A cidade está tranquila

O livro “A Psicanálise nas Tramas da Cidade” traz uma série de debates sobre a subjetividade no cenário urbano, por entender que, se o homem é a própria urbe, tende a ser a pluralidade latejando no inconsciente o disparate do mundo

A cidade cria um tipo de espírito coletivo que precisa de ajuda; Goiânia não fica fora disso, e às vezes pode parecer tranquila numa manhã de domingo, mas está pulsando e girando | Foto: Gilberto G. Pereira

Quem olha Goiânia em um rápido pa­norama do alto de um prédio no amanhecer de domingo, pode pensar que a cidade está tranquila. Mas dentro dela e em seus arredores, no centro, nos bairros nobres e na periferia, continua pulsando um sem número de conflitos e conspirações que resultam em acordo ou em confrontos na posteridade imediata.

Essa turbulência interna às vezes ocorre distante de nosso olhar, mas pode acontecer de estarmos envolvidos nela. Afinal, fazemos parte das neuroses da cidade, somos seus produtores constantes. A psicanálise quase não se envolve com isso diretamente. Raramente vemos psicanalistas indo à TV ou a jornais para falar dos conflitos coletivos. Sociólogos, historiadores e filósofos geralmente aparecem mais.

Talvez isso aconteça porque a psicanálise cuida basicamente de indivíduos, embora tente jogar com a ideia de uma coletividade em frangalhos. Afinal, Freud inventou a psicanálise e o conceito de inconsciente para explicar e resolver conflitos psíquicos, na somatória de uma subjetividade dolorida.

Mas isso parece estar mudando. Já há muitos psicanalistas preocupados com os fenômenos sociais derivados de sintomas que são objetos da psicanálise. Os argumentos básicos da iniciativa de observar a cidade é que são interessantes. A cidade está mais que dentro de nós. Somos a cidade, e não só uma. Somos muitas cidades.

Somos nós

Por outro lado, a cidade cria um tipo de espírito coletivo que precisa de ajuda urgente. Em casa, o cidadão é um, aparentemente tranquilo e amoroso. Levanta, toma café, conversa com a família, traça os objetivos do dia. Mas ao pôr o pé para fora do portão já é outro. É outro, como tantos iguais a ele que inundam a cidade de uma perspectiva de estranhamento. Somos nós.

O contrário também pode ocorrer. E aí trata-se do objeto da psicanálise convencional. O cidadão carrega nas ruas um rosto límpido e tranquilo, mas em casa espanca a família.

Os leigos no assunto somos capazes de ver na escuridão que nos cerca usando a mínima lanterna cognoscitiva que nos coube, com a ajuda dos livros. Por isso, “A Psicanálise nas Tramas da Cidade” (Casa do Psicólogo, 2009), de Bernardo Tanis e Magda Guimarães Khouri (Org.), em que vários autores debatem essas questões, é iluminador.

O livro nasceu de um projeto homônimo, desenvolvido em parceria da Federação de Psicanálise Latino-Americana (Fepal) com a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), em que seus membros discutiam “a subjetividade no cenário urbano das grandes cidades”.

Livro nos mostra que a cidade é o lugar do eu e do outro, e o outro é tão plural quanto o eu, e tudo se transforma em um jogo de espelhos sem fim

A questão do outro

O uso da terapia, mesmo individual, é para poucos. Logo, falar dos conflitos urbanos coletivos é um passo para se buscarem espaços que contemplem políticas reais de ajuda à cidade. Essa atitude parte do pressuposto de que preocupar-se com o outro é pre­ocupar-se consigo mesmo, de algum modo.

“A questão do outro, da alteridade, está na raiz do processo da constituição subjetiva do humano. Com o outro e através do outro somos lançados para os desafios éticos e mo­rais inerentes à cultura”, diz Bernardo Tanis.

Se a cultura nos molda, pondera Tanis, “o que dizer da cidade que, como expressão territorial e demográfica da mesma, habitamos e nos abita internamente.” Todos, inclusive o analista, cultivamos e carregamos a cidade dentro de nós.

E se não podemos dizer que o homem é uma ilha, devemos afirmar categoricamente que o homem é uma cidade, mas não qualquer uma, e não só a que ele habita, mas várias, incluindo as que ele visitou, as que ele sonha em visitar, as que ele leu em livros, viu em filmes, em fotos, e as que ele ouviu falar apenas, como num vertiginoso torvelino de Italo Calvino.

Parafraseando o poema de Edgar Allan Poe, sobre o “sonho dentro de um sonho”, o homem é uma cidade dentro de uma cidade, dentro de outra cidade onde vários mundos se exploram, criando conflitos e acertos. A cidade é o lugar do eu e do outro, e o outro é tão plural quanto o eu. É um jogo de espelhos sem fim.

Os seres que habitam uma cidade somam “o conjunto dos outros significativo (os parentes, os amigos, os amados, os inimigos, os odiados) e os outros não significativos, objeto de nossa indiferença e de nosso interesse solidário”, conforme observa a psicanalista argentina Alcira Mariam Alizade, no texto “La Ciudad Interior y los Otros (Diferencias-Indiferencias).”

Se o homem é uma cidade, ele tende a ser essa pluralidade, ou pelos menos tende a conviver com tudo isso buzinando de algum modo em sua consciência, latejando no inconsciente o disparate do mundo. “Cada cidade que habitamos e que nos habita é construída, assim, a partir da trama de pessoas, situações, relações, lembranças e vivências”, diz Cláudio Laks Eizirik, em seu texto “A Presença da Cidade no Analista”, um dos primeiros do livro.

Experiência da diferença

“A Psicanálise nas Tramas da Cidade” tem muitas variáveis interessantes. Muitos autores, psicanalistas ou não, estão no livro para dizer o que sentem ou pensam sobre a cidade. O crítico Manoel da Costa Pinto, por exemplo, fala da estética do resto, que ele observou na atuação do artista plástico Zezão (José Augusto Amaro Capela), no documentário “No Traço do Invisível”, de Laura Faerman e Marília Scharlach.

Zezão se movimenta pela cidade de São Paulo em busca de “uma experiência da diferença, da singularidade, que jamais ocorre”, e jamais ocorre porque a experiência da sociedade do espetáculo não tem materialidade. O que Zezão faz, então, é ocupar o espaço ignorado pelas utopias civilizatórias, que é o que Da Costa Pinto chama de estética do resto.

Cidade, subjetividade e poesia, a questão da invisibilidade, da juventude, do ritmo, das narrativas, da sensualidade e do erotismo, a questão do medo, tudo isso é tratado nesse livro de fôlego, que coloca a cidade no divã e extrai do olhar que se lança a ela o que há de preocupação humana, o que há de vida e de tormento no ambiente plural.

Essas questões são mais ou menos as mesmas nas configurações urbanas de todas as cidades do mundo. Talvez o nível de riqueza e o modo como se encaram os conflitos reconfigurem algumas geografias, mas as abordagens que encontramos em “A Psicanálise nas Tramas da Cidade” seguramente se referem a todas as cidades da América Latina.

Goiânia não fica fora disso. Ela às vezes pode parecer tranquila numa manhã de domingo, principalmente para quem se refugia no alto de um prédio de algum bairro seguro. Mas a cidade está pulsando. A cidade está pulsando e girando, em todas as suas tramas.

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