A Bíblia como mito dos mitos

Francisco Escorsim discute o tema “A Bíblia e a Literatura”

“Não há como entender literatura sem a base imaginativa que os mitos fornecem”, afirma Francisco Escorsim

Professor e pesquisador independente, Francisco Escorsim trabalha com a literatura no sentido de uma educação da imaginação e formação do imaginário, ministrando aulas particulares, cursos, oficinas de leitura e proferindo palestras sobre esses temas. É também escritor, colunista do jornal Gazeta do Povo e um dos autores do projeto Os Náufragos. Escorsim foi um dos participantes do Congresso de Literatura Católica, realizado em agosto deste ano, onde abordou o tema “A Bíblia e a Literatura”. A palestra e outros temas relacionados foram assunto desta entrevista exclusiva para o Jornal Opção.

Adalberto de Queiroz – O sr. recentemente deu uma conferência sobre o tema “A Bíblia e a Literatura”. Por que as novas gerações devem ser despertadas para este tipo de consideração por um Livro entre os livros?

Francisco Escorsim – Precisam ser despertadas para a literatura, antes de tudo. O desafio maior hoje é este. Mas, em despertando, é indispensável destacar a importância da Bíblia. Simples­mente porque não há como entender literatura sem a base imaginativa que os mitos fornecem e, de todos, a Bíblia é o maior e mais importante. E como prova da necessidade absoluta disso aponto o fato facilmente verificável dos que torceram o nariz ao ler essa associação entre mito e Bíblia. Ainda impera no imaginário a noção de que os mitos são uma grande mentira, quando é o contrário disso. Para a literatura ocidental, a Bíblia e os mitos gregos formam o continente onde aquela nasceu, cresce e perdura.

O sr. fala em densidade, valor e profundidade que o leitor católico pode descobrir se ampliar a visão do Livro para aspectos propriamente, digamos, literários. Como isto pode acontecer?

Com um olhar de criança. Quan­do algo parece inverossímil a criança questiona, ela quer entender, e a Bíblia já no primeiro capítulo do Gênesis nos desnorteia. Por exemplo, como pode a terra estar informe e vazia se tinha abismo e água? Se tem abismo alguma forma há de ter; se tem água, vazia não está. Como entender isso? Olhar de criança significa um olhar de curiosidade maravilhada, não de suspeita maliciosa. Mas a melhor forma de responder sua pergunta é recomendar a leitura de “O menino que conheceu Jesus”, de Immaculée Ilibagiza, que conta a história verdadeira de Segatashya de Kibeho, que era um pagão, desconhecendo tudo de religião e nunca tinha ouvido falar de Jesus Cristo até que Este lhe apareceu. Adivinha como o menino se portou? Perguntando coi­sas assim para Jesus: “Sendo as­sim, Senhor, me parece que todo o pro­blema no qual vive o homem agora começou há muito tempo, lá no Céu. Como Deus pode culpar o ho­mem por arruinar o mundo por causa de seus pecados quando foi re­almente culpa do Céu ter deixado Sa­tanás vir a este mundo e vaguear pela Terra como se fosse dono dela?”.

O poeta inglês (ou galês) Robert Graves estudou muito os mitos, mas parece que ao final ele iguala tudo, reduzindo a verdade da Revelação a mais um mito entre tantos. Como o Sr. analisa a Bíblia frente a tantos mitos?

É até compreensível que estudiosos tratem a Bíblia como um mito igual aos demais, por questão de método. Com isso, inteligem muitas coisas valiosas e interessantes, mas ao mesmo tempo deram as costas à realidade e perdem o essencial e decisivo. O centro da Bíblia está na encarnação de Jesus Cristo. Isto é um fato que transforma a Bíblia no mito dos mitos. Todos os demais, a partir da encarnação, têm de ser encarados à luz desse fato e não como iguais. A diferença entre a Bíblia e outros mitos é a mesma que há entre um ser humano e um desenho seu.

O escritor romeno e católico ortodoxo Mircea Eliade era também mitólogo, mas parece que isso não o impediu de manter a Fé cristã. Primeiro, é isso procedente? Segundo, é possível um estudioso aprofundar o estudo dos mitos e não perder a Fé no Cristo?

Não sei dizer se manteve a fé cristã até o fim, conheço pouco da vida do Eliade, mais seu trabalho, mas é perfeitamente possível aprofundar o estudo dos mitos sem perder a fé no Cristo. Aliás, para um cris­tão é o oposto o que deve acontecer. Quanto mais se estuda os mitos, mais a fé em Nosso Senhor Jesus Cris­to se fortalece. Não há nada, ab­solutamente nada comparável a Ele.

Como o sr. consegue aproximar o livro do Eclesiastes com a Odis­seia ou a Ilíada e por que isso tem im­por­tância para duas grandes tradições – a Grega e a Católico-Romana?

Faço a comparação com a passagem na Odisseia em que Odisseu encontra Aquiles no Hades e comenta que se ele fôra o maior dos heróis em vida, certamente seria um grande na morte, ao que Aquiles responde que se soubesse como seria a morte teria preferido ser um pastor humilde ao grande guerreiro que foi. O sentimento de Aquiles, ali, é o mesmo de Salomão no Eclesiastes que conclui que se não há Deus, tudo é vão. Isso tem importância crucial porque na comparação constatamos a limitação da tradição greco-romana e a ilimitação do cristianismo em razão da sua dimensão salvífica. O encaixe entre ambas está magistralmente feito por Dante em sua Comédia. Virgílio é da tradição greco-romana, mas só pode auxiliar Dante até uma etapa do caminho. E o que há para além de onde Virgílio consegue ir é exatamente aquilo que resolve o dilema de Aquiles e Salomão. Sem Jesus Cristo, tudo é vão e tanto faz o que se foi e o que se quer ser.

Como o sr. faz a leitura da vida dos Santos na Igreja e a manutenção de tais devoções sem que, primeiro, o fiel não caia numa “idolatria” e, segundo, não perca o que o sr. denomina “a centralidade do Cristo” – a Imitação (Kempis) como essência da Fé Cristã?

A vacina contra a idolatria está em ter uma vida cristã mínima constante, ou seja, frequentar as missas, confessar, rezar, jejuar e dar esmolas. Se tem isso, dificilmente cairá na idolatria. Para além da vacina é preciso nunca parar de ler sobre as vidas dos santos. Quanto mais, melhor. Só corre risco de idolatria quem conhece poucos porque quando se conhece muitos não há como se enganar em sua devoção. Nenhum santo aponta para si. Costumo dizer que ninguém saberia quem é Tomás, Agostinho, Tereza, Francisco, sem o “São” antecedente aos nomes. E esse “são” só existe e só é compreensível quando referido ao único santo de verdade: Jesus Cristo. E não há vida de santo que não aponte para Ele.

O sr. fala do realismo e das possibilidades que se abrem de “mimese” (Au­erbach) para compreensão de mui­tos romances famosos. Isso é aplicável à História e às estórias da Bíblia?

Com certeza. O famoso capítulo primeiro desse livro de Auerbach, inclusive, aplica isso à história de Abraão. Quanto à História, é justamente por esse caminho que abrimos janelas para enxergarmos os fatos passados com razoável concretude imaginativa. Sem isso, temos apenas esquemas discursivos mais pensáveis do que imagináveis.

Como o sr. contrapõe o critério mitológico e o histórico ou historicista na Literatura e na leitura da Bíblia por fiéis e incrédulos?

Não contrapondo. Um princípio basilar de interpretação de literatura é considerá-la como um todo harmônico. Não se trata de separar essas camadas, mas de distingui-las dentro do mesmo todo a que pertencem. Os exemplos que citei do que fizeram Dante e Auerbach são perfeitos para ilustrar isso. Dante fez uma obra literária contendo a história, sem confundi-las nem as contrapôs. Auerbach não fez uma obra de literatura, mas toma a literatura como o princípio maior, a base e o destino de sua análise, enxergando a história a partir dela, não contrário. Com isso, compreende mais e melhor da história sem contrapô-la aos mitos ou à própria literatura. Tanto faz se você é fiel ou incrédulo da Bíblia. Se quer realmente lê-la, tem de tomá-la como uma unidade harmônica e compreendê-la primeiro assim para poder fazer qualquer consideração histórica ou comparativa com outros mitos.

O que sr. acha das traduções do sr. Frederico Lourenço vem fazendo da Bíblia?

Infelizmente ainda não li. Mas ainda que o tivesse, seria apenas um palpite. Eis uma área que não domino o suficiente para avaliar.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (Poemas, Edit. Mondrongo, 2017)

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