Abilio Wolney Aires Neto

Na tarde de segunda-feira, dia 3 de agosto de 2026, o Espaço Cultural Goiandira do Couto — sede extensiva do Centro de Memória e Cultura do Poder Judiciário do Estado de Goiás, em Goiânia — recebeu o lançamento do livro Barca à Deriva, romance de estreia — ou quase — do magistrado e escritor Assis Neto, pseudônimo literário sob o qual assina o Juiz Substituto de Desembargador Sebastião José de Assis Neto. Mestre em Direito pela UFG, ex-Promotor de Justiça e ex-Procurador do Estado de Goiás, professor da UniEvangélica, da ESMEG e do Gran Cursos, o magistrado é autor de obras jurídicas de referência publicadas por editoras como Juspodivm e Dialética — entre elas “Manual de Direito Civil” (em coautoria, já na 10ª edição), “Manual de Responsabilidade Civil”, “Introdução ao Estudo do Direito” e, mais antigos, “Dano Moral: Aspectos Jurídicos” e “O Desporto no Direito” —, além de contos e poesias publicados ao longo da carreira. Barca à Deriva marca, assim, sua estreia no romance. O evento foi promovido pelo Tribunal, por meio da Comissão Permanente de Memória e Cultura, presidida pelo desembargador Roberto Horácio de Rezende, e reuniu os desembargadores Luiz Cláudio Veiga Braga, Wilson Faiad, Reinaldo Alves, José Pedro de Oliveira, Algomiro Carvalho Neto e Alexandre Bizzotto, além de magistradas e magistrados, representantes do Ministério Público, da advocacia e do Sistema de Justiça, e figuras da área cultural e educacional — entre elas o historiador Nasr Chaul, assessor cultural do TJGO, e o escritor Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores – seção Goiás (UBE-GO). A Associação dos Magistrados do Estado de Goiás (Asmego) fez-se representar no concorrido lançamento por este articulista, o juiz de direito Abílio Wolney Aires Neto, ocupante da Cadeira 9 da Academia Goiana de Letras e da Cadeira 23 do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Publicado pela Editora Litteralux, de Guaratinguetá (SP), em 2026, com 161 páginas, Barca à Deriva chega às livrarias — e às mãos dos convidados do lançamento — como um romance que não pede licença para incomodar

Uma família como microcosmo

O livro é narrado por um filho que observa, quase sempre impotente, a desagregação afetiva e ética da própria casa. Jaime, o patriarca, é a figura central: um homem cuja ambição política caminha lado a lado com a leviandade e a corrupção de caráter. Ao seu redor gravitam Aurora, a mãe, presa entre desejos não realizados e a doença que a consome, e Aníbal, o filho mais velho, cuja juventude se perde entre drogas e devaneios místicos antes de se reinventar como professor e, depois, operador da própria política do pai. Completa o núcleo familiar Glorinha, a irmã mais nova, personagem de temperamento inquieto e intelectualmente inquiridor, cujas leituras erráticas — de Kundera a Goethe, passando por um obscuro tratado sobre “a inversão da História” — funcionam quase como um contraponto filosófico ao cinismo do restante da família. O narrador, mais novo e mais discreto entre os homens da casa, testemunha tudo com uma mistura de ironia e resignação que dá o tom do livro inteiro.

Já nas primeiras páginas, esse narrador confessa a dúvida que o acompanha ao empreender o relato: por que alguém se interessaria pela história de sua família? A resposta, entretanto, vai se construindo ao longo dos capítulos, à medida que a intimidade doméstica se revela espelho de mazelas maiores — a hipocrisia social, a vaidade das elites, a instrumentalização da política e do afeto. A fórmula da família em declínio como retrato de uma época — de Os Buddenbrook, de Thomas Mann, à galeria de patriarcas decadentes de Nelson Rodrigues — encontra aqui uma variação tropical e contemporânea, mais afeita à sátira do que à tragédia clássica.

Passagens ambientadas no fictício Bentley Club — point de piscinas semiolímpicas e “madames efervescentes” — servem de palco para o adultério, a futilidade e a vigilância social entre os pares da alta sociedade. Já os capítulos que acompanham a trajetória de Jaime na vida pública expõem, com ironia afiada, o mecanismo do poder: o discurso vazio, o dinheiro que compra lealdades, a falsa filantropia que maquia o egoísmo. Não faltam, tampouco, cenas de crueldade doméstica e de degradação moral que emprestam ao romance um tom por vezes brutal, quase visceral.

Infância, escola e primeiros dissabores

Os capítulos iniciais recuam no tempo para reconstituir a formação dos irmãos, e é aí que o romance revela sua veia mais autobiográfica e nostálgica. Cenas de praia em Santa Catarina, brincadeiras entre o narrador criança e Glorinha ainda bebê, disputas em torno de relógios de pulso equipados com calculadora e episódios de uma severa educação salesiana — incluindo palestras moralizantes sobre sexualidade e um relato incômodo do preconceito religioso disfarçado de formação espiritual — compõem um painel de crítica ácida à educação burguesa e conservadora da época. É um capítulo em que a ironia do autor, normalmente voltada à política e à alta sociedade, se volta contra a própria infância, sem poupar o narrador de seus próprios ridículos.

A tragédia de Nara e a queda de Aníbal

Antes de Nara, Aníbal viveu um affair breve e conturbado com Marisa, uma colega de faculdade de Ciências Criminais cuja ruptura o deixou marcado — episódio que a narrativa trata com certa complacência, notando a antipatia que Aurora nutria pela nora em potencial. É, contudo, com Nara — oficial de justiça de origem humilde, criada pela avó — que o relacionamento de Aníbal atinge o fundo do poço. Nara se envolve com um advogado de traficantes, mergulha no consumo de entorpecentes e, no auge do vício, adere à “Seita da Esponja”: um culto satírico de inspiração new age, liderado por um “pastor” ex-rico e viciado, que prega a substituição da matéria pela “Esponja” divina e oferece aos fiéis a escolha entre a “Contração” (o desapego) e a “Implosão” (o suicídio ritual) como caminhos de salvação. É um dos trechos mais corrosivamente satíricos do livro, ridicularizando o florescimento de seitas e modismos espirituais entre uma juventude endinheirada e entorpecida.

Envolvida nessa espiral, Nara é encontrada morta no apartamento de Aníbal, vítima de um tiro de revólver que a perícia classifica como suicídio — episódio que a imprensa explora com avidez, expondo o nome da família nos jornais sob a manchete de “oficial de justiça encontrada morta em flat de deputado federal”. A cena do confronto entre pai e filho que se segue é um dos pontos altos do livro: Aníbal, embriagado e agressivo, acusa Jaime publicamente de corrupção, de comprar votos e desviar dinheiro de obras públicas, antes de desmaiar, vítima da combinação de álcool e drogas. É esse colapso que finalmente leva à internação em clínica de desintoxicação — o ponto de virada que abre caminho para a reinvenção do personagem nos capítulos seguintes.

É justamente nesse ponto que o romance abre uma de suas fissuras mais comoventes. Depois de oito meses sem vê-lo, o narrador vai visitar Aníbal na clínica — episódio de rara delicadeza sensorial, com o cheiro de desinfetante e álcool que domina o corredor, o corrimão acinzentado da escada, a porta do quarto 34 batida repetidas vezes sem resposta. Quando finalmente se abre, o reencontro surpreende pela ternura: Aníbal sorri, abraça o irmão mais novo e o convida para dentro, mostrando a televisão que ficara ligada a noite inteira — um gesto singelo que contrasta com toda a dureza e o cinismo que permeiam as relações familiares no restante do livro. É um raro instante em que a barca, mesmo à deriva, ainda comporta afeto.

Da faculdade ao gabinete: a metamorfose de Aníbal

Recuperado do vício e já casado com Cláudia — não sem antes protagonizar uma última noite de despedida de solteiro em um prostíbulo universitário, narrada sem meias palavras —, Aníbal reaparece nos capítulos seguintes como professor de ciência política, ministrando aulas em que expõe, com sarcasmo quase didático, contradições da vida contemporânea: da fragilidade das convenções sociais à hipocrisia de quem condena os prazeres alheios sem abrir mão dos próprios. Pai de um filho (o pequeno Amílcar, nascido um ano após a morte de Aurora), Aníbal termina absorvido pelo mesmo sistema que criticava em sala de aula: torna-se assessor jurídico do pai e, por fim, primeiro suplente na chapa de deputado de Jaime — um giro irônico que a narrativa não deixa de sublinhar, ao evocar a “convenção” como um vil metal em disputa e ao colocar na boca do próprio Aníbal reflexões sobre o abandono de antigos juramentos. A trajetória lembra, guardadas as proporções, as ambições arrivistas de Rastignac em Balzac ou de Gatsby em Fitzgerald; e o “jeitinho” que costura o acordo com o senador Pontes, poucos capítulos antes, remete diretamente ao “você sabe com quem está falando” que Roberto DaMatta identificou como chave das relações de poder à brasileira.

A doença, a morte e o que resta

A segunda metade do livro é marcada pelo definhar de Aurora, vítima de um linfoma que a consome lentamente e a afasta de tudo — do marido, dos filhos, dos espelhos. Os capítulos dedicados a esse declínio abandonam o tom satírico predominante em favor de um registro mais intimista e melancólico, na esteira do que Tólstoi já explorara em A Morte de Ivan Ilitch: o contraste entre a banalidade da vida cotidiana e a solidão radical de quem se sabe morrendo. Os diálogos triviais sobre palavras-cruzadas, o silêncio no elevador, a fragilidade física contrastada com a euforia política de Jaime, que segue discursando sobre juros e inflação enquanto a mulher se apaga. A morte de Aurora, e o funeral que se segue, marca uma virada na obra — a partir da qual os sobreviventes reorganizam suas vidas (o casamento e a paternidade de Aníbal, o distanciamento afetivo entre os irmãos, os novos rumos de Jaime) sob o peso de uma ausência que, paradoxalmente, poucos parecem realmente sentir.

Sátira e digressão como método

Ao lado do enredo familiar, Barca à Deriva intercala longos capítulos de digressão filosófica e sátira social — quase à maneira de um ensaio disfarçado de ficção. Discussões sobre o sentido da política, o livre-arbítrio, a “morte” do sujeito moderno substituído pela mídia e pela mercadoria, ou paródias afiadas do meio acadêmico e literário (rodas de leitura regadas a tequila na “casa do Mendez”, declamações de poesia embriagada, embates entre um professor “comunista” e um colega que o acusa de “eurocentrismo”) dão ao romance uma textura ensaística que foge do naturalismo estrito. Não é difícil reconhecer, por trás dessas digressões, ecos de Guy Debord e sua crítica à “sociedade do espetáculo”, de Zygmunt Bauman e a “modernidade líquida” das relações descartáveis, ou de Pierre Bourdieu e sua análise dos mecanismos de reprodução das elites — assim como, na chave especificamente brasileira, o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, que confunde o público com o privado, ecoa na figura de Jaime. É nesse território que a prosa de Assis Neto mais se aproxima da tradição de romance de ideias, na linhagem de autores que usam a ficção como veículo de reflexão política e existencial — reforçando, aliás, a comparação com Vargas Llosa e Lobo Antunes já sugerida na orelha do livro.

Vale destacar, dentro dessa vocação satírica, os capítulos em que Aníbal, ainda advogado iniciante, patrocina a causa de um agiota contra um devedor inadimplente. A audiência de conciliação — com o réu perdedor gritando acusações de “conluio” contra o juiz e o relato do rito processual visto de dentro, num tom entre o cômico e o cético — é um raro momento em que a própria magistratura, ofício do autor, torna-se alvo de sua ironia, sem poupar os vícios da lentidão, da linguagem hermética e da vaidade que por vezes cercam o Judiciário.

Ecos de grandes nomes, voz própria

O texto de orelha do livro situa Assis Neto ao lado de referências como Philip Roth, Vargas Llosa e Lobo Antunes — nomes conhecidos por dissecar, sem complacência, a falência de famílias e de sistemas. Mais especificamente, aponta-se um diálogo direto com A Barca dos Homens, de Autran Dourado: se no clássico mineiro a barca e o rio são metáfora da travessia humana, marcada por culpas, pecados e redenções, em Barca à Deriva a embarcação simboliza antes o desgoverno — a deriva de uma família, e por extensão de uma sociedade, que perdeu o rumo ético.

É esse duplo movimento — da crônica íntima ao diagnóstico coletivo — que sustenta o livro. Assis Neto não escreve para agradar; escreve para provocar fissuras, para expor aquilo que preferimos varrer para debaixo do tapete.

Um autor da toga e das letras

A escolha de lançar o livro no Centro de Memória e Cultura do Judiciário goiano não é acidental. Sebastião de Assis Neto — Assis Neto na capa — é Juiz Substituto de Desembargador e autor já reconhecido de obras jurídicas publicadas por importantes editoras, e a cerimônia, sediada num equipamento cultural do próprio Tribunal de Justiça e prestigiada por desembargadores, historiadores e confrades de academias literárias, reforçou o vínculo entre sua atuação na magistratura e sua produção literária, cada vez mais reconhecida nos círculos culturais de Goiás. Aos presentes, coube ainda o gesto simbólico das dedicatórias manuscritas nos exemplares, numa cena que reafirma o caráter quase artesanal e afetivo do lançamento — um livro que nasce, e circula, entre amigos e pares antes de chegar ao grande público.

No discurso de agradecimento, o próprio autor resumiu a diferença entre seus dois ofícios de escrita: “o livro técnico exige conhecimento e estudo, a obra literária demanda liberdade de ideias, criatividade e, claro, uma pitada de exibicionismo”. Barca à Deriva não é sua estreia absoluta em prosa de ficção — antes dele, o autor já havia lançado, também na sede do TJGO, o livro de contos “O Colecionador de Lugares”.

O editor da obra, Wilson Gorj, definiu o romance como “um livro sobre a falência das certezas, a implosão das ilusões e a busca desesperada por sentido num mundo que parece ter esquecido de si mesmo”, classificando Assis Neto como “um autor que merece ser lido e acompanhado de perto”. Falando em nome do desembargador Roberto Horácio de Rezende, presidente da Comissão de Memória e Cultura, o desembargador Alexandre Bizzotto foi na mesma direção: “estamos perante um dos maiores intelectuais do Poder Judiciário goiano”. Já o assessor cultural do TJGO, Nasr Chaul, saudou o livro como “uma narrativa inquieta e irônica, uma impressionante ficção familiar”, enquanto o escritor Ademir Luiz, presidente da UBE-GO, destacou tratar-se de “uma grande contribuição para as letras de Goiás e do Brasil”.

Natural de Ceres (GO), Sebastião José de Assis Neto é também professor e músico, além de magistrado e escritor. Venceu o 1º Concurso Literário Carmo Bernardes com o conto “Hector no Cubo” e, antes de ingressar na magistratura em 1999, foi escrevente e assessor do próprio TJGO, procurador do Estado e promotor de justiça — atuando, já como juiz, nas comarcas de Abadiânia, Itauçu, Goianápolis, Anápolis e Goiânia. É graduado, especialista e mestre em Direito pela UFG e cursa atualmente doutorado em Direito Constitucional pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).

Barca à Deriva confirma, assim, uma tendência que vem se consolidando na literatura goiana contemporânea: a de magistrados-escritores que emprestam à ficção o olhar apurado de quem lida, cotidianamente, com os dramas humanos nos autos — e decide, na literatura, dar-lhes rosto, voz e, sobretudo, ambiguidade. Ao percorrer mais de duas décadas na vida de uma família — da infância dissimulada às convenções partidárias, do altar ao velório, da faculdade ao gabinete —, o romance amplia seu alcance: o que começa como confissão doméstica termina como um panorama, tantas vezes cômico e tantas vezes amargo, da política, da academia e dos costumes brasileiros contemporâneos.

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