“Argonautas”, um apaixonado tratado da resistência da existência

Livro da premiada escritora americana Maggie Nelson aborda com mestria o universo queer, expondo a complexidade da vida humana, aquilo que às vezes nem as palavras mais sutis dão conta de traduzir: o ser em sua inteireza

Pensa-se habitualmente com sisudez, com uma escrita áspera, dura, distante. Na contramão disso, Maggie Maggie Nelson dialoga com a poesia, com a escrita-dança, com o “avesso da palavra”

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

Antoine Roquentin – personagem-narrador de “A Náusea”, de Jean-Paul Sartre, imerso em suas reflexões a respeito dos problemas que envolvem o fato de existir – diz que “o essencial é a contingência (…). Existir é simplesmente estar aqui”. Inculca muito pensar nessa afirmação feita num dos mais importantes romances do século passado.

O que define uma existência? Há na Filosofia muitas respostas para essa pergunta. Muitas delas nos suscitam mais indagações, algumas outras — que se pretendem definitivas — deixam a sensação da ausência de algo, e outras não dizem nada, apesar de ocuparem imensos volumes de tratados filosóficos.

Mas é a resposta sartreana que parece sintetizar a ideia de que certas complexidades que infligimos sobre o existir não passam de recursos de aprisionamento, que na verdade existir, essencialmente, é um processo mais simples. É somente tão somente estar existindo.

Dar conta deste problema, com suas labirínticas implicações, não é uma tarefa em que se tenha alguma facilidade. É um dolorido processo. Processo esse que é atravessado pelo signo da mutabilidade. Porque assim como o existir, conseguir responder aos problemas da existência é tentar resolver uma quebra-cabeça cuja a imagem a ser montada muda a cada encaixe das peças.

Mesmo que a resposta de Roquentin, no seu monólogo existencialista, sumarize a questão, o seu processo de pensar nela é doloroso — e apaixonado. Há uma intensa paixão — não aquela que consola, afaga, mas a paixão dilacerante — no romance do filósofo francês.

Há também uma profunda paixão na obra de outra pensadora que se ocupa com os aspectos da existência. “Argonautas”, de Maggie Nel­son, talvez seja uma das obras mais importantes — e apaixonadas — dos últimos dez anos a pensar de forma honesta, pessoal e sincera a exis­tência a partir duma reflexão de gê­nero. Firma-se também como uma leitura necessária e cabal para os cinzentos e conturbados tempos em que se vive nos dias contemporâneos.

Sensações

Vertido para o português por Rogério Bettoni e publicado no ano passado pela Editora Autêntica, “Argonautas” abriu — ao lado de “Flor de Açafrão”, de Guacira Lopes Louro, e “Foucault e a Teoria Queer”, de Tamsin Spargo — a coleção Argos, que reunirá uma série de títulos que discutem gênero e a teoria queer. Bettoni também coordena a coleção.

O livro de Maggie é uma miscelânea de sensações para quem se propõe a lê-lo e muito sinuoso para quem se prontifica a analisá-lo. A obra não se amarra num gênero — o que talvez seja uma ironia dos termos ou guarde certa intencionalidade da autora: pode ser um ensaio memorialístico, anotações de leituras, autobiografia, uma carta de amor, ou somente um emaranhado, aparentemente aleatório, de lembranças — intelectuais e pessoais. Não dá para encaixar o trabalho de Maggie em nenhum lugar, o que é bastante sintomático, já que ela vai discutir esse desencaixe diante das suas escolhas de vida.

Seu relacionamento com Harry Dodge, uma pessoa de gênero fluído que está em processo de transição física do arquétipo feminino para o masculino — “arquétipo” usado na sua acepção jungiana aqui, já que “masculino” e “feminino” podem estar inseridos no conjunto de constructos fabulosos (como fábula mesmo) que impregnamos no imaginário coletivo e que não sejam, necessariamente, representações cristalinas da “realidade”; a premência da maternidade que chega e todas as nebulosidades que essa etapa da vida traz, sua produção intelectual, relatos da sua vivência estando num corpo feminino, as leituras que fez e que faz no percurso da produção do livro, análises de obras de artes –, tudo isso está ali espalhado nas rápidas, mas não superficiais, páginas do seu livro.

Mais do que qualquer outro aspecto que caracterize “Argo­nautas”, está ali a árdua tentativa — já previamente entendida como insuficiente — de pôr em palavras aquilo que não se pode exprimir. “Antes de nos conhecermos, passei a vida acreditando que o inexpressável está contido — inexprimivelmente! — no expressado, como dizia Wittgenstein.”, diz Maggie já na página de abertura.

Há como expressar o inexpressável? Como conseguir transformar o não-físico das ideias, das sensações, em descrições justas e correspondentes com essas palavras não-existentes? Há muito de inexprimível nas memórias de Nelson. É uma jornada que acompanhamos ao virar de cada página.

Jornada afetiva — conseguimos descrever o que é o sentimento amoroso? —, de linguagem — ela é capaz de explicar-se nos seus próprios termos? Ela, a linguagem, é suficiente? Jornada de construção de uma persona que não se vê representada em nenhum dos modelos de personas que existe, ou seja, uma jornada de construção da desconstrução. Como construir uma existência que é estranha (queer) às outras? Há formas para dizer como é aquela existência que não se formata à forma nenhuma?

Pulsação do afeto

O livro de Maggie Nelson é a pulsação do afeto livre. Do afeto, do amor não aprisionado, da compreensão de que “o momento do orgulho queer é a recusa de sentir vergonha por testemunhar o outro com vergonha de você”.

Há certa radicalidade interpenetrada nas reflexões que a poeta e crítica faz sobre gênero, educação infantil, casamento. É que se precisa de radicalidade ao se firmar como sendo o que se é num mundo que não aceita outras formas de ser. No caminho que trilha, Maggie pensa com paixão e mescla, como Sontag e Barthes, sua experiência pessoal com sua vida intelectual. O resultado disso não poderia ser mais proveitoso para o leitor.

A escrita é o recurso de luta de Maggie. É nela que se debruça na tentativa de dar conta da fluidez da existência. Até mesmo o formato do seu livro é bem representativo dessa sensação: não há capítulos, não há divisões, não há tópicos, apenas o intenso fluxo do pensamento derramado sobre a folha em branco, apropriando-se de outras ideias — com seus autores indicados nas margens do texto —, metabolizando tudo que lhe atinge e as somatizando para pavimentar o caminho das suas próprias reflexões.

A estrutura do livro é como se fos­se uma alegoria do próprio existir, que se transmuta, reformula-se, deglutindo todas as experiências que vive no percorrer do seu caminho sem preocupar-se em seguir a linearidade.

A estrutura do livro é como se fosse uma alegoria do próprio existir, que se transmuta e deglute todas as experiências ao longo do caminho

Confissão epistolar

“Argonautas” também é uma obra sobre o amor. Uma declaração pungente de afeto e da sua performatividade pública. No ínterim do livro, há declarações amorosas diretas de Maggie para Harry, emulando uma espécie de confissão epistolar. O artista, companheiro de Maggie, está passando por um processo transicional, ao mesmo tempo que Maggie está grávida.

Duas transformações corporais, que vão reformular o que cada um deles é como ser humano. Enquanto Maggie toma seus hormônios por causa da gravidez, Harry toma testosterona para adaptar-se às mudanças pelas quais seu corpo passa. A relação, que se abre muito intimamente para o leitor, também passa por suas transformações.

De repente a figura feminina de Harry transforma-se em masculina, e as linhas do seu gênero são borradas. O impacto dessa mudança é sentido pelo casal no trato com as pessoas e isso exige uma posição de ambos para lidar com isso. O desafio que está posto é também da compreensão de que o sentimento amoroso não é fixo, de que não existe somente um “eu te amo”.

Esse parágrafo, ainda nas primeiras páginas, exemplifica muito bem isso: “Um ou dois dias depois da minha declaração de amor, hoje de uma vulnerabilidade brutal, eu te mandei o trecho de “Roland Barthes por Roland Barthes” em que Barthes descreve como o sujeito que diz ‘Eu te amo’ se parece com ‘o Argonauta que renova seu navio durante a viagem, sem lhe mudar o nome’. Assim como as partes do Argo, o significado de ‘Eu te amo’ deve ser renovado a cada uso da frase pelo amante, pois ‘a própria tarefa do amor e da linguagem consiste em dar a uma mesma frase inflexões sempre novas’.”

Readequação interna

Maggie começa sua relação de uma forma, e se aprofunda nela vendo-se, depois, em outra. Com Harry se dá o mesmo. É uma pessoa que não vê sua existência encaixando-se em nenhuma das fôrmas que estão disponíveis.

Há um tormento também nesse processo de Harry que atinge Nelson. “Você não acha que eu também estou preocupado? É claro que estou preocupado. Só não preciso da sua preocupação pesando em cima da minha. Preciso do seu apoio”, diz Harry transcrito por Maggie.

O que acontece com o casal é uma readequação interna de quem não quer se adequar à normatividade. E ver, através dos olhos de Maggie, esse processo sendo vivido pelo casal é uma poderosa experiência de leitura.

Queer é um termo que pode ser traduzido como “estranho”. Algo que não encontra equivalência nos modelos existentes, que mostra-se na sua estética — política, sexual, filosófica — alheia ao que se normatizou. O queer está na margem, porque não se sujeita a nenhuma regra que o aprisione. Nesse espectro, Maggie, entre uma página e outra, vai pensar o sentido político da resistência queer, assim como reflete sobre seus privilégios enquanto mulher branca, e seus percalços por ser constantemente desacreditada devido ao seu gênero. Também vai trilhar alguns espinhosos caminhos como quando fala da homonormatividade, por exemplo.

A homonormatividade me parece uma consequência natural da descriminalização da homossexualidade: quando algo deixa de ser ilícito, castigável, diagnosticado como doença ou usado como base legal para a discriminação pura ou para atos violentos, tal fenômeno igual deixa de representar a subversão, a subcultura, o underground, o marginal.

Escrita-dança

Nesse caminho de heterodoxia do pensamento, Maggie constrói um livro belo. Há de se pensar que exista uma carência de belo no ato de pensar. Pensa-se habitualmente com sisudez, com uma escrita áspera, dura, distante. Na contramão disso, Maggie dialoga com a poesia, com a escrita-dança, com a escrita-performance, com — para usar a feliz expressão de Mariana Lage — o “avesso da palavra”.

É essa busca da expressão do que não se pode exprimir que costura todas as possibilidades que o livro de Maggie oferece. É um livro múltiplo, carregado de diversas vias possíveis — e algumas outras quase improváveis.

Retomando Sartre e o seu Roquentin, existir é essa contingência, algo que pode ou não ser, mas que, no meio de tudo isso, ela é. Existir, nas suas múltiplas categorias, nos seus inúmeros jeitos, nas suas incontáveis formas.

A resistência da existência estranha é a resistência da ousadia. Nisso Maggie não deixa brecha. Em “Argonautas”, ela declara em bom tom que existe, que quer poder viver — com Harry, sua cria, sua produção intelectual, consigo mesma — de forma livre.

Esse trabalho é exatamente isso: uma declaração de liberdade. Estar aqui, existindo genuinamente, com a liberdade de também ser uma existência estranha, uma existência queer, e resistir.

Ricardo Silva, graduado em Filosofia, escreve sobre literatura e cinema

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