As ondas de calor já provocaram pelo menos 120 mil mortes associadas às altas temperaturas no Brasil nos últimos 20 anos, segundo o estudo Saúde e ondas de calor: mortalidade, morbidade e implicações para o SUS no Brasil, publicado por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Os idosos responderam por cerca de 97 mil desses óbitos, o equivalente a 80% do total analisado. Diante desse cenário, especialistas ouvidos pelo Jornal Opção afirmam que Goiás deve enfrentar um período de temperaturas acima da média no segundo semestre e alertam que, embora o estado esteja mais adaptado ao calor do que diversos países europeus, o fenômeno pode trazer consequências graves, principalmente para idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e trabalhadores expostos ao sol.

Por que os idosos são os mais afetados pelas ondas de calor?

Os números do estudo nacional mostram que quatro em cada cinco mortes associadas às ondas de calor ocorreram entre pessoas com 65 anos ou mais. Para a médica especialista em saúde do idoso Andressa Augusta (CRM-GO 20.997), os idosos correm mais risco porque o envelhecimento reduz a capacidade natural do organismo de controlar a temperatura corporal.

“Os idosos transpiram menos, sentem menos sede e têm alterações na capacidade de regular a temperatura do corpo. Além disso, muitos convivem com doenças cardiovasculares e renais, o que aumenta o risco de complicações.”

Ela afirma que, na prática clínica, esses casos são mais frequentes do que parecem.

“Muitas vezes o paciente chega com confusão mental, pressão baixa, tontura ou desidratação. Esses sintomas acabam sendo atribuídos às doenças crônicas ou aos medicamentos, quando, na verdade, é o calor.”

O calor pode causar infarto, AVC e lesão renal

Segundo a especialista, o calor intenso não provoca apenas desidratação.

“Em situações extremas, ele pode desencadear infarto, AVC, agravar a insuficiência cardíaca e provocar lesão renal aguda.”

Ela orienta que familiares fiquem atentos a sintomas como:

  • confusão mental;
  • sonolência excessiva;
  • boca seca;
  • urina escura ou redução da quantidade de urina;
  • tontura;
  • fraqueza intensa;
  • pele muito quente;
  • náuseas;
  • dor de cabeça;
  • desmaios.

“Em alguns casos, a desidratação pode evoluir até para crises convulsivas.”

Goiás deve enfrentar calor mais intenso a partir de agosto

A coordenadora do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para Goiás e Tocantins, Elizabete Alves, afirma que há risco de ondas de calor entre agosto e dezembro, período que tradicionalmente já concentra as maiores temperaturas na região Centro-Oeste.

Segundo ela, caso o El Niño mantenha intensidade elevada, a tendência é de aumento na frequência desses episódios.

“Já ocorre mesmo sem a presença do El Niño. Mas, sendo o El Niño forte ou muito forte, ele aumenta ainda mais a frequência desses episódios em relação aos anos em que o fenômeno não atua.”

A meteorologista lembra que Goiás viveu esse cenário em 2024.

“Tivemos ondas de calor em todos os meses do segundo semestre. Novembro foi um dos meses mais quentes do ano, com duas ou três ondas de calor registradas.”

O gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, explica que o El Niño já está oficialmente instalado no Oceano Pacífico, mas seus efeitos ainda não apareceram de forma intensa em Goiás.

“Temos um ano de El Niño. Quando eu pergunto para as pessoas se já perceberam as características do fenômeno, a resposta ainda é não, pelo menos de forma muito evidente. Uma das principais características são ondas de calor prolongadas e estiagens, mas, por enquanto, essas ondas de calor ainda não se manifestaram de maneira expressiva.”

Segundo ele, uma onda de calor é caracterizada por temperaturas cerca de 5°C acima da média histórica durante vários dias consecutivos.

“Se Goiânia normalmente registra entre 30°C e 32°C em setembro, durante uma onda de calor podemos ter temperaturas próximas de 35°C por vários dias seguidos. Isso provoca muito desconforto térmico.”

Enquanto diversos países europeus registram aumento no número de mortes durante ondas de calor, André Amorim explica que a realidade climática de Goiás é diferente.

“A população europeia está acostumada ao frio. As casas são construídas para reter calor e muitas nem possuem ar-condicionado. Em Goiás convivemos com temperaturas elevadas há décadas. Isso tende a reduzir parte dos impactos.”

Mesmo assim, isso não significa ausência de riscos. Para Elizabete Alves, fatalidades podem ocorrer, principalmente entre as populações mais vulneráveis.

“Pode acontecer, principalmente com a população em situação de rua e com os idosos. Nessas situações pode haver desidratação intensa, exposição prolongada ao sol e baixa umidade do ar.”

Ela destaca que trabalhadores como garis, operários da construção civil e carteiros estão entre os mais vulneráveis.

“Seria realmente importante que esses trabalhadores tivessem momentos de pausa para hidratação e permanência à sombra durante parte da jornada.”

Segundo a meteorologista, Goiás avançou na integração entre os alertas meteorológicos e a rede pública de saúde, permitindo que hospitais e equipes de atendimento se preparem para períodos de calor extremo.

“Quando a Defesa Civil emite alertas meteorológicos, eles podem ser integrados à saúde pública para preparar hospitais e orientar a população. Algumas localidades já estão se organizando nesse sentido, integrando os avisos meteorológicos aos protocolos de atendimento.”

Como enfrentar as ondas de calor

Os três especialistas reforçam que medidas simples podem evitar complicações. Elizabete Alves orienta a população a manter os ambientes umidificados, utilizar toalhas molhadas ou bacias com água, evitar exposição ao sol entre 11h e 16h, manter cortinas fechadas durante as horas mais quentes e reforçar a hidratação ao longo do dia.

Ela também faz um alerta para outro agravante típico do período seco.

“A ação humana contribui para que esse ar fique ainda mais poluído nesse período, principalmente por causa dos focos de incêndio provocados pela própria população.”

Na área da saúde, Andressa Augusta recomenda que idosos bebam entre 1,5 e 2 litros de líquidos por dia, mesmo sem sentir sede, permaneçam em locais ventilados, utilizem roupas leves, prefiram banhos mornos ou frios e evitem sair nos horários de maior calor.

Embora Goiás esteja acostumado às altas temperaturas, os especialistas são unânimes em afirmar que a combinação entre calor intenso, baixa umidade e mudanças climáticas exige atenção cada vez maior. O principal alerta é para que a população não subestime os efeitos do calor extremo, especialmente quando ele se prolonga por vários dias consecutivos. A prevenção continua sendo a principal ferramenta para evitar internações e mortes.

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