A nostalgia da infância na poesia de Salomão Sousa 

A nostalgia da infância é o centro da pulsão poética de Salomão Sousa, como se pode comprovar em qualquer um dos poemas reunidos em “Descolagem”

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

“Descolagem” (Goiânia, Editora Kelps, 2016), um dos mais recentes livros lançados pelo poeta Salomão Sousa (1952), traz 44 poemas — oito deles traduzidos para o espanhol — que, no conjunto, constituem um movimento de regresso à infância e à inocência real ou sonhada de quem nasceu e viveu seus primeiros anos na zona rural de Silvânia, pequena cidade da região central do Estado de Goiás que ainda hoje sobrevive da agricultura e da pecuária de leite, embora já disponha de algumas indústrias de cerâmica.

Para quem gosta de História, é de se lembrar que a cidade nasceu como arraial de Nosso Senhor do Bonfim, por volta de 1774, com a descoberta de lavras de ouro, a uma época em que o governador e capitão-general d. Luís Antônio de Sousa Botelho, o morgado de Mateus, encerrava o seu longo mandato de dez anos (1765-1775) à frente da capitania de São Paulo, depois de um período em que muitas bandeiras de paulistas haviam sido despachadas para o sertão com o objetivo de garantir os domínios portugueses diante dos vizinhos espanhóis.

Foi só em 1964, quando já andava ao redor dos 12 anos de idade, que o futuro poeta deixou a vivência direta com a natureza para viver na zona urbana de Silvânia e continuar o ensino fundamental. Na pequena cidade, que hoje tem cerca de 20 mil habitantes, ele teria a oportunidade de entrar em contato com a poesia no acervo da biblioteca pública do município. Depois, em 1971, transferiu-se para Brasília, onde fez o Científico num colégio de Taguatinga Sul e o curso de Jornalismo no Centro Universitário de Brasília (Ceub). Em 1973, por concurso, ingressou no funcionalismo público federal, trabalhando na Fundação Educacional do Distrito Federal e, a partir de 1977, no Ministério da Fazenda.

Desde essa época, porém, a vocação para poeta já lhe havia explodido na alma, levando-o a participar de movimentos culturais, como o de Poesia Marginal, e até publicar “Esbarros”, pequeno folheto. Até que, em 1979, publicou “A Moenda dos Dias” (Editora Coordenada), seu primeiro livro, que traz, segundo o testemunho do poeta e resenhista Ronaldo Cagiano, “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original e, portanto, moderna”, conforme citação de João Carlos Taveira no prefácio que escreveu para “Descolagem”. E m 1980, saiu uma nova edição de seu primeiro livro, com novos poemas acrescidos, com o título “A Moenda dos Dias/O Susto de Viver (Civilização Brasileira).

Estilo despojado e simples

Salomão Sousa, poeta e crítico literário, ao lado do poeta e prosador Brasigóis Felício, em Goiânia | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Como observa Taveira no prefácio, a obra de Salomão Sousa “dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira de forma muito contundente”. Como prova disso, o prefaciador lembra uma resenha de “A Moenda dos Dias” feita pela professora Noami Hoki Moniz, diretora de Estudos Portugueses da Universidade de Georgetown, Estados Unidos, publicada na “Revista Iberoamericana”, da Universidade de Pittsburgh, em 1979, à época em que a articulista fazia o curso de mestrado na Universidade Harvard. Nesse artigo, a professora dizia que “ele [Salomão Sousa] evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas”.

De fato, a nostalgia da infância é o centro da pulsão poética de Salomão Sousa, como se pode comprovar em qualquer um dos poemas reunidos em Descolagem. A título de exemplo, veja-se este excerto: “Desperdício de um trem/ a levar apenas o próprio ferro/ Treme aos solavancos treme/ em tantos choques de pranchas de lata/ Vê se um governante/ carrega um trem!/ Orizona abandonada perto da linha!/ Bonfim no bagaço/ em carregamentos de barro/ Toda abastança não passa/ de uma exploração daninha/ O trem deixou de levar o arrozal/ e já nem somos os meninos (…)” (p. 36).

Como se pode constatar, Salomão Sousa é um poeta moderno, que recorre ao verso livre e vai além: seus poemas de lavra mais recente não recebem títulos ou os títulos são tirados da primeira frase da peça poética; a pontuação nem sempre ocorre, ou seja, as frases não são divididas por vírgulas e tampouco por ponto final; e as estrofes não seguem a uniformidade comum nos poemas tradicionais. Tudo isso torna o fluxo de pensamento contínuo, como se as imagens passassem para a página do mesmo modo como brotam no cérebro na medida exata da evocação da infância, essa busca interminável de um passado perdido num labirinto de cenas quase sempre campestres. Veja-se mais este poema: “E há os que ficam/ dentro da margaça/ apenas carregandos fardos/ E há os que são pura massa/ sem nenhuma levitação/ que lembre a graça/ E há os que em estado/ de nenhuma graça/ nem se sentem desgraçados/ E há os que silenciam/ a mágica da graça/ vestidos com suas fadas/ E há os que arregaçados/ de tanto levar coiçadas/ recomeçam para alcançar a graça” (p. 60).

Outros livros

Salomão Sousa tem poemas também na “Antologia da Nova Poesia Brasileira” (1992), organizada pela poeta Olga Savary, e em “A Poesia Goiana do Século XX”, organizada por Assis Brasil. Foi um dos 47 poetas incluídos no número que a revista “Anto”, de Portugal, dedicou, em 1998, à literatura brasileira, em comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil.

Organizou antologias, entre as quais “Deste Planalto Central — Poetas de Brasília” (2008), como parte da I Bienal Internacional de Poesia da Biblioteca Nacional de Brasília, “Em Canto Cerrado” (de poesia) e “Conto Candango”, com escritores de Brasília. Obteve o Prêmio Capital Nacional do Ano 1998 de Crítica Literária. A União Brasileira dos Escritores (UBE), Seção de Goiás, concedeu-lhe, em 2011, o Troféu Tiokô como personalidade goiana que mais se destacou fora do Estado no biênio 2010-2011.

É autor de “Falo” (Thesaurus Editora, 1986); “Criação de Lodo” (edição de autor, 1993); “Caderno de Desapontamentos” (edição de autor, 1994); “Estoque de relâmpagos”, Prêmio Brasília de Produção Literária (2002); “Ruínas ao Sol”, Prêmio Goyaz de Poesia (7Letras, 2006); “Safra quebrada” (reunião de livros anteriores e de dois inéditos: “Marimbondo” e “Gleba dos Excluídos” (Fundo de Apoio à Cultura, 2007); “Momento Crítico, Textos Críticos, Crônicas e Aforismos” (Thesaurus Editora, 2008); “Vagem de Vidro” (Thesaurus Editora, 2013); “Desmanche I” (2018); e “Poética e Andorinhas” (Brasília, 2018), entre outros.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo” (Nova Fronteira), e “Bocage — O Perfil Perdido” (Caminho).

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