A questão da memória no livro “A Resistência”

Narrativa do escritor Julián Fuks trabalha esse tecido fino e cheio de pequenas fissuras, que recobre a história de uma família e de um tempo

A Resistência, então, reconstrói o período de vida de uma família exilada no Brasil com ênfase nas décadas de 70 e 80 | Foto: Reprodução/Companhia das Letras

Andressa Barichello**

Especial para o Jornal Opção

Em A Resistência temos um narrador que conta, ou ao menos se dispõe a contar, sobre uma condição de seu irmão: filho adotivo. O tom de dúvida sobre qual história é ou será realmente contada tem a ver com a hesitação que se deixa entrever nas primeiras páginas, quando o narrador-personagem faz uma reflexão sobre qual pode ser a melhor forma de se referir à chegada desse irmão à família. Aos poucos, a procura pelas melhores palavras para contar o que se quer contar dão lugar a uma entrega às palavras possíveis, as que comparecem. A narrativa, aliás, é também uma história sobre a possibilidade de comparecimento – ainda quando num cenário de exílio, reclusão ou recusa.

Uma vez que o irmão adotivo é o irmão mais velho, aquilo que é contado pelo narrador-personagem se estrutura com base em lembranças próprias e em histórias que o antecedem, sobre quais já não se pode saber exatamente com quais palavras lhes foram transmitidas. Com as palavras que ficaram para si, o narrador-personagem não disfarça o seu olhar parcial diante de um cenário cuja imensidão desafiam o alcance da palavra: a perseguição política sofrida pelos seus pais durante a ditadura militar argentina. A parcialidade do narrador-personagem se refere ao seu lugar de filho e também à necessidade de completar com suas próprias palavras algumas lacunas fruto da realidade autoritária da qual os pais são sobreviventes.

A Resistência, então, reconstrói o período de vida de uma família exilada no Brasil com ênfase nas décadas de 70 e 80. Traz notícias de um período histórico conturbado e reaviva a memória da repressão: a tortura e os crimes políticos não estão tão distantes do tempo presente. A leitura também nos dá a perceber que o público e o privado são instâncias que se confundem e integram a psique de todas as pessoas, de geração em geração, como uma herança que para encontrar destino precisa, antes, ser acolhida.

A interlocução com a psicanálise traz bom humor ao livro. Afinal, por mais se trate de um drama, a precariedade que os personagens revelam diante de seus conflitos — inclusive a mãe, psiquiatra e psicanalista — tem o efeito de um chiste. A ideia de que diante da própria experiência as resistências entendidas como defesas podem ser máximas faz um paralelo com os sentidos que a palavra encontra na linguagem comum, especialmente a oposição e a desobediência a uma suposta autoridade.

Título: A Resistência

Autora: Julián Fuks

Editora: Companhia das Letras

Valor: R$ 35,71

O romance é exímio em sinalizar a resistência humana em ir de e ao encontro à própria história – aquela que nos foi contada e da qual desejamos fazer parte, na qual precisamos encontrar um lugar. O narrador-personagem conta uma história enquanto conta o que talvez ainda nem saiba sobre si mesmo. Lança-se à escrita como um exercício que dá lugar ao surgimento de cenas imprevistas, fragmentos que compõem a imagem de um lapso paralelo: tudo que precisa ser dito parece estar sempre à margem do que a consciência alcança, aquém da lembrança e do nascimento, a constituir um outro paralelo. Paralelo como a ideia de uma caminhada feita em par, progressão proporcional, do que vai equidistante e análogo.

Movido pela certeza de que o irmão foi adotado pelos pais é que o narrador pode iniciar sua busca, sempre do lado de fora, no apartamento onde a família viveu na Argentina e, assim, acomodar lembranças.

Na inexistência de um bilhete que, guardado na gaveta de sua mãe possa confirmar suas origens e um lugar, é a partir do lugar do outro e de um seu silencio perante as “Avós da Praça de Maio” que o narrador-personagem poderá escutar que a palavra adoção dá também conta de outros sentidos. Um bilhete e um livro a compartilhar uma gaveta, como dois irmãos a compartilhar um quarto?

** Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” (Scortecci, 2014). É co-fundadora do projeto fotoverbe-se.com. Escreve resenhas e perfis

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Adalberto de Queiroz

Esse livro é incensado, mas é muito ruim.