“As Lâminas do Tarô e os Doze Trabalhos de Hércules” é um livro místico ou mítico?

À maneira de T. S. Eliot, adotando os 21 trunfos do tarô, mais o curinga, Solidade Lima constrói um mosaico de filigranas, composto como um tapete tecido de sons e de palavras

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

“As Lâminas do Tarô e os Doze Trabalhos de Hércules” (Editora Polo Books), de Dílson Solidade Lima, na verdade, constitui um desafio para o leitor apressado, que não só precisa desvendar o livro antes de qualquer entrega, como também compreendê-lo amorosamente na sua compactação estilística, mesmo depois de ter percorrido cada página, cada poema, cada palavra. A forma fixa às vezes assusta, pois no mundo de hoje a arte poética tornou-se mais fácil de ser absorvida quando se apresenta sem técnica, sem preocupação formal, sem compromisso estético.

À maneira de T. S. Eliot, adotando os 21 trunfos do tarô, mais o curinga, Solidade Lima constrói um mosaico de filigranas, composto como se fora um tapete finamente tecido de sons e de palavras. E numa visitação ao universo medievo, por intermédio de uma reinvenção simbólica, o poeta traz intactas as vicissitudes de um mundo moderno e arcaico ao mesmo tempo. A poesia, e só a poesia, tem esse poder revolucionário dentro da linguagem escrita. Metaforicamente, lembra as ousadias de Augusto dos Anjos.

Embora jovem, Solidade Lima, depois de uma série de livros escritos e de vários prêmios arrebatados pelo país afora, já é autor maduro, consolidado, que conhece bem a língua de comunicação e as armadilhas provindas da escrita; e, aqui nesta seara, sabe safar-se com destreza e perspicácia de possíveis perigos gramaticais, na construção de seu discurso poético. Escolheu o soneto, invenção italiana do século 13, para a expressão do desatino verbal e encontrou nas cartas do tarô e na mitologia os arquétipos do seu espanto. Um visionário moderno em busca do velocino de ouro. Mas talento não lhe falta.

Solidade Lima é autor maduro, consolidado, que conhece bem a língua de comunicação e as armadilhas provindas da escrita | Foto: Reprodução

Um pouco de história nunca é demais

O soneto — do italiano “soneto”, pequena canção ou, literalmente, pequeno som — foi criado na primeira metade do século 13, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II, da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns estudiosos atribuem a invenção do soneto a Jacopo da Lentini, poeta imperial siciliano. Esse tipo de poema surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, e possuía, inicialmente, uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.

Algum tempo depois, o soneto evoluiu até atingir sua forma fixa hoje conhecida, ou seja, um poema composto de quatorze versos, sendo dois quartetos e dois tercetos, com rimas ou não. Há, ainda, os que invertem a disposição estrófica e os que buscam a tradição do soneto inglês (três quartetos e um dístico), praticado no século XVI por William Shakespeare, e aqueles que cultuam o soneto monostrófico, que apresenta uma única estrofe de quatorze versos. Há, também, alguns poetas que o praticam em metros menores e até sem metro algum. O certo é que há, entre nós, exímios (es)cultores de versos decassilábicos e alexandrinos, conforme a tradição italiana e ibero-americana.

Mas, pelo que consta, a forma fixa nunca prejudicou ou mesmo interferiu negativamente na qualidade da poesia brasileira, que reina absoluta no continente sul-americano, conforme a opinião de muitos especialistas. Só precisamos dizer isso para os membros das instituições suecas e norueguesas, que concedem anualmente o Prêmio Nobel. Pelo que parece, essas conceituadas entidades nunca viram riqueza nem mesmo nenhum atrativo na literatura de Cecília Meireles, Hilda Hilst, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Guimarães Rosa, entre muitos e muitos outros.

Os doze trabalhos de Hércules

O presente volume está subdividido em três partes: “As lâminas do Tarô”, que apresenta 22 peças referenciais; “Os doze trabalhos de Hércules”, com poema para cada um deles, e “Sonetos”, que soma mais 54 unidades, perfazendo um total de 88 sonetos voltados para os temas propostos e que encontram na voz do poeta pernambucano radicado na Bahia a erudição precisa e o domínio técnico seguro para elevação de uma elegância sintática a serviço da estética e da beleza. Solidade escreve como quem compõe melodias. E a musicalidade de seus poemas deve-se, sobretudo, aos versos decassilábicos heroicos e, mais raramente, aos sáficos, mas ambos construídos com a mesma devoção artesanal e o mesmo cuidado de um ourives na confecção de uma joia rara.

Com este novo livro, o autor de “As Vestes do Tempo” se inscreve, sem nenhum favor, no restrito círculo de ouro da moderna literatura brasileira. E que venham a lume outros títulos, já que a maioria de sua obra escrita ainda permanece inédita. Mas por pouco tempo — é o que os leitores de Solidade Lima esperamos, sem reservas e pra já.

Biobibliografia do poeta

Dilson Solidade Lima, ou simplesmente Soledade Lima, nasceu em Sertânia, Estado de Pernambuco. Desde muito cedo sua família mudou-se para Feira de Santana (BA), onde reside. Solidade Lima é poeta e compositor; um bardo, na amplidão da palavra, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade estadual de Feira de Santana. Nascido no crepúsculo da aurora no dia 2 de dezembro de 1982, conforme nos informa no seu livro “Bem Abaixo de Zero”: “A manhã se enluarando e eu amanhecendo com o sol que se desprendia da placenta azul do dia”.

Escreve desde os tenros anos e singularmente tem sua fonte primaz na poesia. Prepara-se, no entanto, para outras poéticas publicações. Seus livros no prelo e os já publicados: “Amotivacionalismos”, “A Lira Minha: Desentoada”, “Áspide Angular”, “Nalla: o Perpassante e a Cidade em Falência”, “Vulto Revel”, “O Oitavo Erro”, “A Clave Suspensa”, “Pássaros Só para Soraia”, “Escritos Desaforísticos”, este um livro de máximas, “As Vestes do Tempo” e “As Lâminas do Tarô e Os Doze Trabalhos de Hércules”.

João Carlos Taveira, poeta e crítico mineiro, nasceu em Caratinga e mora em Brasília desde dezembro de 1968. Tem diversos livros publicados, entre os quais “A Flauta em Construção”, de 1993. É colaborador do Jornal Opção.

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