Amir Or: tradição e modernidade na poesia de Israel

O poeta realça as vivências de anti-heróis, a partir da contemplação do novo mundo que nasce naquela faixa que marca o surgimento do mundo judeu                                                   

Adelto Gonçalves

Especial para o Jornal Opção

Uma poesia que traz à tona ideias cabalistas tradicionais que desestabilizam lógicas tradicionais e contemporâneas e, portanto, constitui uma poesia do movimento que retorna e se renova na perspectiva do laço sem fim nem começo. É assim que o tradutor Moacir Amâncio define, no prefácio, o labor poético do poeta israelense Amir Or — que chega pela primeira vez ao Brasil com o livro “A Paisagem Correta” (Relicário, 76 páginas, 2020), traduzido diretamente do hebraico.

É uma poesia que alinha várias tendências, o que a torna difícil de ser explicitada, mas que sobretudo é marcada pela sensação de incompletude, de coisas que não se completam e não chegam ao final. Tradutor do grego clássico e conhecedor de religiões, inclusive aquelas de cunho budista, Or coloca-se numa posição superior diante do mundo, à imitação do Deus criador do Gênesis, mas não pense o leitor que estará diante de um poeta indecifrável porque em sua poesia pode-se encontrar temas tratados sob uma ótica muito pessoal que, de certo modo, como observa o tradutor, ecoa a literatura da beat generation, em meio a elementos orientais, cristãos e judaicos.

Aliás, Or é autor de uma obra intitulada “On the Road” (2018), espécie de homenagem ao livro de 1957 com o mesmo título traduzido como “Pé na Estrada”, no Brasil, e “Pela Estrada Fora”, em Portugal, do norte-americano Jack Kerouac (1922-1969), um dos líderes do movimento literário da geração beat, que no Brasil teve como principal representante o poeta Cláudio Willer (1940).

A filiação à literatura beat fez de Or um divisor de águas na poesia praticada em Israel porque, até pouco antes do aparecimento de sua geração, os poetas e os escritores israelenses de um modo geral estavam ainda vinculados ao sionismo tradicional que procurava fazer com que a construção da nação fosse pautada por ideais coletivistas, com oportunidades para todos aqueles que deixavam seus países de origem, imigrando para a parte que idealmente lhes caberia naquela faixa do Oriente Médio.

Amir Or: poeta israelense | Foto: Reprodução

Segundo o seu tradutor, “Or já se formou num ambiente menos submetido ao peso da sociedade ideológica”. O que não significa, porém, que tenha deixado de lado o tom majestoso e mesmo religioso que caracteriza a poesia épica porque a tradição ainda marca lugar em sua produção. Só que, em vez contar façanhas de um herói que pudesse simbolizar as grandezas de sua pátria, o que o poeta faz é realçar as vivências de anti-heróis, a partir da contemplação do novo mundo que nasce naquela faixa que, de certa maneira, marca o surgimento do mundo judeu e, de pois, do cristão, na raiz também da cultura muçulmana.

Um exemplo dessa perspectiva pessoal que Or passa ao leitor é o poema “Não longe” que pode ser classificado mais como prosa poética: “Não longe da agitação da rua, da hábil colmeia e do barulho do pensamento, além das torres do enxame, além da margem pavimentada, o jorro dos rios de asfalto, / estirada aos olhos do dia e se bronzeando, a nudez animal da cidade das gentes; / escancarada como uma fossa, miqvê de lágrimas e pecados, Tel Aviv de fora / mas dentro, delicia-se consigo mesma no jogo de fluxo e refluxo no baldio da areia e do mar, no rito de mergulho e adoração a o sol, / um burburinho sem sentido faz com que esqueçamos toda vítima / humana, todo esforço, todo heroísmo e toda oração respondida em ato (…). Como observa o tradutor, miqvê é aqui uma referência ao mar de Tel Aviv, comparado com um reservatório de água, em que é feito o banho ritual judaico de purificação.

Pela amostra acima, o leitor já pode ter uma ideia do que vai encontrar neste livro: alguns poemas de Or constituem epigramas, que às vezes são reflexões ou digressões, embora, em outras ocasiões, sejam textos breves. Seja como for, o importante é que, como diz o escritor e professor universitário João Anzanello Carrascoza, que assina o texto de apresentação do livro, a beleza da poesia de Or “está acima das explicações”. E que pode ser resumida na frase inicial do poema “Lembrança. O fora é rasgado de dentro dele” em que ele diz: “(…) o poema é memória, como sol/ que fica no olho após a olhadela no sol; assim / é o poema, verso após verso (…).

O poeta Amir Or (1956), nascido em Tel Aviv, estudou religião comparada na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde, mais tarde, foi professor de grego e religião. É também romancista, tradutor de poesia erótica grega, ensaísta e editor, além de ativista cultural, tendo organizado vários festivais. Criou a publicação “Helicon”, da qual surgiu a Escola de Poesia Árabe-Hebraica.

Coordenou o programa Poetas pela Paz, patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reuniu escritores árabes e israelenses. Recebeu os mais importantes prêmios literários de seu país e tem sido convidado a fazer conferências sobre escrita criativa em universidades de Israel, Europa, Estados Unidos e Japão. Viveu alguns anos no Japão e atualmente reside em Tel Aviv.

É autor de treze livros de poesia em hebraico, dois romances e onze livros de traduções para o idioma hebreu. Um de seus livros mais conhecidos é A Canção de Tahira (2001), ficção épica em prosa métrica. Também atua como ensaísta e tem sido reconhecido como uma das principais vozes da nova geração. Suas obras foram publicadas em mais de 50 idiomas. É autor de “The Madman’s Prophecy” (2012), “Loot” (poemas), “Child” (2018) e “Discourse”, ensaios (2018), entre outros. Em 2015, publicou o romance “The Kingdom” sobre a vida do rei Davi e a sociedade contemporânea.

Moacir Amâncio, poeta, tradutor e professor | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O tradutor Moacir Amâncio

Já o tradutor Moacir Amâncio (1949), nascido em Espírito Santo do Pinhal (SP), poeta e professor de Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), estreou na literatura com a novela “O Saco Plástico” (1974), que foi seguida pela prosa fragmentária de “Estação dos Confundidos” (1977). Jornalista, passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “Gazeta Mercantil” e “O Globo” e das revistas “Visão” e “Shalom”. Foi correspondente do “Estadão” em Israel.

Publicou os livros de contos “O Riso do Dragão” (1981) e “Súcia de Mafagafos” (1982). Mas, a partir de 1993, rendeu-se de vez à poesia com o livro “Do Objeto Útil”, que lhe valeu o Prêmio Jabuti. Em “Figuras na Sala” (1996) fez uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).

Em 1997, publicou um livro de reportagens e artigos, “Os Bons Samaritanos e Outros Filhos de Israel”. Logo voltou à poesia com “O Olho do Canário” (1998). Em 1999, deu à luz “Colores Siguientes” em que reuniu poemas escritos em castelhano. É o livro que marca o início de uma série de peregrinações poliglotas, que vão atingir o seu auge com “Abrolhos” (2007) em que várias composições estão escritas em hebraico. Publicou ainda o livro de poemas Kelipat Batsal (Book Link, 2005), que também foi impresso em ousada edição da antiga e histórica revista d e litera tura e arte Et Cetera, nº 5, de Curitiba.

“Em Ata” (Record, 2007) reuniu seis livros de poemas publicados até então e outros inéditos. Publicou também “Yona e o Andrógino — Notas Sobre Poesia e Cabala” (Nankin/Edusp, 2010), que aborda a obra da poeta israelense Yona Wollach (1944-1985), além de uma antologia de poemas do israelense Ronny Someck (1951), intitulada “Carta a Fernando Pessoa” (Annablume, 2015).

Depois, em “Contar a Romã” prestou homenagem ao idioma de Cervantes (1547-1616). Em 2001, publicou sua tese de doutoramento, “Dois Palhaços e uma Alcachofra — Uma Leitura do Romance ‘A Ressurreição de Adam Stein’ de Yoram Kaniuk” (Nankin), na qual discute as diferentes formas de se ver o Holocausto em estudo sobre a obra do escritor israelense Yoram Kaniuk (1930-2013). Sua tradução anterior é o volume de poemas “Terra e Paz”, do poeta israelense Yehuda Amichai (1924-2010), publicada pela Bazar do Tempo em 2018.

Também traduziu “Badenheim 1939” (2012), livro de Aharon Appelfeld (1932-2018), e participou da tradução dos poemas da poeta israelense Tal Nitzán (1960), incluídos no livro “O Ponto da Ternura” (2013). É autor ainda de “O Talmud”, tradução de trechos e estudos (1995), e organizador de “Ato de Presença: Hineni” (2005), coletânea de ensaios em homenagem à professora Rifka Berezin, da FFLCH/USP. Em 2016, publicou “Matula” (Annablume), seu sétimo livro de poesia.

Uma série de poemas hebraicos medievais e contemporâneos, traduzidos por Moacir Amâncio, saíram neste ano na monumental antologia “Pelo Tejo Vai-se Para o Mundo”, sob coordenação geral da professora Helena Buescu, da Universidade de Lisboa, publicada pela editora Tinta da China, em Portugal.

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp)/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d’El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitan ia de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Colaborador do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

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