

“No mar tanto tormento e dano,

Tantas vezes a morte apetecida!

Na terra, guerra santa, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida.

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida?

Que não se arme e se indigne o céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno.”

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