Antonio Callado: entre a utopia e a ironia

Oscilando entre a utopia e a ironia, o que nos legou Antonio Callado? Certamente, um importante painel do Brasil e de seus principais problemas, costurado em excelente prosa

Antonio Callado, autor de “Quarup”, é um dos principais romancistas brasileiros | Foto: Divulgação

Na quinta-feira, 26 de janeiro, o escritor Antonio Callado, nascido em Niterói em 1917, completaria cem anos de vida. Callado, que ocupou a cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras (ABL), morreu dois dias após seu aniversário de oitenta anos, em 28 de janeiro de 1997. Jornalista por profissão, o escritor fluminense estabeleceu-se como grande ficcionista na década de 1950, com a publicação de seus dois primeiros romances, “A assunção de Salviano” (1954) e “A madona de cedro” (1957) – ao tempo em que também trabalhava na elaboração de várias peças de teatro (sendo a mais conhecida, “Pedro Mico”) e na feitura de livros de reportagem, como o “Esqueleto na Lagoa Verde” (1953) e “Os industriais da seca” (1960).

Entre os críticos que primeiro aclamaram Callado, em sua estreia, estava Wilson Martins. Em entrevista à jornalista Norma Couri, publicada no jornal O Estado de São Paulo, no dia 16 de julho de 1997, Martins disse que quem “descobriu Antonio Callado” foi ele: “Fiz o primeiro artigo elogioso sobre o livro de estréia dele, Assunção de Salviano”. O crítico paulistano referia-se à resenha, também publicada no Estadão, em 17 de junho de 1954, na qual, além de analisar o romance como um todo, se ateve aos pormenores de um trecho que descreve a morte do protagonista, Manuel Salviano.

Salviano, um carpinteiro cético, acaba por converter-se em místico religioso, após tentar efetivar uma missão (a “Operação Canudos”) a ele delegada por membros do Partido Co­munista. A missão consistia em fingir-se de beato e infiltrar-se em certo grupo de camponeses, com o objetivo de, paulatinamente, revelar-lhes sua verdadeira identidade e arregimentá-los à revolução. Na medida em que interpretava um Antônio Conselheiro redivivo, nos anos 1950, Salviano viu-se a pouco e pouco enredado pelas coisas divinas. Não conseguindo, portanto, o êxito em sua operação, o falso beato, e agora ex-cético, é morto por Júlio Salgado, o comunista que o aliciara.

Wilson Martins, no calor do momento, destacou um traço importantíssimo da prosa de Callado que o acompanharia e definiria o conjunto de sua obra, asseverando que é em uma “atmosfera de delírio e ironia que se termina o romance, os fanáticos criando a lenda da subida de Salviano para o céu, enquanto Júlio Salgado cremava-o, num velho forno de padaria, como se fosse preciso destruir até os resquícios da apavorante montanha sobrenatural que nele se encarnara.”

Callado conseguiu imprimir esse traço irônico – que vem da melhor tradição picaresca, desde Lazarillo de Tormes – em praticamente todos os romances que se seguiram a “Assunção de Salviano”, até mesmo naquele é considerado o mais “engajado” de todos, o mais afinado às utopias revolucionárias da esquerda latino-americana, em geral, e brasileira, em especial: “Quarup”, de 1967. Este, que é também considerado, por seu esmero estilístico e pelo desenvolvimento de enredo, a obra prima do autor, conta a história do padre Nando, personagem que reúne em si um misto dos missionários jesuítas da época colonial, da tradição do romantismo indigenista, da releitura oswaldiana dessa mesma tradição, bem como do “romance social” (devedor do realismo socialista), dos anos 1930, encontrado em “Suor” e “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

“Quarup” está ambientando no período que vai de 1954 a 1964, e tem como um dos cenários principais o alto Xingu, região até hoje pouco conhecida de nós outros, brasileiros. A escolha do lugar não foi à toa, já que Callado esteve no Xingu mais de uma vez (o livro de reportagem “Esqueleto na Lagoa Verde”, inclusive, é fruto de uma matéria feita lá). Este romance, que poderia ser qualificado de “social”, está longe de ser, como muitos o julgaram, um me­ro panfleto pró-Revolução ou um libelo anticatólico. Ao contrário, é um percuciente e sarcástico estudo das mazelas do Brasil, que faz Cal­lado om­brear com Lima Barreto, para só ficarmos neste exemplo. Anos depois, Callado ainda satirizaria a figura do revolucionário e a relação da sociedade brasileira com os indígenas (temas tão caros a ele próprio) nos romances “Bar Don Juan” (1971) e “A Expedição Montaigne” (1982), respectivamente.

Cabe indagarmo-nos, por fim, o seguinte: entre a utopia e a ironia, o que nos legou Antonio Callado? Certamente, um importante painel do Brasil e de seus principais problemas, costurado em excelente prosa. Há que lê-lo, novamente, sobretudo acompanhado dos melhores escritores contemporâneos a ele: Carlos Heitor Cony, Adonias Filho, Osman Lins e Autran Dourado.

Leia um trecho de “quarup”, em que o padre Nando quebra o voto de castidade com a amiga inglesa Winifred

“Winifred aproximou-se dele, sorrindo, braços abertos. Como se fosse me abraçar, ia pensando Nando. Não pensou ate o fim porque era. Abraçou-o. Depois de homem, fora de pai e mãe, Nando jamais vira outro rosto tão perto do seu. Winifred primeiro passou as mãos pelos cabelos de Nando. Depois beijou-o na boca. E boca contra boca ficou até sentir os braços de Nando que a envolviam também. Num relance, diante do abismo que se abria Nando protelou todas as objeções. De alguma coisa lhe valia agora o hábito de adiar, pensou vagamente, enquanto enterrava o rosto no pescoço de Winifred. Winifred o empurrou para a cama e começou a despir-se como se estivesse só, como se fosse tomar um banho. Nando num repelão começou a fazer o mesmo. Encontraram-se de pé no meio do quarto e mal se colou a um corpo inteiro de mulher Nando virou uma tempestade de gozo e uma bonança perplexa mas breve porque Winifred não relaxava o abraço e o levava para a cama, estendia-se de olhos semicerrados, engolfava-o de novo nos braços e o desejo tinha voltado e agora sim a bainha de coral, a rosa, Winifred sorrindo, provando aqui e ali seu corpo secreto, repondo de volta no travesseiro a fogueira dos cabelos, a pequenina chama ardendo mansa sobre o ventre. Lá fora Nando imaginava a tarde solarenta e biliosa que se arrastava como sempre, no quarto raiava sanguínea e fresca a madrugada. Sentia o corpo dela nas mãos quase como se estivesse fazendo Winifred naquela hora, dos pés aos olhos, pela entreperna, pelos seios. Sangüínea e fresca a guerreira Winifreda. Quando parecia a Nando que um relativo e momentâneo hábito se criara e que ia ver Winifreda em pêlo com alguma naturalidade raiava sanguínea e fresca a madrugada.”

(CALLADO, Antonio. “Quarup”: romance. 12ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Páginas 86-87.)

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Adalberto De Queiroz

Excelente estreia de Cláudio RIbeiro, crítico ou resenhista, como agora se designam os críticos em jornais. Parabéns, Cláudio.