A literatura nos espaços urbanos

Romance de Jorge Amado, “Tieta do Agreste”, que fez 40 anos em 2017, continua em alta conta em sua proposta de contrapor os sonhos e os desejos de quem mora no interior em relação aos grandes centros

Romance, clássico da nossa literatura, conta a história de Tieta, que expulsa de Santana do Agreste ainda jovem por ser sexualmente libertária, vai ganhar a vida na capital paulista | Imagem: Divulgação

Literatura e cidade é um tema apaixonante para quem gosta de tramas povoadas de almas urbanas. Primeiro porque toda história requerer espaço e tempo. As únicas que abandonaram essa premissa narrativa, foram as derivadas do experimento francês chamado nouveau roman, que a rigor foram obliteradas pelo próprio tempo.

No Brasil, São Paulo e Rio de Ja­nei­ro são os dois espaços mais revisitados para a ambientação de histórias romanescas. Em matéria de grandes ro­mances, a antiga capital federal ganha da seara paulistana, porque tem Machado de Assis e Lima Bar­reto, para ficar no básico da glória.
Mas São Paulo também tem suas relíquias. Mais recentemente, uma das obras luminosas sobre seu espaço é a de Luiz Rufatto, com romances como “Eles Eram Muitos Cavalos” e “Inferno Provisório”.

Em tempos recuados, quem fez o elogio a capital paulista foi o escritor baiano Jorge Amado com um ro­mance robusto, “Tieta do Agreste”, cuja história se passa no agreste baiano, mas que mostra São Paulo como fio condutor entre a modernidade exuberante dos grandes centros e o rico imaginário do interior, desejando a vida metropolitana, sonhando com o glamour de luzes e frenesis.

Vida glamorosa

No ano passado, o romance que tem um título tão extenso quanto seu número de páginas (656) fez 40 anos. “Tieta do Agreste – Pastora de Cabras ou a Volta da Filha Pródiga, Melodramático Folhetim em Cinco Sensacionais Episódios e Comovente Epílogo: Emoção e Suspense!” conta a história de Tieta, que expulsa de Santana do Agreste, na Bahia, ainda jovem por ser sexualmente libertária, vai ganhar a vida na capital paulista.

Escorraçada de casa, Tieta some no mundo. Muitos anos depois, descobrem que ela está em São Paulo, arrumando as malas para voltar à terra natal. O romance estabelece essa ponte entre a ambientação física da trama, na década de 1960, em Santana do Agreste, e as aparições da capital paulista, ora geograficamente, ora simbolicamente, tanto pelas citações de Tieta, quanto pelas fantasias de Elisa, irmã mais nova da protagonista, que sonha em viver uma vida glamorosa no Sul.

São Paulo, portanto, aparece neste romance de Jorge Amado como o lugar da riqueza e do luxo, entre pinceladas de imagens-chave da capital, lugares e objetos ícones, como a Praça da Sé, o Jóquei Clube, o jornal “O Estado de S. Paulo”, e vez por outra as agruras do progresso.
O fascínio por São Paulo e a repulsa pelas consequências nefastas do progresso também aparecem no romance, como em uma conversa entre dona Carmosina e o Comandante Dário sobre a possível instalação de uma fábrica retirada de São Paulo para ser instalada em Santana do Agreste.

A ameaça paira sobre o sossego da cidadezinha, porque a fábrica traria poluição. “É sempre assim”, diz o Comandante, “o que é bom, fica no Sul. Para o Nordeste sobra o refugo.” E Dona Carmosina replica: “É que em São Paulo, Comandante, a poluição já está de uma forma que ninguém suporta mais.”

O povo de Santana do Agreste assiste à chegada de Tieta e de sua suposta sobrinha Leonora vindas da capital paulista, e o que eles veem desfilar sob seus olhos representa a própria atmosfera de São Paulo.

As minissaias, os “cafetãs trans­parentes”, a pele bem tratada das duas mulheres, o estilo de se vestir, de andar, o sotaque paulistano de Leonora, tudo para os moradores de Santana do Agreste é visto como o legítimo way of life do Sul.

Prostituta de luxo

O que o romance de Jorge Amado trazia de novo como representação do imigrante em São Paulo, no entanto, era uma ironia, ou uma verdade enviesada, estereotipada, em que o imigrante que vai atrás de uma nova vida na capital paulista, ao chegar lá, se perde e não consegue realizar seu sonho de se integrar à sociedade, a menos que venda seu corpo em um prostíbulo. Quem se mudou da cidadezinha e venceu por outros meios fica esmaecido na narrativa, vira citação en passant.

Tieta venceu, mas, para tanto, teve de se vender. Virou prostituta de luxo (sorte a sua). Há um certo machismo na visão do autor que prevalece em certos rincões. Quem representa o imigrante bem sucedido em São Paulo é Tieta. Modesto Pires, da alta sociedade santanense, visita Tieta recém-chegada da capital e a observa: “Admirou-lhe as carnes e a imponência, o requinte da peruca acaju, a saia aberta de um lado, refinamentos devidos à posição social e ao trato de São Paulo”.

O mesmo Modesto Pires fala de São Paulo como o lugar da grandiosidade, imagem associada entre a cidade e a mulher. “São Paulo, dona Antonieta, é uma grandeza, com aquele parque industrial, aquele movimento, aqueles edifícios, uma potência.”

Parece subjazer aí um sugestão autoral, segundo a qual, São Paulo, ao representar o luxo e a riqueza, representa o próprio capitalismo, pelo menos o capitalismo brasileiro, e de quebra, o sentimento libertário, onde o dinheiro é quem faz a diferença. A pujança está nas carnes de Tieta e nos parques fabris. São Paulo é onde tudo se compra e tudo se vende.

E é assim que Elisa, irmã mais nova de Tieta, também começa a vislumbrar o luxo e a vitória do imigrante em São Paulo, onde “a vida é digna de se viver, repleta de novidades e de tentações”.

Hoje, se fôssemos fazer um paralelo da realidade da busca pelo glamour pelos olhos de Jorge Amado, não mudaríamos muita coisa, a não ser a geografia. Londres, Paris e Nova York talvez sejam as novas São Paulo, mas as Tietas continuam a enfeitar o mundo e a encantar as noites, povoando os sonhos dos que não ousam se mexer para mais longe do que o espaço que separa seu quintal de seu túmulo.

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