Abacates no caixote: uma oportuna colheita poética de Vicente Humberto

“Os poemas foram colhidos ao longo de muitas estações. Passaram frio, perderam-se no vento, perfumaram-se como as flores e, é claro, procuraram sombra no verão”

Brasigóis Felício

Especial para Opção Cultural

Não conhecia Vicente Humberto até ser convidado pelo poeta a participar de um evento literário organizado por ele, e um grupo de catalanos amantes da poesia, notadamente alguns integrantes da Academia Catalana de Letras, de qual Humberto faz parte.

O convite, estendido também a colegas e amigos do poetariado, a exemplo de Valdivino Braz, Tagore Biram, Ubirajara Galli, Gabriel Nascente, Yêda Schmaltz, Salomão Sousa, e mais alguns poetas de Brasília, era do tipo que não se tem o direito de negar participação, pois que vinha ao encontro de alimentar uma prática a que este grupo de poetas goianos vinha se dedicando, em participações em concursos de poesia falada em bares, restaurantes, e em recitais em plena rua, com a vertigem da cidade indo a todo vapor, em dias chamados úteis.

Vicente Humberto e um grupo de intelectuais naturais ou vivendo em Catalão organizaram o movimento Poesia na Praça, em que poetas falavam seus poemas ao povo, postados em caminhão de grande porte, com vasta carroceria para caber muita gente.

Com farta divulgação sendo feita, em torno do recital de rua, e de shows musicais, como o do cantor e compositor Belchior, e ainda mais com a mobilização de professores e alunos do campus da UFG na cidade, o sucesso do evento foi, digamos, épico. Inesquecível para os que dele participaram.

Vicente Humberto: poeta | Foto: Reprodução

Todos os poetas convidados falaram seus poemas ao povo, em plena praça lotada e atenta às declamações do poetariado presente, sendo uma das apresentações mais aplaudidas a do poeta e engenheiro de minas Vicente Humberto, grandalhão, vozeirão de tenor, falando com grande musicalidade o poema Abacates no caixote. O povão delirava. “Bão demais da conta” — como dizem os goianos.

Na noite seguinte foi a vez da música, com um show de Belchior, com sua banda. Sucesso estrondoso, povo presente vibrando. Eu e Vicente Humberto fomos ao aeroporto de Uberlândia buscar o artista boca de cantor, e também poeta.

Durante toda a viagem, só falamos de poetas e poesia. Belchior sabia mais do que nós dois, Vicente e eu — sobre a poesia romântica e clássica, do Brasil e de Portugal. Falou, de memória, poemas de Castro Alves, Fagundes Varela e Guerra Junqueiro (remember, estávamos de carro, Vicente dirigindo o bólido, eu no banco de trás).

De lá para cá, não vi mais o Vicente, nem soube se continuou poetando, ou se sua verve e seu estro tinham sido minerados, reduzidos a pó, pela responsabilidade de comandar milhares de homens, em trabalho duro, em minas de Catalão e de outros lugares do Brasil. Acrescente-se que Vicente vinha sendo fiel à poesia desde os tempos em que estudou engenharia de minas.

Em Ouro Preto, tendo sido colega de ninguém menos do que o cantor João Bosco. Daí sua forte ligação com a música, que sobreviveu aos duros trabalhos de campo, com a poesia indo à frente, com a inspiração vindo do cerne duro da vida, da esposa e dos filhos, que foram nascendo.

“Eis senão quando”, no crepúsculo do intenso e trágico ano de 2020, recebo em minha residência um pacote, trazido pelo correio, contendo um livro muito bem editado (Editora Ficções), com o título “Abacates no Caixote”, o conhecido poema do poeta-engenheiro, filho de tradicional família goiana (os Lobo de Bela Vista), irmão de Heloísa, mulher do saudoso médico, folclorista e pintor Getúlio Pereira de Araújo).

Foi um presente e tanto, depois de quase um ano inteiro praticamente sem conhecer nem receber poesia nova, publicada pelo poetariado goiano, vez que estavam e ainda estão todos desconfiados e temerosos de passarem a fazer parte do vasto rol das vítimas do famigerado e fomigerado coronavírus.

Maioria do que se escreveu em poesia, conto ou crônica, foi publicado em páginas da internet — uma vez que o distanciamento social a todos imposto — e prontamente aceito — impossibilitou a cena comum, nesta terra em que parecem existir mais escritores do que leitores: os lançamentos literários em noites de autógrafos regadas a fartos coquetéis, patrocinados pelo bolso dos autores mais abonados, ou por empresários com alma de mecenas.

“Abacates no Caixote” é muito bom livro de poemas. Eu diria, chega ao cume da excelência. Vicente Humberto tem dicção própria, visão de mundo particular, marcada por um lirismo cultivado em leituras e benéficas influências de poetas de qualidade, brasileiros e estrangeiros. Foi um bom presente de fim de ano, representando não exatamente uma surpresa, mas uma confirmação, um atestado no sentido de colocar Vicente Humberto entre os melhores poetas da lírica goiana. E, lembremos, da terra bela-vistense de Leo Lynce, chamado de “o Príncipe dos Poetas Goianos”.

Vejam alguns momentos exemplares deste maduro e pleno abacateiro poético Vicenteano. O poema “Eros e Tânatos” começa assim: “O banco de granito da praça convida/Platão aos oitenta retocava diálogos/Tenho nas mãos todas as possibilidades/Isócrates limou quatorze anos o Panegírico/Olha que as musas todas usam e abusam/dos meus olhos infantis/”.

Na contracapa do volume vai a explicação: “Os poemas deste livro foram colhidos ao longo de muitas estações. Passaram frio, perderam-se no vento, perfumaram-se como as flores e, é claro, procuraram sombra no verão. Poesia tem seu tempo. Poesia é safra, é colheita, é reserva. Poesia tem textura, tem perfume, tem sabor”.

“Abacates no Caixote” reúne a melhor seleção de poemas que Vicente Humberto colheu nas últimas três décadas. Leia em voz alta cada poema, pois eles nasceram orais, cada palavra, cada verso, e agora se encantam nessas páginas. De fato, a oralidade, o tom declamatório, é marca patente em praticamente todos os volumes deste abacateiro poético. Não por acaso Vicente Humberto dedica um dos poemas de seu livro ao poeta Tagore Biram, que conheceu pessoalmente no recital poético de rua, que promoveu, em Catalão — haja vista ter sido Tagore um poeta expoente desta modalidade poética, a que convida a se tornar ainda mais bela quando declamada ou lida em voz alta.

Retrato com Tagore Biram:

“Envelhecer na fotografia

eu ao meu modo cheirando nicotina

e você ao seu modo cheirando conhaque

Temos pouco tempo

a poesia amarela de vez

e como é doce o paradigma

A morada é cedro ou mogno

envelhecendo em cova rasa

vamos, Tagore,

este é o último retrato”.

O poeta dedica um poema à sua filha Maria Júlia:

Ferreira Gullar em Moscou

sob a chuva miúda

São Luís do Maranhão

Ana Cristina na janela

Allen Ginsberg abre as pernas

Leminsky colhe frutos no pomar

Maria Júlia tem os olhos negros

lembram jabuticaba.

Para não alongar a prosódia, rogando aos apreciadores de boa poesia que busquem este livro como quem entrevê, advinha existir uma luz em meio à treva escura do medo reinante. Essa é uma poesia que, por sua verdade emocional, e sua justeza linguística, por vezes feridora, como lâmina de navalha afiada, vale a pena ser viajada.

Deixo-vos com o poema “Grafite”, um dos melhores deste válido, precioso e oportuno abacateiro poético:

Ok, Vicente,

inadvertidamente você leu Marques de Sade

agora sabe demarcar as terras indígenas

e conduzir os homens para as bibliotecas

trancá-los entre correntes brancas

Não faça alarde, nem todos confessam seus pecados

os muros das cidades estão grafitados de poemas

contra o Governo

Deixe que o pano caia como é próprio dos frutos

deixe que apodreçam como é fato da carne

todos os dias os açougues estão cheios

de músculos e ossos

Todas as flores exalam um perfume próprio

e se são flores, é porque nunca souberam

que existem açougues, músculos e ossos

Soube pelos jornais que Nelson Ned

apaixonou-se por Nancy Reagan

Havia em mim uma sede de conquista.

não me venham com proibições

é de vocês, poetas, o direito

de qualquer suspeita

Cicatrizes de carne,

discurso do nada

metáfora do eu

Vocês e as flores

as flores e vocês

só são flores, porque tudo significa

o enorme nada que as envolve.

P.S. A oportuna e providencial publicação dessa recolha (colheita) do silencioso e rico trabalho poético de Vicente Humberto chegou com tudo. Incluiu a musicalização de seus poemas, pelo artista Fernando Barreto, apresentada em CD muito bem produzido, com participação de uma trupe de bons músicos. CD produzido pelo músico/cantor Fernando Barreto, e gravado pelo Estúdio Caraíva, de Juiz de Fora (MG). Vale muito o prazer de ler os poemas e ouvir sua musicalização.

Brasigóis Felício é poeta, cronista, jornalista e membro da Academia Goiana de Letras. É colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.