A construção poética de Napoleão Valadares

Na sua construção poética, o bardo optou pela narrativa épica em que funde a linguagem clássica à linguagem popular

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.

Vamos, pois, ao livro. Trata-se de “Delírio Lírico”, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, em 2008, e lançado em Brasília em novembro daquele mesmo ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Troia (século XIII a.C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.

Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de “Os Lusíadas” a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.

A forma e os ossos do ofício

Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heroico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de “enjambement” — o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria”.)

Napoleão Valadares: salta aos olhos e aos sentidos a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão | Foto: Reprodução

A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços linguísticos e semânticos. E apresenta — “et pour cause” — um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho — para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas –, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido…

Perfeição simétrica provoca percepção de detalhes     

Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII — sobre Shakespeare — ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII — num encontro com Dostoiévski e Tolstói — pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estroina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.

Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.

“Delírio Lírico” é, portanto, leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.

Dados biográficos de Napoleão Valadares

Depois de frequentar escolas rurais, Napoleão Valadares estudou no Grupo Escolar Major Saint-Clair, em Arinos (MG). Mudou-se com a família para Formosa (GO), completando o curso primário na Escola Paroquial Nossa Senhora da Conceição, que funcionava no Ginásio Arquidiocesano do Planalto. De 1962 a 1965, fez o curso ginasial no Ginásio São João, da cidade são-franciscana de Januária (MG). Em Brasília, cursou o científico no Centro de Ensino Médio Elefante Branco e ingressou na UnB (Universidade de Brasília), onde fez o curso de Direito, colando grau em 20 de dezembro de 1972.

Quando universitário, fundou, com alguns colegas, o periódico “Correio do Vale”, que circulou nas cidades de Arinos e Buritis, em Minas Gerais. Um dos fundadores e presidente da Associação dos Urucuianos em Brasília, que fez editar o “Jornal do Urucuia”. Presidiu também a Associação Nacional de Escritores.

Exerceu os cargos de Assistente Jurídico da União, Diretor de Secretaria da Justiça Federal, Assessor de Juiz do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região e Advogado da União.

Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores, ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, à Academia de Letras do Brasil, à Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco.

Obra publicada

“Os Personagens de Grande Sertão: Veredas”, 1982, André Quicé Editor.

“Planalto em Poesia” (organização e participação), 1987, Thesaurus Editora.

“Contos Correntes” (organização e participação), 1988, Thesaurus Editora.

“Urucuia” (romance), 1990, Thesaurus Editora.

“Dicionário de Escritores de Brasília”, 1994, 2.ª ed. 2003; 3.ª ed. 2012, André Quicé Editor.

“Resposta às Cartas Chilenas” (poema), 1998, Thesaurus Editora.

“De Gregório a Drummond” (organização), 1999, André Quicé Editor.

“Remanso” (romance), 2000, André Quicé Editor.

“Pensamentos da Literatura Brasileira”, 2002, André Quicé Editor.

“Chuvisco” (haicais), 2003, André Quicé Editor.

“Antologia de Haicais Brasileiros” (organização e participação), 2003, André Quicé Editor.

“Campos Gerais” (contos), 2004, André Quicé Editor.

“Descendentes de Pedro Cordeiro”, 2004, André Quicé Editor.

“Passagens da Minha Aldeia” (crônicas), 2007, Editora Kelps.

“Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – Patronos” (organização e participação), 2007, Artecor Gráfica e Editora.

“Delírio Lírico” (poema), 2008, Edições Galo Branco.

“Vida Literária” (teatro), 2009, André Quicé Editor.

“Animal Político” (teatro), 2009, André Quicé Editor.

“Estesia” (triolés), 2010, André Quicé Editor.

“Lembranças” (memórias), 2011, André Quicé Editor.

“Romanos” (teatro), 2012, André Quicé Editor.

“ANE – Cinquenta Anos” (org. e participação), 2013, André Quicé Editor.

“História de Arinos”, 2013, 2.ª ed. 2015, 3.ª ed. 2017, André Quicé Editor.

“Do Sertão” (contos), 2016, André Quicé Editor.

“Nomes”, 2017, André Quicé Editor.

“Caminhos Diversos”, 2018, André Quicé Editor.

“Frases da História” (organização), 2019, André Quicé Editor.

“Máximas e Mínimas”, 2019, André Quicé Editor.

“Fantasia” (poemas), 2020, André Quicé Editor.

João Carlos Taveira é poeta e crítico. É colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.