A escritura única e demiúrgica de Felipe Franco Munhoz

Romance é uma sequência de palimpsestos; o autor vai retirando de suas camadas criativas a pátina do tempo e isso se traduz-se num mosaico de sensações

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção

Desde seu primeiro romance “Mentiras” (Nós, 208 páginas), de 2016, lançado aos 26 anos, Felipe Franco Munhoz, paranaense radicado em São Paulo, chamou a atenção por apresentar uma narrativa em que originalidade e ousadia pontuaram seu début literário. Com a segurança, maturidade e domínio raros num estreante, o autor realizou um sofisticado diálogo com a obra de Philip Roth, na expressão de um personagem que flertava com as histórias do escritor americano, numa interlocução primorosa em que a experiência do duplo em literatura foi levada, com habilidade, ao extremo.

Essa via intertextual e metalinguística encontra novas ressonâncias e atualização em seu segundo livro, “Identidades” (Nós, 186 páginas), de 2018, obra recepcionada com entusiasmo pela crítica. Se naquela primeira tentativa de exploração de universos temáticos e semânticos de um autor que é sua referência e inspiração, Munhoz conseguiu projetar sua própria voz e autenticidade, sem derrapar para o pastiche ou no paralelismo, construindo uma esmerada dicção, em “Identidades” esse processo se aperfeiçoa e agudiza, realçando a peculiaridade e sofisticação um estilo narrativo que não encontra similar na literatura contemporânea brasileira.

Nessa nova incursão ficcional, sua prosa que incorpora a inegável herança de suas leituras e influências de seus gurus, pois que bebe em muitas fontes e percorre outros territórios linguísticos. Felipe recorre a muitas vertentes literárias e processos de construção, da palavra à imagem, do verso lírico aos domínios do drama teatral, da inflexão filosófica e do acento crítico às experimentações, da pauta musical às rupturas formais, um pout pourri ficcional de confecção híbrida, explorando com desenvoltura todas as possibilidades de comunicação e metamorfoses da palavra, fugindo à costumeira e tradicional estilística. A luz dessa linguagem deriva-se de uma percepção clara das suas tênues fronteiras, espectro da sociedade multissensorial, num mundo em permanente disfunção, com suas dicotomias e ausência de linearidade, tão bem representados na sua assinatura artística.

O leitor depara-se com uma escrita versátil e vertiginosa, nada ortodoxa, em que os diversos gêneros se alternam nos planos do romance, criando uma obra de inusitada arquitetura e plasticidade verbal e visual, dadas as inserções gráficas, partituras musicais, grafismos e evocações imagéticas e outras sutilezas de sua oficina.

Se não é fácil definir a matriz dominante nesse trabalho com essa pluralidade de enfoques, por conta da ampliação do espectro estrutural do romance (aqui pontuado em clave poética na sua configuração), no fundo há um chacoalhar ou uma desconstrução do próprio gênero — vai da prosa à música; da pintura ao teatro — também não é difícil perceber que tais elementos nascem de uma íntima relação do autor com o universo dos signos. Evidentes a sua articulação e manejo de uma sintaxe variada e sua familiaridade com a cultura clássica, principalmente com as mitologias greco-romanas, pois autor e obra parecem viver em plena relação epifânica, numa linguagem que culmina no êxtase da palavra, esta se consagrando como personagem intrínseca.

Felipe Franco Munhoz: voz única na literatura brasileira | Foto: Helena Franco

“Identidades” lê-se como uma sequência de palimpsestos, percebe-se que o autor vai retirando de suas camadas criativas a pátina do tempo e isso se traduz-se num mosaico de sensações e experimentações ao longo do texto, como numa procura obsessiva por essa(s) identidades(s) submersas, escondidas nos múltiplos eus dos protagonistas, Camila/Margarida, ou próprio Mefistófeles nelas redivivo. Essa linha de argumentação de que se utiliza o autor para fazer a transcriação desses mitos é fruto de uma estreita relação de quem convive com uma miríade de personagens e nelas é que se inquire no palco de seu íntimo teatro de representações: “Suposto Mefistófeles pergunta-se Quem eu sou? Quem eu sou? Quem eu sou? O carro sai. Apagam-se as luzes – mas desta vez o palco não desaparece na escuridão porque fulgura o globo luminoso. Com a função de sugerir que a cena (a memória) desenrola-se fora de São Paulo. Na metade do poema Passados 3. Paris, Camila deixará seu esconderijo para juntar-se magoada?, enciumada?, a Suposto Mefistofeles; observando o jovem casal.”

A passagem estética (ou também ética) por essas vivências de um passado cultural e ancestral da História da literatura e da humanidade vai construindo um caleidoscópio de registros e referencialidades, sobretudo funcionando como metáfora da vida e da sociedade contemporâneas, quando as  crises identitárias estão na ordem do dia.

Em “Identidades” o mito de Fausto e Mefistófeles ganha dimensão nessa releitura para a atualidade diante dessas questões emergentes de gênero e num protagonismo associado aos nossos dilemas, instabilidades e distopias tão acentuados e prenhes na vida social, política, econômica e afetiva, seja nas instâncias pessoais, seja no paradoxal universo coletivo.

Em cada página temos simbolizado um mundo abrupto, com suas assimetrias e descontinuidades,  com seus fenômenos de dissonância e caos; e isso é preferencialmente uma tática da própria linguagem de Munhoz, ao ricochetear o desconforto da civilização dita moderna. Isso pode ser aferido no embalo de sua escrita, nos movimentos e sinuosidades que o texto sugere, levando o leitor a uma espécie de transe, tanto que de uma linha para outra pode mudar de idioma, de voz, de ritmo, de encadeamento frasal (por exemplo versos escritos ao contrário, notas de rodapé que se insinuam como o próprio capítulo), numa alternância de palcos, notas, cenas, cenários, fotografias e miragens.

Os totens culturais, intelectuais e literários do autor vão emergindo numa intensa simbiose artística: Borges, Goethe, Antonioni, Van Gogh, Boticelli, Dostoiévski, Blake, Miles Davis, Hermeto Pascoal, Pollock, Faulkner, Milton Nascimento etc). Autoprojeções que se escalonam para reverberar a inquietação que marca a essência do livro, construído como se fosse um puzzle temático, dado o caráter multifacético, polifônico, polissêmico que projeta, transitando entre São Paulo, Macau, Berlim, Paris e outros recortes geográficos e psicológicos, reais ou imaginários, oferecendo ao leitor o verdadeiro prazer de uma obra impactante.

“Identidades” converte-se numa escritura visceral que vem, em boa hora, profanar o lugar bem comportado da literatura brasileira, sempre povoada pelo mais do mesmo, arejando esse cenário editorial e literário tão contaminado pelos fetiches do deus mercado, permeado de indulgências e camuflagens.  Seu radicalismo formal e a riqueza de seu conteúdo, deflagrando um mergulho escrutinador nos dilemas existenciais, vem decodificar nossas perplexidades por meio de uma linguagem acentuadamente profética e com uma carga crítica que desafia e provoca  nossa instabilidade como seres e como artistas, alcançando uma estatura demiúrgica com o sopro de seu tenso e denso repertório criativo.

Ronaldo Cagiano é escritor, publicou “Ele Não Moram Mais Aqui” (Prêmio Jabuti de Contos 2016) e vive em Portugal. É colaborador do Jornal Opção.

Trecho

Meu peito-Pompeia, corredores curvos do Copan

(Quem eu sou?).

Meu pântano cinza, congelado, Pollock retratou

(quem eu sou?)

Coloco-me acima do restrito aspecto Jovem punk.

 

Decifra-me, a tela da pele –

disseca-me, duplos, caverna;

exibe-me, cores internas!

 

(quem eu sou?)

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